Por Veronica Botelho
Tinha 15 anos quando vim à Europa pela primeira vez e só a partir de então senti que “ser negra” era algo positivo, ou pelo menos foi nisso que acreditei naquela época.
Inclusive, até pouco tempo atrás, escrevi um texto no meu livro Meias Verdades defendendo a existência de uma xenofobia na Europa. Essa visão era resultado de ter crescido como branca numa pele negra, algo que tinha me deixado colour blindness.
Eu era cega para o “racismo velado” e para o “racismo recreativo”, tão bem identificado e explicado pelo Prof. Adilson Moreira; cega para o “racismo estrutural”, também existente aqui na Europa.
Mas hoje reconheço isso e, após muito me culpar, tentei entender.
Após chegar na Europa vivi aqui várias primeiras vezes: primeira vez que escutei as pessoas elogiando a cor da minha pele; primeira vez que me senti tratada por quem eu era e não por ser filha “de”; primeira vez me senti aceita nos lugares; primeira vez que senti olhares de admiração; primeira vez que beijava uma pessoa que não quisesse me esconder; primeira vez que pensei em morar fora do Brasil.
Por isso, minha vivência enquanto mulher negra e brasileira aqui na Europa, comparada à experiência que tive no Brasil, foi bem melhor.
Não que não tenha sofrido “racismo” deste lado do Atlântico. Sim, tenho várias histórias pra contar, mas aqui elas me acontecem bem menos vezes do quando volto ao meu país.
Em cada lugar onde morei, me esforcei para aprender a língua, a cultura, entender os costumes, frequentar bibliotecas – onde sempre acabei conhecendo pessoas maravilhosas, diga-se de passagem.
Ainda assim, me acostumei a ouvir piadinhas, a escutar as pessoas falando mal dos estrangeires e dos negros (inclusive, meu próprio ex-marido fazia isso); para, ao final, essas mesmas pessoas me olharem e explicarem que eu era diferente, mesmo sendo também estrangeira e negra.
Ser negra aqui muitas vezes desperta curiosidade e isso vale até para mim, que sou identificada pelos europeus como “mulata”, palavra derivada de mula e que denota um condicionamento inconsciente ao ser utilizada no lugar da palavra negro.
Muitos assim me chamam por me verem quase como eles. Alguns até mesmo me corrigem quando digo que sou negra, como se ser negra fosse alguma coisa degradante.
Confesso que demorei para reconhecer o “racismo” na Europa, o “racismo” das pessoas que fazem parte do meu convívio, demorei também a me reconhecer “racista”.
Lutemos contra a racialização das pessoas
Justamente por isso defendo que a principal arma de luta contra o racismo é o reconhecimento de que sim, ele existe, pois somente identificando a origem do problema torna-se possível aniquilar o inimigo.
É começar a ensinar às pessoas que somos todos da mesma raça, e que o conceito de raça como vem sendo utilizando, é uma construção social criada pelos brancos para justificar a abdução e escravização das pessoas negras.
Quando falo que somos todos humanos, espero que as pessoas brancas compreendam que ela deveriam ser as primeiras a enxergar isso não sob a perspectiva da negação do racismo, mas sim a partir do entendimento de que foi justamente o conceito de raça que nos separou e consolidou a ideia de que negros eram inferiores aos brancos.
Isso tem raízes tão profundas que você pode não se considerar racista num nível consciente, mas os estudos demonstram que seu cérebro sim, ou seja, inconscientemente você é racista. A propósito, todos somos.
Já foi comprovado cientificamente a existência de uma única raça, que é a humana. Por que então continuar utilizando uma palavra que deriva de uma estratégia capitalista de usurpação e que forçou um erro científico, para se apoiar?
Porque continuar lutando contra um “adversário” que, hoje sabemos, nasceu a partir de interesses econômicos que forçaram uma descoberta científica errônea? Deixemos isto de lado, pois temos que encontrar novas armas e novas formas de derrotar o “racismo”!
Lutemos contra a desumanização, lutemos contra o condicionamento cruel baseado no conceito errôneo de raça. Lutemos contra a racialização das pessoas.
Lutemos pela construção de uma sociedade humana e em favor de uma educação que nos ensine a desconstruir o conceito de raça.
Ensinemos uma empatia sem distinção de cor, credo e origem geográfica…. Lutemos por nos conectar através do que temos em comum: as emoções, o mesmo céu, o mesmo ar, a vida…
Lutemos pelos seres humanos, não nos separando, muito menos nos negando, tampouco reafirmando que as raças existem!
Lutemos para que todos possam ter as mesmas condições, os mesmos direitos, pelo simples fato de que somos todos pessoas!
Lutemos para que deixem de existir as pessoas privilegiadas, ao passo que outras são esmagadas, silenciadas, assassinadas… por causa da cor da pele.
Lutemos para curar essa ferida que nos foi deixada pela escravidão, sempre reconhecendo, desconstruindo e reconstruindo o conceito de raça humana.
Todos os brasileiros têm o direito de se sentirem representados, de terem os mesmos direitos, as mesmas oportunidades… de viver dignamente.
A ganância condenou as nossas vidas. Essa ganância por muitos anos se justificou com a ciência, quando a mesma afirmou que existem raças superiores às outras. E essa mesma ganância continua presente, mesmo o erro tendo sido reconhecido há tantos anos.
E aqui estamos, vidas condenadas. Pessoas brancas condenadas por terem provocado tanta dor, por terem cometido tantas atrocidades e por continuarem a fazer isso, especialmente quando optam pelo silêncio; e pessoas negras condenadas a viverem na pele essas tantas dores e atrocidades.
Enquanto vivermos numa sociedade em que pessoas continuam passando fome, morrendo por causa da ganância, pela sede de poder e por acreditarem que existem raças diferentes; nunca alcançaremos um futuro onde a paz seja um bem comum.
Por isso, insisto em dizer: Somos todos de uma única raça, somos todos humanos!

