Julgamento Empático

Por Veronica Botelho

De uns tempos para cá, escutamos, lemos e falamos muito sobre empatia. Acredito que seja a palavra da atualidade. Diferentes pessoas, histórias, lugares… em algum momento incluem esse termo nas conversas, às vezes como uma demonstração de conhecimento, de estar antenada ou simplesmente se assim sentir vontade.

Por isso, ultimamente tenho pensado bastante sobre o que significa ser uma pessoa empática, como sentir empatia por alguém, por uma situação, por uma história… e, porque não, por uma cultura?

Será que realmente entendemos o que esse termo representa? O que significa dizer que uma pessoa é empática?

Será que de fato existem seres humanos mais empáticos do que outros? Se sim, por que será? Somos realmente capazes de nos colocar na pele do outro, de sentir o que o outro sente sem ter passado pela mesma situação, sem ter sentido as mesmas emoções e sem ter provado da mesma sensação?

Eu acho que sim, mas sinto que não. Talvez mude de ideia, mas diariamente vejo, escuto e leio comentários que confirmam que empatia é uma coisa bem mais complexa do que acreditamos.

Como se colocar na pele de alguém que passa fome, sem nunca ter passado? Como se colocar na pele de uma pessoa negra, sendo branca? Como se colocar na pele de alguém que sofre de depressão, sem nunca ter sofrido? Como se colocar na pele de uma pessoa que perde alguém que ama, sem nunca ter perdido ninguém?

Posso passar horas escrevendo exemplos como esses, mas a verdade é dura e crua: provar empatia é mais complicado do que aparenta.

Cientistas falam que os neurônios-espelhos ajudam, mas acredito que contribuam mais para repetição de um comportamento ou emoção, sem realmente tê-la sentido no mais profundo do nosso ser. Ou seja, até facilitam “entrar em sintonia”, mas sentir realmente o que o outro está sentindo? Acredito que não.

A atual situação do mundo é um exemplo disso. Países polarizados, pessoas brigando por causa de política, de cultura, grupos se sentindo mais fortes do que outros, verdades absolutas nascendo por todos os lados… Resultado? Sociedades cada vez mais divididas, com uma coisa em comum: cada um no seu mundo se sente bom e ético, cada um do seu jeito acredita que está “lutando” por um mundo melhor. Cada um do seu jeito se sente empático.

Ou alguém já escutou uma pessoa afirmando que é má, que é antiética, que quer um mundo onde a violência domine? Alguém aí já escutou uma pessoa afirmando que não sente empatia e nem quer sentir?!

Cada um, do seu jeito, quer se salvar e nesse “querer se salvar” como indivíduos, estamos nos dividindo, estamos desaparecendo, estamos nos desconhecendo – estamos destruindo o coletivo.

Até conseguimos ter um pouco de compaixão e afinidade pelo que reconhecemos como próximo, como semelhantes, mas a ideia de nos colocar na pele do outro é pura utopia, porque nunca poderemos trocar de pele. O modo como crescemos está impregnado por todo o nosso corpo, nossa mente, nossa alma.

É verdade que vamos nos moldando ao longo da vida, em períodos únicos, dinâmicos e cíclicos, e por mais que nos custe admitir, sentimos antes de racionalizar, e esse sentir é condicionado pelo nosso passado, que acaba condicionando também a nossa ação presente. Cada um de nós tem sua própria história, a própria essência e a ideia de nos colocar no lugar do outro é nobre, mas irreal.

Sejamos sinceros: não conseguimos realmente sentir a dor do outro.

Podemos sentir uma dor escutando, vendo, vivendo a dor de alguém, mas aquela dor e o modo de vivê-la será apenas nossa. Podemos sentir a alegria do outro, mas a sentiremos do nosso modo, condicionada por sorrisos, abraços e pelo nosso passado e essa maneira de sentir é própria do nosso ser. Nunca sentiremos igual porque nós somos nós e o outro é o outro.

Porém, podemos escutar cada palavra, tentar sentir da nossa maneira cada emoção expressa e saber quando ficar em silêncio. Escutar as lágrimas que caem sem julgar o porquê, abraçar a dor sentida sem pensar o que é. Podemos multiplicar nossos sentires conhecendo sempre mais pessoas, mais lugares, mais realidades e mais essências.

Porque não julgar é outra utopia, sempre pelo mesmo motivo do sentir: o condicionamento.

Mas quando reconhecemos nossos limites, quando aceitamos nossa vulnerabilidade diante de acontecimentos inesperados (nos quais nossas reações serão condicionadas pelo inconsciente), muitas vezes podemos imaginar como nos sentiríamos na mesma situação, podemos nos esforçar para perceber que a maioria das pessoas querem paz, amor, saúde… Querem ser felizes.

Então, se uma pessoa pensa diversamente de nós, ela deve ter um motivo e só nos resta tentar escutar, respeitar, dialogar.

Sendo o não julgar e a empatia utópicos, quem sabe colocando-os juntos a utopia se anule.

Será que julgar empaticamente poderia ser mais próximo da realidade?

Poderíamos pelo menos julgar com empatia… Todos julgamos e somos julgados, essa é uma sensação comum a todos e ninguém gosta de ser julgado, de sentir na pele o peso de um julgamento.

Quem sabe podemos nos esforçar para, pelo menos, quando o fizermos, que seja com empatia, que seja orientado por aquela sensação de desconforto que temos quando somos nós o foco da acusação e, assim, evitar provocar no outro esse mesmo sentimento.

Porque atacando uns aos outros não resolveremos nada, muito menos conseguiremos explicar e transmitir o nosso ponto de vista e explicar o porquê pensamos diferentemente.

Atacar o que percebemos como diverso é a maior demonstração de que a empatia pode até ser a palavra do momento, mas está longe da realidade existente.

Integração, Interação e Etnocentrismo: Uma Relação Sutil?

Por Veronica Botelho

Há alguns anos estudiosos da imigração iniciaram um debate a favor da utilização da palavra interação em vez de integração. É possível encontrar uma extensa documentação sobre esse assunto, que se tornou mais popular em diversas partes do mundo nos últimos anos.

Aqui na Itália, por exemplo, o filósofo Salvatore Natoli, professor de filosofia teórica na Universidade Bicocca de Milão, numa entrevista concedida em 2012 à Affari italiani, disse: “A integração é um conceito arriscado porque também significa assimilação, a interação é, em vez disso, um processo de intercâmbio gradual, mas as condições devem ser criadas para alcançá-lo”.

A primeira vez que ouvi a palavra interação social no lugar de integração foi uns três anos. Fui me apresentar, sem saber bem o que queria, a uma associação cultural que trabalha com formação linguística focada nos imigrantes, desde formação para professores, instituições e para interessados em geral.

Tinha acabado de começar a trabalhar no projeto de recolocação internacional People Interplay e me deparei com o site da Limo – Linguaggi in Movimento, que ainda não tinha muita informação, pois estava na sua fase inicial. Marquei um encontro e lá estavam três mulheres que transmitiam simpatia, curiosidade e amor pelo seu ofício. Comentei que tinha trabalhado em Barcelona (Catalunha), numa cooperativa social para a promoção da integração social e notei seus sorrisos tímidos, até que uma delas me interrompeu:

– Não estamos de acordo com o uso da palavra integração, pois, por meio do nosso trabalho, pretendemos contribuir para um modelo de integração diferente desse que é entendido como a adaptação do cidadão estrangeiro à sociedade de chegada, no sentido unidirecional; quando o que acreditamos é numa interação entendida como enriquecimento recíproco e bidirecional.

Sabe quando acreditamos numa ideia e nos damos de cara com uma outra que achamos bem mais interessante?! Pois foi exatamente o que aconteceu comigo e, como minha paixão por aprender é bem maior do que meu orgulho e amo quando alguém me faz pensar “fora da caixinha”, virei a casaca mesmo.

Trabalhei anos como voluntária para a “integração” de imigrantes na Catalunha, convivendo com pessoas com problemas de inclusão social e laboral e nunca tinha pensado na etimologia dessa palavra, tão utilizada.

Naquele instante, enquanto a escutava, também tinha um sorriso tímido. Agradeci sua explicação e expressei meu estupor por nunca ter pensado nisso. Elas também sorriram e seus sorrisos transmitiam satisfação, imagino que por ter ensinado mais uma pessoa sobre uma diferença aparentemente trivial, mas que está presente diariamente nas nossas vidas e de maneira tão significativa.

A partir daquele momento comecei a estudar tudo o que é inerente às duas palavras  e com a intenção de responder uma pergunta: Por que utilizamos integração no lugar de interação?

Se analisarmos a etimologia da palavra integração, esta deriva do latim “integrare – tornar inteiro, fazer um só, que vem de interger – inteiro, completo, correto”. Por integração social, segundo o Dicionário Aurélio, entendemos a “adaptação, incorporação de um indivíduo ou grupo externo numa comunidade, num meio”.

Analisemos agora a etimologia da palavra interação: deriva do latim “inter – entre e ação do latim agere – realizar, fazer”. Segundo o dicionário Aurélio, é a “1. Influência recíproca de dois ou mais elementos; 2. Fenômeno que permite a certo número de indivíduos constituir-se em grupo, e que consiste no fato de que o comportamento de cada indivíduo se torna estímulo para outro.”

Sem precisar ir muito longe, percebemos imediatamente como a palavra integração, utilizada dentro de um discurso de inclusão sociocultural, não é a mais adequada. Afinal, podemos falar que uma pessoa que chega numa nova realidade é incompleta? Está pela metade? É incorreta?

Ou seria mais apropriado falar de uma interação recíproca entre duas ou mais pessoas? Onde se dá e se recebe, sem nenhuma das partes se sentir mais “completa” do que a outra, mesmo que a intenção seja ajudar. Se considerarmos a etimologia e significado das duas palavras, teremos certeza de que não somos condicionados a nos sentir superiores ao que consideramos diverso?

E aqui entra a ligação com o etnocentrismo…

A palavra etnocentrismo deriva do grego “éthnos – raça, povo, centro + ismo – ideologia”. De acordo com o Dicionário Aurélio, etnocentrismo é “Visão ou forma de pensamento de quem crê na supremacia do seu grupo étnico ou da sua nacionalidade”. Dando uma explicação simples, uma pessoa etnocêntrica é aquela que considera que a sua cultura é o centro, ou seja, mais importante, a que dita as regras.

Será que estamos todes imunes ao etnocentrismo? Sinceramente, acredito que o sentimento que esse termo provoca pode ser comparado ao mesmo sentimento que a palavra racismo desperta. É difícil encontrar alguém que se reconheça como racista, mas infelizmente não podemos negar que ele – o racismo – é bem mais presente do que queremos aceitar.

Da mesma maneira, a palavra etnocentrismo provoca uma reação parecida (além da relação profunda com o próprio racismo). Afinal, quem admite se sentir superior ao próximo? Porém, quantas vezes escutamos alguém, ou nós mesmos, soltarmos frases tais como:

Minha cultura é superior!
Aquela cultura não é boa…
Eles são culturalmente atrasados…
Minha cultura é melhor!
Não confio nos nordestinos!
Carioca é malandro…

Bingo! Aqui está o etnocentrismo que praticamos diariamente e com a maior tranquilidade, porque crescemos condicionados pelo ambiente onde vivemos e sentir-se superior é uma tendência do ser humano, inclusive é um modo do nosso cérebro proteger a nossa identidade.

Agora que fizemos uma análise do significado de integração, interação e etnocentrismo, proponho uma reflexão:

Quando um estrangeiro chega a um país, a maioria das políticas utilizadas em prol da inclusão social se baseiam na palavra integração. (In)conscientemente, o país que acolhe considera o recém-chegado como alguém incompleto, alguém que precisa ser corrigido, ou seja, é uma ação unidirecional. E o fazem com a melhor das intenções, com a ideia de que está ajudando.

Eu ajudo os imigrantes a se integrarem (que vergonha sinto de mim mesma, falei isso por anos! rs)
Faço voluntariado para incentivar a integração social das classes menos favorecidas.
Trabalho com integração social de pessoas com problemas mentais… 

Essas afirmações, aparentemente inócuas, escondem como somos condicionados a nos sentirmos superiores aos demais, ao que consideramos diverso e, o pior, sempre achando que estamos contribuindo para melhorar uma situação.

E se considerássemos todos como iguais, cada um com sua bagagem cultural, suas experiências e ideias, e no lugar da palavra integração utilizássemos a palavra interação? A relação não seria mais equilibrada e justa? Sempre sob a perspectiva de dar e receber, de respeitarmos uns aos outros, tentando conhecer o diverso, encontrando os pontos de união e interação, encontrando as diferenças e respeitando-as. Cada ume se sentindo complete e se multiplicando na interação com e outro.

Poderia ser o início da neutralização do etnocentrismo presente na nossa consciência coletiva. Quem sabe, inclusive, um modo de neutralizar também o racismo, até que um dia ele desapareça, assim como o conceito de raça para se referir aos seres humanos está, aos poucos, desaparecendo.

O equilíbrio da comunicação é: eu dou e recebo, você dá e recebe. Desta forma, não há ninguém que se sinta superior.

A política social atual é fantasiada de “bonismo”, porque, na verdade, nesse contexto quem ajuda está incentivando uma dependência, a sensação de desconforto da pessoa que “precisa” da ajuda; sem contar que inconscientemente quem ajuda se sente superior, tocando naquela linha sutil entre altruísmo e egoísmo (tema para outra pauta, rs).

A longo prazo, a ajuda sai pela culatra, pois o ajudado se sente em dívida, dependente, inferior e incapaz de se ver como igual. Logo, falha-se em atingir o objetivo final, que é fazer com que a pessoa se sinta parte da sociedade, se adapte, se sinta em casa.

Adotando uma política que visa a interação, consideramos que a ajuda é mútua, evitamos esse dinamismo ao qual estamos tão acostumados e facilitamos um intercâmbio gradual.

Precisamos desconstruir significados usados há muito tempo e usar as palavras certas. Humanizar todos os seres humanos, reconhecer que podemos aprender uns com os outros e olhar-nos como o que somos: iguais, cada um com suas diferenças.

Passo a passo para interagir com uma nova cultura

Por Veronica Botelho

Quando damos de cara com uma nova realidade, com um ponto de vista diferente do nosso, quando nos encontramos em novos ambientes, em situações diretamente condicionadas ao fator cultural. Interagir com uma nova cultura nunca é fácil!

Podemos estar falando de cenários dentro de uma mesma cidade, como de situações entre ocidente e oriente, países desenvolvidos e “subdesenvolvidos” (detesto essa palavra, me parece puro condicionamento (in) consciente ao etnocentrismo). Todavia com todas as diferenças culturais que possam existir, também existem condições que nos tornam iguais, que nos une.

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As estações brincando com a percepção

Por Veronica Botelho

Aqui, na Toscana, foi necessário quase um mês para que as flores começassem a desabrochar, para o verde colorir nossos dias, para o sol acordar mais cedo e ir dormir mais tarde… um mês para a primavera chegar com todo o seu esplendor. Chegou tórrida, com sabor de verão, o que levou um mês, agora, parece um segundo… O verão começou a bater na porta, quase ao mesmo tempo que as flores começaram a desabrochar.  A primavera e o verão brincando com a nossa percepção de tempo. Continue lendo “As estações brincando com a percepção”