Ilustração: Giulia Cavalcanti Instagram @giulialovesmuffins
A execução de Marielle é um reflexo do que está acontecendo em vários lugares do mundo.
Quando decidimos morar fora do nosso país de origem, nem sempre pensamos no tempo que perderemos. No meu caso, no início era tudo descoberta. Vir morar no exterior no final dos anos 90 foi uma escolha, não uma necessidade. Passei vários anos tentando entender como funcionava as culturas com as quais começava a entrar em contato. Aprendi que eu, como jovem negra, era mais respeitada e aceita fora do meu próprio país. Aprendi, vendo na prática, que existia um respeito pelas pessoas, e naquela época a curiosidade pelas diferentes culturas na Europa era mais forte que os casos de “racismo” e xenofobia. Aprendi a lutar junto com amigas catalães, pelos direitos humanos, pelo direito a se ter uma voz, comecei a me interessar mais pela política, a entender a importância da implicação dos jovens na mesma. No Brasil vivia numa situação privilegiada e fora da realidade da maioria, mas só percebi a incoerência e injustiça existente, quando comecei a viajar. Foi na Catalunha que aprendi a importância de lutarmos juntos por nossos ideais, por nossos direitos. Foi lá que aprendi a importância de não nos calar!
Infelizmente, hoje, o presidente eleito democraticamente pelos catalães, Carles Puigdemont, teve que pedir asilo político. Muitos programas foram censurados, o catalão como língua está correndo o risco de ser eliminado das escolas (poucos sabem que é mais antiga que o espanhol, e que o romance que marcou uma evolução na literatura ocidental foi escrito em catalão – “Tirant Lo Blanc – Joan Martorell”). Na última eleição, mais de 800 pessoas, entre crianças e idosos, foram agredidos pela polícia e militares espanhóis, a luta pelos direitos humanos desde então virou foco principal de preocupação político-social.
Aqui, na Itália, onde estou morando atualmente, no dia 5 de março, alguns dias antes da execução da vereadora Marielle Franco e do assassinato de Anderson Pedro Gomes, um italiano assassinou brutalmente, com seis tiros, em pleno centro de Florença, o senegalês Idy Diene, e o motivo: a cor da sua pele. Pequeno detalhe, domingo, dia 4 de março, foram as eleições na Itália, e a coalisão mais votada foi a de extrema-direita, em que uma das principais promessas do programa era a expulsão dos imigrantes e refugiados, campanhas eleitorais marcadas por tons de racismo e xenofobia, elevado conteúdo “italocêntrico”… de consequência uma divisão visível dentro do próprio país, onde pessoas se sentem superiores às outras por causa da sua proveniência e cor da pele.
A execução de Marielle despertou interesse a nível internacional, exatamente por refletir a triste realidade de vários lugares: uma divisão marcada entre as pessoas, falta de respeito por ideologias diferentes das próprias, enaltecimento de uma parte da sociedade. Com relação à sua morte, li muitos comentários que me chocaram bastante, comentários pedindo intervenção militar, comentários desonrando a imagem de Marielle, falando da sua vida pessoal, comentários que insultavam inclusive seus familiares. A vida pessoal de Marielle foi colocada de cabeça pra baixo, suas lutas pelos direitos humanos percebidos por muitos como um ataque à sociedade. Poucos falam do que ela, depois de anos semeando, conseguiu colher em pouco mais de um ano de mandato, motivo da sua execução, pois ela tinha começado a incomodar.
Será que poderíamos dizer que o que está acontecendo no Brasil, na Itália, na Catalunha e em vários outros lugares, se dista destas afirmações: segregação e até mesmo eliminação física de adversários políticos e de pessoas pertencentes a categorias inferiores ou prejudiciais à sociedade; opressão daqueles que pensam diversamente; Não existe espaço para os anticonformistas, nem para o dissenso; “Regimes democráticos podem ser definidos aqueles nos quais, às vezes, se dá ao povo a ilusão de serem soberanos.” Benito Mussolini. Exato, todas essas afirmações são trechos dos programas de Hitler (Nazismo) e de Mussolini (Fascismo).
Crescemos escutando as atrocidades cometidas por causa do nazismo e do fascismo, mas muitos de nós ignoramos qual era a base dessas correntes políticas. Ignoramos que por trás estava a falta de respeito por toda pessoa que fosse diferente, que pensasse diversamente, que proviesse de um lugar não reconhecido como digno… e quem determinava o que era diverso? O uso das armas, a onipotência militar, dar a ideia de supremacia a uns, em troca de eliminar outros.
Infelizmente a história é cíclica, continuamos caindo nas mesmas pedras, cometendo os mesmos erros. Muitos dos nossos antepassados lutaram para conquistar direitos que hoje estão nos privando. Muitos morreram defendendo os direitos humanos. Ainda continuamos pisando uns nos outros para nos sentirmos mais fortes. A Itália acusa os imigrantes e refugiados dos seus problemas, provocando uma animadversão* da população local contra as pessoas que fogem de realidades que nem podemos imaginar – provocadas pelas explorações até hoje existentes das suas riquezas; a Espanha nega o direito a identidade catalã, a censura, incitando um ódio entre as pessoas que moram num mesmo território, em consequência imigrantes e refugiados também entram na dança; o Brasil nega a existência dos negros, das classes menos favorecidas, do direito a sua representatividade. Quantas mais pessoas precisarão morrer por defender o que é direito de todos?
*Sentimento de ódio, rancor, aversão. Também pode referir-se à censura, advertência, repreensão.
Poderia passar horas fazendo uma meta-análise entre realidades de várias culturas, mas analisando essas citadas acima, podemos concluir que em comum elas têm: a ideia de supremacia de um determinado grupo social sobre outro, a ideia de que existem pessoas melhores do que outras… a ideia de que existem pessoas com o direito de determinar o que é justo, o que é correto, o que devemos pensar e no que devemos acreditar.
A democracia está morrendo, e a demonstração disso é a execução de Marielle, é o assassinato de Idy, e o asilo político de Puigdemont… E o mais preocupante é que estamos todos divididos, todos concentrados em ter razão, não queremos escutar, nem ver a realidade, não saímos nas ruas, não nos comprometemos… e não nos damos conta que assim estamos incentivando o retorno de ditaduras. Somos cúmplices, alguns ativos, outros passivos. Ignoramos o fato que, quando se instaura a ditadura, perdemos todos, como comentou Luciana Rabelo, uma amiga minha: “Não existe perda da democracia só para a esquerda, se o regime for de repressão a quem se opõe a ele, se a polícia se tornar onipotente e, não só intolerante, mas reativa a controles e regulamentações, muita gente de direita, esquerda, centro ou apolítica vai parar no mesmo saco: o do necrotério.”
Vamos lutar para que mortes, como a de Marielle, de Anderson e de Idy, não sejam em vão, que sirvam para abrir nossos olhos e nos desperte um desejo de união para não permitir que mais pessoas sejam executadas, assassinadas, porque representam diversidade, porque incomodam, porque se encontram no lugar errado, na hora errada, porque lutam por um mundo onde existe respeito ao próximo. Vamos aprender com os erros do passado, vamos estudar nossas histórias, antes que seja tarde demais.
“O homem primitivo odeia o que teme, e em algumas camadas de sua alma até o homem culto é primitivo. Até mesmo o ódio de povos e raças contra outros povos e raças não é baseado em superioridade e força, mas na insegurança e no medo… Quanto mais forte e violenta se manifesta essa sensação sob a forma de superioridade, maior é a certeza que por detrás está o medo e a fraqueza.” (Hermann Hesse – 1958)
Veronica Botelho
– escritora multicultural, antropóloga por paixão, formada em psicologia –

