Ícone do site Veronica Botelho

Qual é a tua raça?

Por Veronica Botelho

Esse é o título de uma das crônicas presentes no meu livro Meias Verdades. Nela faço uma reflexão sobre racismo e xenofobia e defendo a extinção do uso da palavra racismo, justificando que a mesma se baseia num dos muitos equívocos da ciência, já que ficou demonstrado com o estudo do DNA que não se pode falar de diferentes raças quando nos referimos aos seres humanos.

Recebi algumas críticas sobre isso, pois algumas pessoas interpretaram como se eu estivesse negando a existência do racismo, ao passo que outras se mostraram de acordo com a minha reflexão, mas não entenderam qual então poderia ser o termo mais correto para substituir a palavra “raça”.

Quase três anos após a publicação desse livro, continuo observando, analisando e, principalmente, vivendo, situações que eu mesma confesso não saber chamar de outro modo, a não ser “racismo”.

Talvez para facilitar o conceito, talvez porque continuemos, consciente ou inconscientemente, acreditando que somos mesmo diferentes…  talvez porque esta palavra se impregnou no nosso DNA, de tal modo que acabou por modificá-lo, já que muitos de nós, negros, continuamos a aceitar sermos tratados como inferiores e continuamos a nos calar perante a supremacia branca…

Afinal de contas, nos acostumamos a ter que impor nossos direitos, a nos defender e por isso estamos cansados. Muitas vezes nos sentimos até ridículos, pois escutamos que é muito mimimi, mas a verdade é que crescer ouvindo comentários “racistas” é mais forte do que qualquer demonstração científica de que somos todos parte de uma única raça.

Cresci negra numa família composta por metade negros e metade brancos, cresci escutando que negro quando não caga na entrada caga na saída, que se meu nariz fosse mais afilado poderia até enganar um pouquinho minha raiz negra, que era melhor eu estudar porque, do contrário, nunca seria respeitada. Que o mundo é cruel com os negros, que sempre vou ter que trabalhar mais duro para ser respeitada…

Sem perceber, cresci tentando me embranquecer. Por ser a única negra da minha família branca, muitas vezes acreditava que eu também era branca. Só quando saia da minha bolha percebia que era diferente. Sem querer e sem nem dar importância, acabei sendo a outra várias vezes, tive namorados que me escondiam dos seus amigos e aceitava tudo isso calada, sem entender o porquê…

Acabei me casando com um branco, tive duas filhas aparentemente brancas. Continuei escutando isso, mas dessa vez do pai das minhas filhas. Inúmeras vezes, ao escrever um projeto e ter que apresentá-lo, ouvia as pessoas dizer:

– Melhor eu falar primeiro, você sabe como funciona, né?!
Não se vista assim, senão você vai parecer a típica brasileira e acabam te confundindo com uma puta
– Deixa eu entrar primeiro, depois você entra, assim nos tratarão melhor…
– Se você dançar assim vão pensar mal, você sabe como é quando veem mulata aqui na Europa…

Continuei sem dar importância, continuei me calando, aceitando uma situação que para mim sempre foi normalidade.

Hoje estou em processo de separação, sozinha com minhas filhas, num país que não é meu. De repente, as situações que há muito havia deixado para trás voltaram com ainda mais força.

Virei carne fácil, frequentemente ouço comentários desrespeitosos de pais de amigas das minhas filhas, escuto cantadas vulgares, comentários sobre meu corpo, desconhecidos se sentem no direito de me tocar…

Ao cruzar fronteiras, fui tratada mal. Solicitaram meu documento numa fila, enquanto não falaram nada para minha amiga branca que estava ao meu lado. Quando vou apresentar um projeto, tenho que levar alguém branco para poder iniciar a fala e, só desta maneira, ser levada a sério e, mesmo sabendo que o projeto foi idealizado por mim, os olhares e as perguntas acabam sendo mais direcionados para a pessoa branca.

E agora, que já não tenho mais alguém que entre antes de mim e me apresente, alguém que, por meio da sua presença, me faça ser respeitada, me percebo sozinha com minha cor e minha voz… E, mesmo assim, continuo me calando, porque cada vez que tento comentar tais situações, a primeira coisa que escuto é:

Entretanto, uma das coisas positivas da internet é que finalmente estou encontrando pessoas “paranóicas” como eu, que vivem situações parecidas às minhas.

Aos poucos começamos a falar, estamos perdendo o medo, estamos cansadas de nos calar, porque o silêncio nunca resolveu nada, porque quem cala consente e já nos calamos por muito tempo…

Estamos vivendo um momento histórico, ganhando mais força graças a pessoas como Djamila Ribeiro, Noemia Colonna, Joice Berth… O caminho é longo, mas parado não se chega a lugar algum.

Hoje escreveria minha crônica de um modo diferente, confesso. Se, por um lado, continuo defendendo que a utilização de uma palavra derivada de um equívoco científico acaba por dar ainda mais força ao racismo; por outro sou consciente de que é o nosso silêncio que continua reforçando este erro científico.

Afinal, a ciência já até comprovou que pertencemos a uma mesma raça, ou seja, a raça humana.

Ou seja, é o não reconhecimento da branquitude em relação aos seus privilégios, é o nosso inconsciente coletivo que continua dando força a um erro científico que provocou e ainda está provocando várias mortes e, infelizmente, catástrofes históricas também.

Sair da versão mobile