The power of Anitta: uma análise atípica

Imagem: Anitta e Kevinho (foto de divulgação)

Por Veronica Botelho

“O medo de que não vamos dar conta de crescer além de quaisquer distorções que possamos achar em nós mesmas é que nos mantém dóceis, leais e obedientes, definidas pelo que vem de fora, e que nos leva a aceitar muitos aspectos da opressão que sofremos por sermos mulheres.”

Audre Lorde

Minha adolescência foi marcada por muitos estilos musicais, mas sem dúvida um dos que mais lembro é o do grupo “É o tchan” – não existia festa em casa com amigas nas quais não acabávamos todas descendo na boquinha da garrafa, ou “segurando o tchan”. Lembro dos adultos olhando e rindo, e quantas mais olhadas e risadas, mais nos animávamos na dança. A verdade é que não lembro de nenhuma sensação que me mandasse além da minha idade, até porque naquela idade sexo era fora dos meus pensamentos, o conceito de vulgar também, a minha sensação era de dançar livremente e com coreografias ensaiadas. Não percebia nenhuma maldade.

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REFUGIADO: a busca de um sonho, o encontro da utopia

Acredito que uma das funções de quem escreve é devolver às palavras os seus significados originais. Caso não seja possível, pelo menos tentar dar uma explicação, abrir um diálogo sobre o porquê uma palavra se perdeu pelo caminho, ganhando outra conotação, mudando sentidos, significados, mas, principalmente, tentar prestar atenção em como a sentimos. Uma palavra que escutamos diariamente, principalmente aqui na Europa e que está nos focos de cada noticiário, é a “refugiado”.
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Quanta razão tinha Umberto Eco: “o fascismo eterno”

Por Veronica Botelho

Após a execução da socióloga, feminista e militante dos direitos humanos brasileira Marielle Franco, em março de 2018, escrevi um texto onde fazia um paralelismo da situação atual em três lugares que considero como casa: Brasil, Itália e Catalunha. A conclusão a qual cheguei foi que a democracia está morrendo, está perdendo para um fascismo emascarado, e que estamos todos divididos, negando a realidade. Recentemente, me deparei com o texto “O fascismo eterno”, que o escritor, filósofo, semiólogo, linguista e bibliófilo italiano Umberto Eco escreveu em 1995, para uma conferência da Universidade Columbia, de Nova York, durante celebração da liberação da Europa. Com esse texto, mais uma vez Umberto Eco nos faz refletir e encontrar respostas para o que estamos vivendo.

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Marielle, presente no mundo.

Ilustração: Giulia Cavalcanti  Instagram @giulialovesmuffins

A execução de Marielle é um reflexo do que está acontecendo em vários lugares do mundo.

Quando decidimos morar fora do nosso país de origem, nem sempre pensamos no tempo que perderemos. No meu caso, no início era tudo descoberta. Vir morar no exterior no final dos anos 90 foi uma escolha, não uma necessidade. Passei vários anos tentando entender como funcionava as culturas com as quais começava a entrar em contato. Aprendi que eu, como jovem negra, era mais respeitada e aceita fora do meu próprio país. Aprendi, vendo na prática, que existia um respeito pelas pessoas, e naquela época a curiosidade pelas diferentes culturas na Europa era mais forte que os casos de “racismo” e xenofobia. Aprendi a lutar junto com amigas catalães, pelos direitos humanos, pelo direito a se ter uma voz, comecei a me interessar mais pela política, a entender a importância da implicação dos jovens na mesma. No Brasil vivia numa situação privilegiada e fora da realidade da maioria, mas só percebi a incoerência e injustiça existente, quando comecei a viajar. Foi na Catalunha que aprendi a importância de lutarmos juntos por nossos ideais, por nossos direitos. Foi lá que aprendi a importância de não nos calar!
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Brasil: Um país multicultural?

Imagem: Giulia Cavalcanti  Instagram @giulialovesmuffins

Quando penso no conceito de multiculturalismo, automaticamente penso num lugar onde diferentes culturas convivem pacificamente, respeitando umas as outras e interagindo entre elas. Penso numa sociedade onde não se julga a cor da pele, a classe social, o gênero, a proveniência familiar. E não, não penso no meu país de origem – Brasil.

Quando falo do meu país, me vem em mente uma sociedade com várias realidades culturais. Mas para mim, “multi” seria multiplicar, e o Brasil onde vivi, não conseguiu se multiplicar, pelo menos não ainda. “Em vez de multiplicar, se divide. Divide-se em classes sociais bem distintas; divide-se territorialmente por regiões, como também entre territórios de negros e de brancos; favelas e asfaltos; Norte e Sul…” Edilberto C, professor e poeta potiguar.

As minorias culturais conseguiram sobreviver dentro de uma invisibilidade, consequência de um passado de colônia, mas principalmente consequência de continuar sombra de um passado, que como sabemos não pode ser mudado. Esse passado pode ser assimilado, aceitado, para poder transformar o futuro, através de ações “aqui e agora”.

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