Final de agosto de 2000, chegava para morar em Barcelona, cidade que tinha visitado várias vezes, graças a uma tia que morava lá. Foi a primeira cidade europeia que coloquei os pés. Em dezembro daquele ano, estava trabalhando na cafeteria dessa tia e nas horas vagas eu lia. Um dos livros foi “Mais Platão, menos Prozac”, do filósofo Lou Marinoff. É uma crítica às terapias psicanalíticas e antidepressivas tradicionais e uma defesa ao uso do aconselhamento filosófico.
O best-seller, que vendeu mais de 500 mil exemplares nos Estados Unidos, mostra como identificar problemas, expressar emoções de forma construtiva e usar a filosofia para ajudar a fazer escolhas. De forma acessível, o livro traz estudos de casos a partir de experiências de conselheiros filosóficos, para apoiar a defesa da prática. O objetivo de tudo isso? Equilíbrio pessoal, tentar conhecer o mundo e a nós mesmos através da filosofia.
Lembro da sensação ao ler esse livro, tinha 22 anos, estava no meio de uma crise de identidade, ansiosa pelo futuro, e como a cada página (depois das primeiras 100 risos) eu sentia que alguma lição estava aprendendo.
Comprei o livro num dos meus passeios pelas livrarias e o encontrei na parte de “filosofia para iniciantes”. O título me chamou atenção, pois quando tinha 18 anos, numa crise de saudade quando estava na Inglaterra, minha mãe trouxe Prozac para mim. O Prozac é um medicamento anti-depressivo que tem como princípio ativo a Fluoxetina. Também lembro das reações do Prozac, inicialmente de felicidade intensa, nenhuma preocupação, mundo cor-de-rosa, lágrimas sentidas que se transformaram em risadas sem nexo. Pouco tempo depois, senti que não era real, e decidi que não era para mim. Preferia as lágrimas sentidas, aparentemente sem nexo, mas produzidas por mim. Foi por causa dessa lembrança que escolhi esse livro sem pensar muito, e para minha surpresa foi um excelente conselheiro e acompanhante do meu novo percurso.
Anos mais tarde quis aconselhar esse livro para uma amiga, porque o meu era em espanhol, e não o encontrei na sessão de filosofia, mas na parte de autoajuda. Lembro do sorriso que dei e de ter agradecido que o encontrei antes em outra sessão, porque tendencialmente não procurava livros de autoajuda. Depois disso, passei a buscar.
Esse é um dos livros que às vezes penso em ler novamente, para saber qual seria a sensação, mas confesso que tenho receio de acabar com a boa lembrança, porque não sou a mesma. Passaram-se 18 anos entre aquela menina de 22 anos e a pessoa que sou agora.
Sinceramente acredito que filosofia e psicologia se casam muito bem, e adotar uma terapia baseada em reflexões filosóficas é uma forma possível e válida, eu mesma me aproximei da filosofia como uma espécie de poesia que se sente, sem nem sempre saber como explicar com palavras.
Veronica Botelho
– escritora multicultural, antropóloga por paixão, formada em psicologia –

Autor: Lou Marinoff
Editora: Record