Imagem: (reprodução/youtube)
A beleza do mundo é a sua diversidade. Podemos gostar de um determinado pintor, um determinado poeta, nos identificar com um tipo de literatura, de música, mas é inegável a influência da arte no nosso dia-a-dia. Por arte entendo qualquer e toda expressão artística que comunica, com quem a aprecia ou não.
A comunicação é a força da arte.
Pegamos como exemplo o último videoclipe da cantora Anitta, lançado recentemente. Três minutos e vinte e seis segundos que provocaram uma chuva de comentários, (re)abrindo o debate sobre vários temas. Duzentos e seis segundos que foram capazes de (re)trazer a tona desde objetificação do corpo feminino à apropriação cultural.
A música, expressão artística com capacidade de comunicação tão vasta, que existem poucas capazes de chegar a tantas pessoas, de tantos ambientes diferentes. Uma mistura de interpretações, um cruzamento, quando se ataca, ou uma multiplicação, quando se respeita. O poder de comunicar a tantos pontos de vista diferentes deixa a música vulnerável a diferentes interpretações, ficando muitas vezes com um sabor agridoce, provocando um conflito interno, propício a despertar a hipocrisia presente na nossa consciência coletiva (https://goo.gl/DYxhYj).
Confesso que não conhecia Anitta, nem era ou sou familiarizada com o funk. A primeira vez que a vi foi nesse videoclipe “Vai Malandra”, que provocou textos como este, em vários lugares do mundo, que em pouco mais de uma semana teve quase 100 milhões de visualizações. O cenário é a favela carioca, com figurantes moradores de lá, destacando a cultura da comunidade, com muita dança, alegria e sorrisos.
Surgiram vários comentários sobre o clipe, mais adiante tocarei em outros pontos, mas por enquanto gostaria de tratar sobre a apropriação cultural, por que é um tema que fazia tempo que tentava entender na prática.
Apropriação cultural é definida como a adoção de alguns elementos específicos de uma cultura por um grupo cultural diferente. Ela descreve aculturação ou assimilação, mas pode implicar uma visão negativa em relação à adoção de uma cultura dominante por uma cultura minoritária.[1][2]
Encontrei textos falando que a Anitta se apropriou de uma estética negra para poder vender mais, que foi puro marketing. Sou brasileira, escritora, e moro na Europa há cerca de 18 anos. Mostrei o vídeo para alguns amigos italianos e americanos, e todos classificaram Anitta como negra.
Eu alisei meu cabelo, praticamente a vida inteira, até aceitar meus cachos há uns 4 anos e hoje, quando resolvo escovar, sou criticada por estar me “embranquecendo”. Antes ninguém me falava nada, era eu quem decidia meu cabelo (reconheço que fui condicionada socialmente, não nego isso, mas esse é assunto para outro texto rs), mas agora como usamos nosso cabelo, é uma questão social.
Por que Beyoncé, Rihanna, Shakira, ícones da música internacional, por exemplo, podem usar o cabelo do jeito que desejam, sem sofrer esse tipo de ataque? Aceitamos o que vêm de fora e criticamos o que temos em casa.
Continuei procurando textos sobre apropriação cultural e me deparei com esse comentário sobre a cantora norte-americana Miley Cyrus twerkando, jinga com os quadris que vem de danças africanas: “Amo como Milley twerka. Não é a típica mulher negra, com uma grande bunda que twerka, mas uma mulher branca que mostra seus movimentos. Amei!” Esse comentário mexeu muito comigo, porque consegui sentir o ponto de vista das pessoas que a acusaram de apropriação cultural.
Pensando na origem do twerking, realmente é revoltante ver uma dança, que é parte da cultura negra, ser vista como melhor porque uma pessoa branca é quem está dançando.
Vendo por um lado positivo, acusar Anitta de apropriação cultural é um modo de dar voz ao debate sobre preconceito que nós, mulheres negras, sofremos. Claro, não se trata do melhor contexto, porque acabamos perdendo forças atacando uma pessoa que em outros países é até vista como negra, demonstrando que no Brasil existe um colorismo. Temos que unir forças contra isso, para não incentivar que um determinado tipo de cabelo seja visto como mais bonito do que outro, que uma pessoa, por causa do tom da sua pele, seja vista e tratada diversamente.
Refletindo sobre esse tema, lembrei de todas as situações que meu companheiro me aconselhou a não usar determinada roupa, pois, sendo brasileira, atrairia olhares e comentários indiscretos. Nesse momento entendi o que reivindicamos, quando falamos de apropriação cultural. Reivindicamos respeito, reivindicamos sermos vistos, sair da invisibilidade, sair dos estereótipos associados a nós. Reivindicamos sermos reconhecidos por nossos méritos, e se um determinado objeto cultural vem sendo utilizado, que seja respeitado e reconhecido pela sua proveniência.
Reivindicamos uma apreciação cultural!
Por que ao invés de criticar a música de Anitta, não tentar se concentrar no que está comunicando, e talvez até deixar se levar pelo ritmo e, mesmo sem gostar, se pegar dançando?
Que tal se, ao invés de atacar o vídeo, juntarmos forças para lutar por um país onde todas as pessoas se sentem representadas, por um país livre de violência e corrupção. Juntarmos forças para construir um país do qual sentimos orgulho. O mundo é belo porque é diverso.
Não temos que concordar com todos, mas aprender a respeitar cada ponto de vista. É a base para construir uma nação sólida, onde o respeito é um lema comum.
Veronica Botelho – Escritora multicultural, antropóloga por paixão, formada em Psicologia. Autora do Livro Meias Verdades.
[1] Shaw, Helen. “A ‘Major’ Achievement.” The New York Sun. January 17, 2006. Retrieved January 3, 2010.
[2] Ir para cima↑ Alcoff, Linda Martin. “What Should White People Do?” Hypatia, Summer 1998, Vol. 13, No. 3: pp. 6-26. Retrieved January 3, 2010.
Clipe “Vai Malandra”, da Anita:
https://www.youtube.com/watch?v=kDhptBT_-VI
Reações de estrangeiros ao vídeo:
https://www.youtube.com/watch?v=T0ZRb65NfRU
https://www.youtube.com/watch?v=NBa_bzY5JN8
https://www.youtube.com/watch?v=rEwvKORlbGc
https://www.youtube.com/watch?v=r0_VO84rIMc
https://www.youtube.com/watch?v=iGxCoAdCsLo

