Em um mundo onde os ecos do passado ainda reverberam em nossos dilemas mais íntimos, Nessuno torna indietro se impõe como uma obra de surpreendente atualidade. Escrito em 1938 por Alba de Céspedes, este romance antecipa discussões que continuam a nos atravessar — sobretudo aquelas que tocam os subterrâneos da experiência feminina, os impasses da liberdade e os conflitos entre desejo e imposição social.
É quase um paradoxo que um texto escrito há quase um século penetre com tanta lucidez nas camadas emocionais que preferimos manter escondidas. De Céspedes tem a rara habilidade de acessar essas zonas cinzentas da alma humana sem dramatização excessiva, mas com uma profundidade que desarma. Sua escrita não se contenta com o visível — ela mergulha. E, ao fazê-lo, nos obriga a mergulhar junto.
A narrativa se passa em um pensionato feminino em Roma, onde jovens de diferentes origens convivem enquanto estudam para moldar seus futuros. Mas o romance, longe de se restringir à descrição de um cotidiano universitário, transforma esse espaço aparentemente neutro em um campo de batalha emocional, ideológico e político. Cada personagem carrega uma tensão própria: o peso das expectativas familiares, os limites impostos pela classe social, as feridas da guerra e, sobretudo, o desejo de uma liberdade que nunca é plena. O pensionato é uma alegoria de uma sociedade que diz oferecer caminhos, mas impõe retornos — e ninguém volta atrás, como o título anuncia.
Felizmente, a obra de Alba de Céspedes começa a ganhar mais atenção no Brasil. Caderno proibido e, mais recentemente, Na voz dela (Dalla parte di lei) foram publicados pela Companhia das Letras, o que marca um avanço importante — ainda que tardio — na divulgação da autora no país. Ainda assim, é inevitável a pergunta: por que demoramos tanto? Será que sua coragem em tratar de temas como maternidade ambivalente, sexualidade reprimida, alienação intelectual ou a hipocrisia burguesa ainda incomoda? Será que é o realismo incômodo, quase cru, que ela imprime às suas personagens o que assusta?
A escrita de Alba de Céspedes é uma travessia. Ela não se contenta em representar — ela expõe. Ao invés de entregar heroínas arquetípicas, nos dá mulheres reais, em conflito, muitas vezes contraditórias, mas sempre vivas. Em tempos de discursos simplificadores, sua complexidade é um sopro de honestidade. E talvez seja justamente isso que falte em muitas das obras que nos chegam com traduções imediatas: essa coragem de mostrar o que tentamos varrer para debaixo da linguagem.
Nessuno torna indietro não oferece resoluções. O que ele entrega é um retrato múltiplo, cheio de rachaduras, de uma geração que tenta avançar com os pés presos ao chão das convenções. Será que hoje é diferente — ou continuamos presas, apenas a outras convenções?
Para as mulheres do livro, crescer é, muitas vezes, um gesto de renúncia. E o que dói mais é perceber que, apesar do tempo que nos separa, seguimos chamando isso de escolha.
Tradução do italiano (amostra): Veronica Botelho
Livro original: L’anniversario, de Andrea Bajani
Editora: Feltrinelli | Primeira edição: janeiro de 2025
Finalista do Prêmio Strega 2025
Por que recomendo
Há livros que nos alcançam não pelo enredo, mas por aquilo que desvelam silenciosamente — e por como o fazem. L’anniversario é um desses livros. Andrea Bajani escreve como quem recolhe farelos de memória e os transforma em cena, sem jamais recorrer a grandes gestos. Neste romance, a ausência presente da mãe — e mais ainda, sua apagada existência ao longo dos anos — torna-se matéria narrativa e política. Ao traduzir este trecho, fui atravessada por uma dor suave — a mesma que me visita quando me deparo com tudo aquilo que é sutil demais para ser reconhecido, mas forte o bastante para moldar uma vida.
O aniversário – Andrea Bajani
A última vez que vi minha mãe, ela me acompanhou até a porta de casa para se despedir. Depois disso, esperou que eu desaparecesse pelas escadas antes de fechá-la. Minha mãe nunca foi de despedidas — sobretudo porque era dominada por uma timidez muito próxima da negação de si mesma. Isso tornava impossível qualquer tipo de dramatização: ela não transformaria em cena algo que considerava irrelevante.
Pelo mesmo motivo, creio, ela nunca se sentiu no direito de decidir começos ou fins. Ficava sempre atrás do meu pai quando a porta se abria; e era atrás dele que permanecia quando, ao fim das minhas visitas, a porta os engolia de volta para dentro.
Mas naquele dia, foi ela quem se despediu de mim por último — sozinha, no batente, à beira da escada. Mais do que se despedir, ela me acompanhou. Com a distância dos anos, vejo agora que ela não conseguia me deixar ir. É um fato: enquanto eu recuava, cobrindo cada passo com palavras vazias, minha mãe avançava na mesma medida. Vista sob o foco narrativo, a cena se transforma numa dança — o pé de um homem indo para trás, o de uma mulher seguindo, outro passo do filho, mais um da mãe, até a porta.
As últimas palavras que ouvi dela não foram uma afirmação, mas uma pergunta. “Você vai voltar a nos visitar?”, ela disse. Aquela pergunta nunca teve uma resposta real. O “Claro que sim” que respondi foi apenas para que algo acontecesse — para que ela me soltasse, e eu pudesse enfim me enfiar escada abaixo.
Nota sobre a tradução
Esta é uma amostra de tradução inédita, realizada por mim, sem fins comerciais, como forma de divulgação e apreciação literária da obra original. Compartilho este fragmento como convite à leitura de Andrea Bajani — e à escuta atenta de histórias de violência familiar que, por parecerem sutis, continuam a se repetir em silêncio dentro de muitos lares.