
Por Veronica Botelho
Cansei de viver no silêncio, na sombra e na invisibilidade de um sistema que não se enxerga.
Invisível dentro uma estrutura que, na verdade, é cega e não me vê, do mesmo jeito que não vê as outras pessoas, do mesmo jeito que não enxerga as suas falhas, do mesmo jeito que insiste em continuar negando evidências, fatos, vidas… e milhares de mortes.
Cansei de escutar e ficar calada. Calada por não querer ofender, calada por acreditar que tudo tem seu tempo.
Cansei de esperar que chegue o tempo em que todas as pessoas serão tratadas e vistas como diferentemente iguais.
Cansei de esperar que chegue o tempo em que inocentes vão parar de morrer.
Cansei de esperar pela união entre as pessoas por um bem que deveria ser comum: a vida.
Já escutei inúmeras vezes que não posso opinar sobre política no Brasil, porque não vivo lá há muitos anos.
Saí do Brasil antes de poder votar e decidi me abster do direito ao voto porque a minha coerência me fez pensar que não morando lá não tinha o direito de influenciar nas eleições.
E, mesmo amando a política (não o que fazem com ela, mas o que esta representa), decidi lutar e me manifestar nos lugares onde morei, mesmo não podendo influenciar diretamente nas eleições, já que rejeitei a possibilidade de ter tanto a nacionalidade espanhola quanto a nacionalidade italiana, algo que facilitaria minha vida na Europa. Assim o fiz não apenas porque acredito que o mundo seja de todos nós, mas também porque esta foi a maneira que encontrei de protestar contra um mundo onde uma nacionalidade vale mais que a outra.
Agora eu cansei, cansei de verdade.
Não acompanhei de perto a campanha do Bolsonaro, mas tal como venho fazendo há mais de 20 anos, li o programa de todos os candidatos. Quando comecei a receber nos grupos de familiares e amigos imagens pró-Bolsonaro, a única coisa que questionei foi: como poderiam votar numa pessoa que prometia dar armas à população? Depois, timidamente, lembrei a eles que sou uma mulher negra e nordestina e falei em tom de brincadeira (única maneira que encontrei para não ser atacada e, ainda assim, ir contra ao silêncio): — Como quero viver mais alguns anos, acho que tão cedo não vou poder voltar ao Brasil! Resposta: Silêncio!
Sei que não vivo aí. Essa foi uma escolha minha e ao fazê-la, sem perceber, acabei escolhendo também por viver no silêncio. No silêncio da minha terra natal e no silêncio das tantas terras pelas quais passei.
Agora eu quero gritar. Gritar que, quando vidas estão em perigo, não importa onde estamos e, por isso, tenho direito à voz, mesmo não morando aí.
Quero gritar para as pessoas brancas que nunca me viram e para as negras que também nunca me viram, porque crescer branca dentro de um corpo negro foi o que me condenou ao silêncio.
Amigos brancos, vocês estão com as mãos sujas de sangue há muito tempo. Por isso, agora as suas mãos viraram feridas abertas que não param de sangrar.
Sei que vocês sentem raiva por causa dos 14 anos de governo do PT. Todavia, o foco dessa discussão não é se este partido roubou ou arruinou nosso país, até mesmo porque o Brasil foi e continua sendo saqueado desde os tempos da colonização.
Quero me concentrar naquilo que vejo a partir de fora. Tenho primes no Piauí com carreiras universitárias, coisa que nunca tinha acontecido na minha família materna. Minha avó aprendeu a ler quase aos 50 anos. Cada vez que vou ao Brasil vejo pessoas negras viajando, quando antes eu era a única pessoa negra no aeroporto que não estava carregando malas ou limpando o chão.
Diferente do passado, quando a única pessoa negra que eu via em situação semelhante à minha era a Glória Maria, e mesmo ela, acredito eu, também tinha que conviver com vários silêncios; o que vejo agora é um movimento intelectual potente de pessoas negras que lutam pela igualdade social e ele só aumenta.
Agora vejo também um genocídio à minha frente. Pessoas inocentes morrendo por causa do racismo estrutural e sistêmico. É verdade que isto já dura muito tempo, mas agora está escancarado e vocês não podem mais usar a desculpa de que não sabem, pois uma das coisas mais positivas que a globalização nos trouxe foi a circulação de informações.
Por isso, não me importa se o Governo Bolsonaro construiu estradas ou aliou-se às “maiores” potências do mundo, não me importa se empresas internacionais voltaram a confiar no Brasil… Enquanto vidas negras continuarem morrendo, nada disso me importa. Enquanto o racismo continuar a ser negado e justificado, enquanto 54% da população continuar sendo esmagada, silenciada, invisibilizada e exterminada, nada disso me importa.
Para ser sincera, me parece absurdo vangloriar-se da construção de colégios militares ou do corte de verbas para o Ministério dos Direitos Humanos.
Os ministros atuais possuem competências técnicas? Ok, mas onde estão as pessoas negras e as mulheres nesses ministérios?
As mortes dos policiais diminuíram? E a população, que deveria ser defendida, e não assassinada, por eles e cujas mortes só aumentam?
Ganhamos o apoio do Estados Unidos e Israel? Sério que vocês acreditam que seja um apoio e não uma maneira de continuarem a se aproveitar das nossas riquezas com o aval e ajuda do próprio governo?
Turistas dos Estados Unidos, Japão, Canadá e Austrália já não precisam mais de vistos??? E desde quando acordos unilaterais são soluções vantajosas para o Brasil??
Não sei se isto é uma cegueira, uma estupidez ou se o que vocês realmente querem é ter um país livre de nós, que fomos justamente as pessoas a construir esta nação e que ainda somos o motivo pelo qual vocês podem continuar a viver como vivem. E isso, obviamente, só é possível graças ao nosso silêncio, que diariamente é forçado por vocês.
Amigos negros, sinto um orgulho enorme de vocês, de nós. Tenho acompanhado a nossa luta desde que nasci e demorei a me pronunciar, mas por pura ignorância, por não ter consciência do que acontecia, mesmo vivendo na pele. Fui calada pela falácia da meritocracia, professada pela minha própria mãe, mulher negra. Com o tempo aprendi que ninguém vence sozinho, que precisamos nos unir e que a frase “a união faz a força” não é só um slogan.
Por isso, apesar de todo o orgulho e alegria ao ver que a gente balança, mas não cai, apesar de perceber que temos nos tornado mais fortes do que nunca… fico triste ao ver tantas campanhas e ações realizadas por vocês de modo paralelo e muitas vezes desordenado. Essas campanhas são sim lícitas e em prol da nossa população, mas muitas vezes faltam a elas a união, um movimento conjunto e ancorado nas nossas dores e anseios similares, que surgem a partir da cor da nossa pele.
Já imaginaram, por exemplo, quão potente seria se nos organizássemos e criássemos uma única estratégia de revolução não violenta? Se todas as pessoas negras militantes e ativistas se juntassem, independente da notoriedade?
Se juntes criássemos uma estratégia para chegar ao poder, afinal de contas, somos maioria. Seria grandioso, podem ter certeza. Seria realmente uma concentração de poder nas mãos das pessoas negras e também das pessoas brancas que lutam ou querem lutar junto conosco pela vida humana.
Sim, isso inclui também nos unirmos a vocês, amigos brancos que também gritam pelo antifascismo. Agora é a hora de nos aliarmos e sermos antirracistas, porque é onde tudo começa.
Não é hora de deixar que nossos egos falem mais alto, não é hora de querer ter um protagonismo dentro de uma história que é de todos. Quando pessoas inocentes morrem, não existe ninguém que sai ganhando.
Devemos juntar nossas forças, criar um movimento único e projetar coletivamente o país onde gostaríamos de viver.
Criar cargos e nomear líderes a partir das competências de cada pessoa. Ou seja, criar um projeto único de país que englobe sonhos e projetos diversos, criar uma voz, única, porém plural.
Muitas pessoas já estão lutando por isso, mas acabam se sentindo cansadas e solitárias. Para que a gente não esmoreça, se entrelacem, colaborem entre si, dividam para multiplicar. Afinal de contas, defender o direito à vida, lutar por um país melhor e querer viver em paz são causas em comum. Utopia?
Um país onde as pessoas permitem a existência de uma classe privilegiada — em detrimento de outra que é esmagada, silenciada e assassinada diariamente — está fadado a um futuro pior do que o atual presente.
Se vocês acham que é utópico unir-se em prol de um bem comum, ou seja, a vida, comecem a imaginar como será viver num futuro distópico. Um futuro que, nem mesmo aqueles que acreditam não ser parte desta luta, gostarão de viver.
