Por Veronica Botelho
Hoje foi um daqueles dias em que argumentos que para muitos podem parecer desconexos, para outros são o pão de cada dia e estão mais do que conectados.
Logo pela manhã li um post da jornalista Noemia Colonna, onde ela expressava a invisibilidade que nós, mulheres negras, enfrentamos em lugares públicos. Para tal, compartilhou uma experiência vivida por ela recentemente num restaurante do Rio de Janeiro.
Nesse mesmo post ela convidava à leitura de um artigo — que é parte de um dossiê sobre raça e direitos humanos que enfoca na conscientização da população branca em relação aos privilégios que gozam no Brasil — propondo o envolvimento ativo da população branca e de entidades do governo na luta antirracista.
Após ler o post, compartilhei em algumas linhas que cresci me sentindo invisível e que, nas poucas vezes que tentei comentar com amigues, sempre acabei sendo tachada como paranoica.
O que talvez não esperava era que justamente hoje viveria uma situação que me mandou de volta aquela mesma sensação de impotência e de invisibilidade, ainda que com outra conotação…
Fui almoçar com minhas filhas e duas amigas num restaurante que, a cada ano, faz feijoada como abertura da temporada, já que os donos são brasileiros, mas a especialidade da cozinha é italiana.
Lá encontramos dois casais de brasileiros, conhecidos nossos, com suas filhas. Trocamos algumas palavras, apresentei minhas amigas, mas cada um se manteve na sua mesa.
Enquanto comia e conversava com minhas amigas, escutamos uma delas falarem:
– Quando eu emagrecer, faço a operação e pronto. — na sequência, o marido fala:
– Vai operar o quê? O cérebro? Conheço um neurologista muito bom, mas acho que teu caso não tem solução.
Os dois homens presentes na mesa começam a rir e as mulheres esboçam aquele sorriso de circunstância, sem dizer uma só palavra. Me controlo para não falar nada, afinal, mesmo que sem intenção, por causa da proximidade das mesas estava invadindo a privacidade deles.
Olho para minhas amigas, balanço a cabeça e continuo comendo, absorvida em pensamentos e refletindo sobre como os homens conseguem nos humilhar com tanta desenvoltura.
De repente, entre um prato e outro de feijoada, quando passava perto da mesa deles, um deles diz em alto e bom tom:
– Como será que vive o marido de uma feminista? — sentindo os olhares dirigidos à mim, sorrio, olho para trás com o rabo de olho e respondo:
– Divorciado ou viúvo.
Respondi instintivamente, pois sabia que era uma provocação, então resolvi ser sarcástica e deixar pra lá. Eles começam a rir e continuam a conversa entre eles.
Minhas amigas me observam indignadas, sorrio:
– Deixa pra lá, estavam só me provocando. Eles teriam que ler aquele texto “Sejamos todos feministas”, de Chimamanda Adichie. Vocês conhecem?
– Conheço, inclusive acho que ela quis mesmo divulgá-lo, pois encontrei o pdf dele grátis.
– Sério?! Vou procurar agora mesmo e mandar para eles.
E começamos a rir enquanto procurávamos pelo texto, encontrando-o rapidamente. Na mesma hora mandei para um deles (não tinha o número do outro) e para as duas mulheres. Em menos de cinco minutos um deles já estava na nossa mesa.
– Eu te faço uma pergunta e você me responde com 77 páginas?! — sorri, em resposta.
Ah, detalhe: ele vestia uma camiseta preta com os dizeres “Bolsonaro Sim”. Em tom de gentileza e curiosidade ele inicia um diálogo:
– Sério mesmo, sempre me pergunto como será que vive o marido de uma feminista.
– Por isso te mandei o livro.
– Sim, mas homem é homem e mulher é mulher. Então, se ser feminista é sair com os peitos de fora e com frases absurdas, mijar e defecar na cruz, não se depilar… como será que vivem seus maridos?
Incrédulas, começamos a rir.
– Esses são os estereótipos, ser feminista não tem nada a ver como o que vocês está falando.
– Como não?! É o que vemos por aí.
Minhas amigas, entram na conversa.
– É o que querem que vejam, mas já se sabe que ser feminista não tem nada a ver com esses estereótipos.
– Talvez não na Angola, mas no Brasil ser feminista é isso sim. — disse, levando em consideração que minhas amigas são angolanas.
– Sério, vamos fazer uma coisa, já que você tem filhas mulheres, leia o livro, é bem pequeno. Se quiser, tem o vídeo no TED também, e depois conversamos. Essas afirmações que você fez não tem nada a ver com ser feminista, são ideias estereotipadas e obsoletas.
– Tá bom, então me responde uma pergunta: Se Thammy (a filha de Gretchen) e Pabllo Vittar começam a ter um caso e um dia quebram o pau entre eles, quem é que a Lei Maria da Penha vai defender? Thammy ou Pabllo?
– Desculpa, quem é Pabllo Vittar? — Na verdade, já tinha ouvido falar nela, mas como moro há mais de 20 anos fora, não fui atrás e nem acompanho sua carreira e também queria ver como ele me explicaria.
– Aquele traveco, que agora é considerado como a beleza brasileira.
– Ah, você quer dizer uma mulher transexual? — respondi, mas apenas um tempo depois soube que, na verdade, esta cantora é uma drag queen.
– É, isso mesmo, aquele traveco.
– Ah…
E ignorei completamente a pergunta, me girando e continuando a comer. Ele falou que iria ler o livro e depois conversaríamos, acrescentando que se sou feminista, então ele é machista, pois feminismo é o contrário de machismo.
Eu e minhas amigas nos olhamos, sorrimos e continuamos comendo. Afinal, como dar continuidade a uma conversa desse tipo?
Eles pagam a conta, começam a se despedir dos donos do restaurante e de nós e, de repente ele, sempre o mesmo com a camiseta do Bolsonaro, olha para mim e diz:
– Semana passada sonhei com você. — inocentemente, eu pergunto:
– Brigando?
Assim deduzi porque, um tempo atrás, tivemos uma pequena discussão sobre eu aceitar Jesus ou não. Como eles são evangélicos e sempre me convidavam para participar do grupo deles de oração, certa vez, após muita insistência deles, fui mais taxativa ao dizer não.
Ele e o amigo dele começaram a sorrir.
– Não, não… — Continuaram a sorrir e me olhar de um jeito pouco respeitoso. Foi então que entendi que o sonho devia ter outra conotação. Me afastei deles e me aproximei das esposas, que conversavam com a dona do restaurante; mas não rápido o suficiente para evitar ouvir o amigo, que me olhava, perguntar para ele:
– E como ela estava?
Já perto das suas esposas, pude apenas escutar suas risadas e senti os olhares deles em cima de mim.
Agora me pergunto, são essas as pessoas que se sentem servas de Deus e que acreditam que todos nós que não “aceitamos” Jesus iremos para o inferno e que eles serão salvos?
Será que eles se permitiriam fazer esses mesmos tipos de comentários se não fosse eu uma mulher negra, especialmente agora, na condição de separada? Ao fazer isso, será que não lembram que suas filhas são mulheres e que as mesmas coisas que eles fazem a mim alguém fará a elas?
Como não defender o feminismo negro?! Veja como as discriminações se entrelaçam, como continuamos sendo alvo de preconceito de um mesmo perfil, que afirma com convicção que homem é homem, mulher é mulher e viado não é gente.
Desde que me separei tenho vivido situações que me obrigam a refletir sobre minha condição de mulher negra numa sociedade machista. Em uma semana é a segunda vez que passo por uma situação constrangedora, ofensiva e, escancaradamente, um reflexo das sociedades patriarcais e que continuam a racializar.
Infelizmente, o caminho ainda é longo, muito mais do que podemos imaginar e até mesmo aceitar.

