Veronica Botelho

O que podemos aprender com a morte de Gene Hackman e Betsy Arakawa: Reflexões sobre presença e ausência

A morte é uma maneira dolorosa de ensinar a importância do presente, mas e quando o esquecimento faz parte desse presente?

Duas semanas atrás, quando soube que Gene Hackman e sua esposa Betsy Arakawa haviam sido encontrados mortos, juntamente com um de seus cachorros, após dias de isolamento, minha maneira de prestar homenagem foi escrever um artigo sobre ele e o seu legado. Descobri a história de um casal que se conheceu há mais de 30 anos em uma academia, e que viviam em sintonia entre atividades esportivas e várias paixões em comum: música (ela era pianista), escrita (os dois escreveram alguns livros em colaboração), pintura e o amor por cachorros.

Até então, só conhecia o Hackman, brilhante e discreto ator. Pesquisando para o texto, li detalhes de como os corpos tinham sido encontrados, sobre o estado de decomposição, sobre o dela ter sido encontrado ao lado de remédios pelo chão e um pequeno calefator. Comecei a fantasiar sobre como deveriam ter morrido. 

No último domingo, com a divulgação de mais detalhes sobre a morte deles, quis escrever mais, mas fui invadida por um amargor que contagiou minhas entranhas, como se o fel tivesse se rompido, e paralisei.

Gene Hackman e Betsy Arakawa - Veronica Botelho
Gene Hackman e Betsy Arakawa – Veronica Botelho

Cresci escutando que notícia ruim não chega, voa. Vivi isso na pele várias vezes, muito antes de existirem celulares. Hoje, na era da hipercomunicação, já virou clichê falar que estamos cada dia mais desconectados, mas continuamos caminhando em direção a um abismo ainda mais profundo: o da indiferença. Não é apenas o isolamento que nos assombra, mas a anestesia do olhar humano em sociedades onde estamos cada vez mais centrados no próprio umbigo, ou no ataque aos outros, às polêmicas, de tal forma que não enxergamos sequer o vizinho da casa ao lado.

O sentir-se sozinho por entre a gente já não se faz mais referência apenas ao amor, como dizia Camões. Hoje, sentir-se sozinho por entre a gente vem acompanhado de sentir-se sozinho por entre as máquinas, nos scrollings infinitos nos sociais… vem acompanhado de sentir-se esquecido.

A autópsia revelou que a pianista contraiu um vírus raro – hantavírus – e faleceu 7 dias antes do seu marido. Ele morreu por complicações cardíacas agravadas pelo Alzheimer.

Especialistas sugerem que, devido ao estado avançado de Alzheimer, ele pode não ter percebido de imediato que Betsy estava morta, ou que, durante os 7 dias em que sobreviveu sozinho, tenha revivido, repetidamente, a sua perda.

Nunca poderemos saber exatamente o que aconteceu naqueles dias. São muitas perguntas sem resposta: Por que sua esposa não pediu ajuda ao começar a se sentir mal? Se mantinham uma boa relação com os filhos, como ficaram dois meses sem contato algum, incluindo Natal e Ano Novo? A cuidadora da mãe de Betsy, que também tem Alzheimer, declarou que a filha sempre ligava, porém desde outubro não recebia nenhuma ligação. Como ninguém estranhou esse silêncio? Como a ausência do casal permaneceu despercebida por duas semanas? Por que tinha um calefator pequeno ao lado do corpo de Betsy?

O calefator sempre fez parte das fantasias que criei. Foi esse detalhe, antes mesmo das autópsias, que me fez pensar que ela tivesse morrido primeiro. Imaginei que, ao encontrá-la fria, ele pegasse o calefator numa tentativa de aquecê-la, sem compreender que ela tivesse morrido. 

A ideia de que ele tenha passado dias sem entender o que havia acontecido, ou revivendo sua morte como uma notícia sempre nova, me parece uma das formas mais cruéis de sofrimento mental. Não consigo pensar em nada mais agonizante: viver várias vezes o primeiro momento de saber que alguém que amamos morreu, na mais precisa exemplificação da relatividade do tempo – o luto dilata, o expande, os segundos passam como dias, os minutos como meses.

Não consigo tirar da minha mente a imagem dele tentando aquecer o corpo inerte da sua companheira, sem entender por que ela não respondia, sentindo desespero, até morrer 7 dias depois.

O silêncio do esquecimento, a impotência na sua forma mais desesperante. Quando o esquecer que se foi esquecido parece ser a única coisa que poderia trazer um mínimo de alívio nessa história atroz – estar sozinho e esquecido. Morrer e não ser mais notícia ruim, para voar.

A morte deles nos diz muito sobre a sociedade na qual nos transformamos: egocêntrica, individualista e superficial.

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