Integração, Interação e Etnocentrismo: Uma Relação Sutil?

Por Veronica Botelho

Há alguns anos estudiosos da imigração iniciaram um debate a favor da utilização da palavra interação em vez de integração. É possível encontrar uma extensa documentação sobre esse assunto, que se tornou mais popular em diversas partes do mundo nos últimos anos.

Aqui na Itália, por exemplo, o filósofo Salvatore Natoli, professor de filosofia teórica na Universidade Bicocca de Milão, numa entrevista concedida em 2012 à Affari italiani, disse: “A integração é um conceito arriscado porque também significa assimilação, a interação é, em vez disso, um processo de intercâmbio gradual, mas as condições devem ser criadas para alcançá-lo”.

A primeira vez que ouvi a palavra interação social no lugar de integração foi uns três anos. Fui me apresentar, sem saber bem o que queria, a uma associação cultural que trabalha com formação linguística focada nos imigrantes, desde formação para professores, instituições e para interessados em geral.

Tinha acabado de começar a trabalhar no projeto de recolocação internacional People Interplay e me deparei com o site da Limo – Linguaggi in Movimento, que ainda não tinha muita informação, pois estava na sua fase inicial. Marquei um encontro e lá estavam três mulheres que transmitiam simpatia, curiosidade e amor pelo seu ofício. Comentei que tinha trabalhado em Barcelona (Catalunha), numa cooperativa social para a promoção da integração social e notei seus sorrisos tímidos, até que uma delas me interrompeu:

– Não estamos de acordo com o uso da palavra integração, pois, por meio do nosso trabalho, pretendemos contribuir para um modelo de integração diferente desse que é entendido como a adaptação do cidadão estrangeiro à sociedade de chegada, no sentido unidirecional; quando o que acreditamos é numa interação entendida como enriquecimento recíproco e bidirecional.

Sabe quando acreditamos numa ideia e nos damos de cara com uma outra que achamos bem mais interessante?! Pois foi exatamente o que aconteceu comigo e, como minha paixão por aprender é bem maior do que meu orgulho e amo quando alguém me faz pensar “fora da caixinha”, virei a casaca mesmo.

Trabalhei anos como voluntária para a “integração” de imigrantes na Catalunha, convivendo com pessoas com problemas de inclusão social e laboral e nunca tinha pensado na etimologia dessa palavra, tão utilizada.

Naquele instante, enquanto a escutava, também tinha um sorriso tímido. Agradeci sua explicação e expressei meu estupor por nunca ter pensado nisso. Elas também sorriram e seus sorrisos transmitiam satisfação, imagino que por ter ensinado mais uma pessoa sobre uma diferença aparentemente trivial, mas que está presente diariamente nas nossas vidas e de maneira tão significativa.

A partir daquele momento comecei a estudar tudo o que é inerente às duas palavras  e com a intenção de responder uma pergunta: Por que utilizamos integração no lugar de interação?

Se analisarmos a etimologia da palavra integração, esta deriva do latim “integrare – tornar inteiro, fazer um só, que vem de interger – inteiro, completo, correto”. Por integração social, segundo o Dicionário Aurélio, entendemos a “adaptação, incorporação de um indivíduo ou grupo externo numa comunidade, num meio”.

Analisemos agora a etimologia da palavra interação: deriva do latim “inter – entre e ação do latim agere – realizar, fazer”. Segundo o dicionário Aurélio, é a “1. Influência recíproca de dois ou mais elementos; 2. Fenômeno que permite a certo número de indivíduos constituir-se em grupo, e que consiste no fato de que o comportamento de cada indivíduo se torna estímulo para outro.”

Sem precisar ir muito longe, percebemos imediatamente como a palavra integração, utilizada dentro de um discurso de inclusão sociocultural, não é a mais adequada. Afinal, podemos falar que uma pessoa que chega numa nova realidade é incompleta? Está pela metade? É incorreta?

Ou seria mais apropriado falar de uma interação recíproca entre duas ou mais pessoas? Onde se dá e se recebe, sem nenhuma das partes se sentir mais “completa” do que a outra, mesmo que a intenção seja ajudar. Se considerarmos a etimologia e significado das duas palavras, teremos certeza de que não somos condicionados a nos sentir superiores ao que consideramos diverso?

E aqui entra a ligação com o etnocentrismo…

A palavra etnocentrismo deriva do grego “éthnos – raça, povo, centro + ismo – ideologia”. De acordo com o Dicionário Aurélio, etnocentrismo é “Visão ou forma de pensamento de quem crê na supremacia do seu grupo étnico ou da sua nacionalidade”. Dando uma explicação simples, uma pessoa etnocêntrica é aquela que considera que a sua cultura é o centro, ou seja, mais importante, a que dita as regras.

Será que estamos todes imunes ao etnocentrismo? Sinceramente, acredito que o sentimento que esse termo provoca pode ser comparado ao mesmo sentimento que a palavra racismo desperta. É difícil encontrar alguém que se reconheça como racista, mas infelizmente não podemos negar que ele – o racismo – é bem mais presente do que queremos aceitar.

Da mesma maneira, a palavra etnocentrismo provoca uma reação parecida (além da relação profunda com o próprio racismo). Afinal, quem admite se sentir superior ao próximo? Porém, quantas vezes escutamos alguém, ou nós mesmos, soltarmos frases tais como:

Minha cultura é superior!
Aquela cultura não é boa…
Eles são culturalmente atrasados…
Minha cultura é melhor!
Não confio nos nordestinos!
Carioca é malandro…

Bingo! Aqui está o etnocentrismo que praticamos diariamente e com a maior tranquilidade, porque crescemos condicionados pelo ambiente onde vivemos e sentir-se superior é uma tendência do ser humano, inclusive é um modo do nosso cérebro proteger a nossa identidade.

Agora que fizemos uma análise do significado de integração, interação e etnocentrismo, proponho uma reflexão:

Quando um estrangeiro chega a um país, a maioria das políticas utilizadas em prol da inclusão social se baseiam na palavra integração. (In)conscientemente, o país que acolhe considera o recém-chegado como alguém incompleto, alguém que precisa ser corrigido, ou seja, é uma ação unidirecional. E o fazem com a melhor das intenções, com a ideia de que está ajudando.

Eu ajudo os imigrantes a se integrarem (que vergonha sinto de mim mesma, falei isso por anos! rs)
Faço voluntariado para incentivar a integração social das classes menos favorecidas.
Trabalho com integração social de pessoas com problemas mentais… 

Essas afirmações, aparentemente inócuas, escondem como somos condicionados a nos sentirmos superiores aos demais, ao que consideramos diverso e, o pior, sempre achando que estamos contribuindo para melhorar uma situação.

E se considerássemos todos como iguais, cada um com sua bagagem cultural, suas experiências e ideias, e no lugar da palavra integração utilizássemos a palavra interação? A relação não seria mais equilibrada e justa? Sempre sob a perspectiva de dar e receber, de respeitarmos uns aos outros, tentando conhecer o diverso, encontrando os pontos de união e interação, encontrando as diferenças e respeitando-as. Cada ume se sentindo complete e se multiplicando na interação com e outro.

Poderia ser o início da neutralização do etnocentrismo presente na nossa consciência coletiva. Quem sabe, inclusive, um modo de neutralizar também o racismo, até que um dia ele desapareça, assim como o conceito de raça para se referir aos seres humanos está, aos poucos, desaparecendo.

O equilíbrio da comunicação é: eu dou e recebo, você dá e recebe. Desta forma, não há ninguém que se sinta superior.

A política social atual é fantasiada de “bonismo”, porque, na verdade, nesse contexto quem ajuda está incentivando uma dependência, a sensação de desconforto da pessoa que “precisa” da ajuda; sem contar que inconscientemente quem ajuda se sente superior, tocando naquela linha sutil entre altruísmo e egoísmo (tema para outra pauta, rs).

A longo prazo, a ajuda sai pela culatra, pois o ajudado se sente em dívida, dependente, inferior e incapaz de se ver como igual. Logo, falha-se em atingir o objetivo final, que é fazer com que a pessoa se sinta parte da sociedade, se adapte, se sinta em casa.

Adotando uma política que visa a interação, consideramos que a ajuda é mútua, evitamos esse dinamismo ao qual estamos tão acostumados e facilitamos um intercâmbio gradual.

Precisamos desconstruir significados usados há muito tempo e usar as palavras certas. Humanizar todos os seres humanos, reconhecer que podemos aprender uns com os outros e olhar-nos como o que somos: iguais, cada um com suas diferenças.

Você não é racista, o seu cérebro sim.

Por Veronica Botelho

Falar de racismo causa incômodo e justamente por isso é algo que continua a existir. Apesar da ciência, graças aos estudos sobre DNA, já ter demonstrado que, ao nos referirmos aos seres humanos não podemos falar de diferentes raças, continuamos a fazer isso. Mas sabemos que nem sempre foi assim.

Para justificar a escravização de seres humanos e liberar as pessoas brancas do sentimento de culpa, além da validação da escravização pela igreja católica, que desde o início utilizava como pretexto de opressão a estigmatização de grupos considerados por ela diferentes; também os cientistas começaram a se pronunciar, estudando a população negra com uma única hipótese e objetivo: demonstrar que as pessoas negras eram inferiores e que, por isso, o processo de escravização estaria justificado.

Foram vários os defensores de uma inferioridade da população negra, pois o que queriam de fato era demonstrar a superioridade da população branca – viés de confirmação. Tais estudos culminaram no racismo científico.

O século 18 foi crucial para o viés de confirmação, ou seja, cientistas “encontraram” exatamente o que eles estavam buscando e criaram uma pseudociência: Ciência da raça – que estudava o ser humano dividido em diferentes raças.

Um dos primeiros cientistas a separar os seres humanos em diferentes raças, foi o naturalista sueco Carolus Linnaeus, que dividiu a humanidade em 4 variedades: europeia, americana, asiática e africana.

Petrus Camper, um professor de anatomia alemão, acreditava que os gregos foram os que chegaram mais perto da perfeição humana, e costumava utilizar as estátuas gregas como demonstração do que seria a face humana ideal.

O termo caucásico, utilizado até hoje, foi criado por um cientista alemão para descrever “a variedade da humanidade que se originou nas encostas do sul do Monte Cáucaso”. Ele afirmou que esta era a raça “original” e, portanto, a mais “bonita”.

Mas foi o trabalho de Samuel George Morton, um antropologista americano, que ganhou notoriedade, legitimando o racismo. Depois de medir vários crânios provenientes de diferentes lugares do mundo, ele chegou a conclusão que as pessoas brancas tinham os crânios maiores que o de outras raças e por isso eram “superiores”.

Jornalistas, professores e padres começaram a popularizar o racismo. Estudos feitos pelo historiador Reginald Horsman encontraram escritos relativos à esse período, tais como:

“Não necessitávamos ler livros para saber que os caucasianos eram inatamente superiores e que eles eram responsáveis ​​pela civilização no mundo, ou para saber que as raças inferiores estavam destinadas a ser esmagadas ou mesmo a desaparecer.”

Apesar de alguns estudiosos e cientistas questionarem Morton, eles foram ignorados e marginalizados.

Como o professor alemão Friedrich Tiedemann, que afirmou não encontrar evidências que confirmassem uma hierarquia racial entre caucasianos e africanos e, por isso, acabou sendo ignorado e seu argumento foi considerado como se não tivesse validação científica.

Outro estudioso que era contra a ideia de que africanos fossem menos humanes do que es anglo-saxões e se opôs veementemente ao processo de escravidão no século XIX, foi Frederick Douglass.  Um abolicionista americano, sufragista, editor, orador, autor, estadista e reformista.

Denominado “O Sábio de Anacostia” e “O Leão de Anacostia”, Douglass é uma das mais proeminentes figuras da história dos afro-americanos e dos Estados Unidos, principalmente no período da Guerra de Secessão e a consequente abolição da escravatura, tendo pressionado o presidente Abraham Lincoln.

“O homem se distingue de todos os outros animais pela posse de certas faculdades e poderes definidos, bem como pela organização e proporções físicas. Ele é o único animal de duas mãos na terra – o único que ri e quase o único que chora… Dificilmente é necessário o próprio senso comum para detectar a ausência de humanidade em um macaco ou para reconhecer sua presença em um negro.

Testado por todos os testes usuais e incomuns, sejam eles mentais, morais, físicos ou psicológicos, o negro é um HOMEM – considerando-o como possuidor de conhecimento, ou necessitando de conhecimento, sua elevação ou degradação, virtudes ou vícios.  Qualquer que seja o caminho que você toma, você chega à mesma conclusão: o negro é um homem. Seu bem e seu mal, sua inocência e sua culpa, suas alegrias e suas tristezas proclamam sua humanidade no discurso que toda a humanidade praticamente e prontamente entende. . .

É o interesse cego ao preconceito; escritores científicos, não menos que outros, escrevem para agradar, assim como instruir, e mesmo inconscientemente (às vezes) sacrificar o que é verdadeiro pelo o que é popular. A moda não se limita a se vestir; mas se estende também à filosofia – e está na moda agora, em nossa terra, exagerar as diferenças entre o negro e o europeu.”

Por que estava “na moda” para muitos americanos brancos negar a humanidade dos africanos? Douglass explicou: “Todo o argumento em defesa da escravidão se torna totalmente inútil no momento em que se provar que o africano é igualmente um homem como o anglo-saxão. A tentação, portanto, de perceber o negro fora da família humana é extremamente forte.”

Frederick Douglass
Frederick Douglass

Escavando na história, podemos encontrar inúmeras outras informações como essas. Além de informações das barbáries cometidas contra à população negra.

O que tudo isso tem a ver com a neurociência cultural? 

Primeiro uma breve explicação sobre o que é neurociência. A neurociência é o estudo de como o sistema nervoso se desenvolve, como é sua estrutura e o que faz. Ou seja, o que é o cérebro, a medula espinhal, os órgãos sensoriais e todos os nervos que conectam esses órgãos ao resto do corpo.

As suas três funções principais são: sensorial, integrativa e motora. É responsável por tudo o que fazemos. Graças à ele podemos andar, pensar, falar, dormir, comer, escutar…

Por muitos anos a neurociência se dedicou aos estudos do sistema nervoso com foco em compreender a sua estrutura para entender e curar lesões.

Mas, há alguns anos e graças aos avanços nos estudos com neuroimagem, como fMRI (ressonância magnética funcional), foram descobertas variações nas funções cognitivas de diferentes grupos culturais. Graças à essas descobertas, juntamente com os estudos da psicologia social, cultural, neurociência cognitiva e de outras disciplinas, nasce a neurociência cultural. (Chiao, 2007)

A neurociência cultural estuda a influência que o ambiente no qual uma pessoa cresce tem na formação das suas funções cognitivas, no seu DNA, na variação nos processos psicológicos e neurais, e vice-versa.

Com essas informações, além das consequências evidentes do dano causado pelo processo de abdução e escravidão, como tudo isso influencia para que ainda exista racismo em pleno século XXI, mesmo depois da ciência ter demonstrado que não existem raças diferentes quando falamos de seres humanos? 

Mesmo sendo um novo campo da neurociência e sendo ainda escassos os estudos sobre isso, as novas descobertas levam a uma meta-análise com o fenômeno do racismo. Apesar de ninguém se considerar racista, graças ao que aconteceu e aos ambientes onde crescemos, podemos refletir sobre como nossos cérebros foram moldados e sobre como o racismo é presente no nosso inconsciente e no nosso DNA.

Mas será que a ciência está mesmo disposta a fazer essa meta-análise e aceitar seus resultados? 

O meio acadêmico eurocêntrico critica a neurociência cultural, considerada por muitos privada de validação causal. Já no meio acadêmico asiático, onde os estudos científicos continuam avançando, tem ocorrido o contrário.

A verdade dói, mas só assim poderemos aniquilar o inimigo que vem aniquilando vidas durante séculos. 

Ou seja, o fato de você ter ume amigo negro, uma esposa, um marido, um filho… e viajar todos os anos para ajudar ONGs presentes no continente africano não é uma comprovação de que você não seja racista.

Mas para você todas as pessoas são iguais, certo?

Nosso cérebro não funciona assim. A percepção que temos de quem somos e do mundo, influencia o modo como vivemos nele, e isso depende do lugar onde crescemos, das informações que chegaram e chegam aos nossos sentidos, pois a partir dali tais informações foram transportadas e interpretadas pelos nossos cérebros. Sim, todo esse processo acontece de acordo com o contexto onde crescemos.

Nossos sentidos são cinco: visão, olfato, paladar, audição e tato. Toda informação que nosso cérebro recebe chega até ele através dos nossos sentidos.

Isso explica porque uma criança mexicana pode comer alimentos picantes tranquilamente, e uma espanhola não. Porque os chineses, japoneses e coreanos podem se reconhecer entre eles ou porque italianos gesticulam muito. Mas isso são exemplos banais comparados às descobertas da neurociência cultural.

Estudos demonstraram que a região do nosso cérebro responsável pela empatia se ativa de maneira diferente quando vemos um pessoa que percebemos como do “nosso grupo”. Esses mesmos estudos demonstraram que recém-nascidos não têm preferência por uma fisionomia, mas que a partir dos 3 meses começam a preferir a face de pessoas do próprio grupo étnico.

Aqui gostaria de fazer um paralelismo do condicionamento ao racismo com o estudo feito com Little Albert* (John B. Watson e Rosalie Rayner,1920), considerado antiético, mas reconhecido por muitos como responsável por grandes avanços na neurociência, demonstrando o condicionamento clássico em seres humanos.

Nesse experimento implantam uma fobia num bebê através da associação de um estímulo inicialmente neutro (animais peludos) a um estímulo aversivo (som alto).

Agora, em comparação a esse estudo, analisemos as canções de ninar presentes em várias culturas e que utilizam a figura do homem negro sempre vinculada ao medo. Qual tipo de condicionamento estamos provocando em nossas crianças cada vez que cantamos: “boi boi boi, boi da cara preta”? Qual impacto causamos nos cérebros das nossas crianças ao contarmos para elas histórias onde o protagonista que assusta é sempre um homem negro?

Ao refletirmos sobre a quais tipos de informação nossos cérebros foram e ainda são condicionados, torna-se impossível acreditar que isso não tenha um impacto a nível inconsciente.

E a nossa linguagem? Se observarmos a origem de várias palavras e expressões que utilizamos no nosso dia a dia com a maior naturalidade, nos daremos conta de como o racismo muitas vezes atua sutilmente: mulata, criado-mudo, denegrir, mercado negro, lista negra, “não sou tuas negas”, da cor do pecado, inveja branca, a coisa tá preta, boi-boi da cara preta, cabelo duro, cabelo de piche, cor de pele, morena…

Da mesma maneira acontece na publicidade presente em vários países, tanto antigamente quanto atualmente: conguitos, Volkswagen, sony, mascotes e logos racistas, bombril… Para não mencionar o fato que, por muitos anos, as pessoas negras só eram representadas em filmes, em situação de subalternidade, como delinquentes e prostitutas. Mesmo a situação tendo mudado nos últimos anos, a presença de pessoas negras fazendo papéis de protagonistas no cinema e na televisão ainda é muito baixa e em alguns países completamente inexistente.

São informações como essas que serão responsáveis pelo o que o nosso cérebro utilizará para julgar e colocar uma pessoa numa categoria, em milésimos de segundos. Se essa pessoa for diferente de nós, diferente do que estamos acostumados no nosso dia a dia, inconscientemente essas informações condicionarão a percepção que será formada, e a trataremos de modo diferente.

Sendo o nosso cérebro moldados pelo ambiente e o ambiente moldado pelo nosso cérebro, será que é realmente possível acabar com o racismo? 

Acreditamos que sim (Institute of cultural intelligence). A neurociência já demonstrou que nossos cérebros são plásticos, o que significa que sempre podemos aprender algo novo. Para isso precisamos sentir a necessidade, estudar, nos informar.

Se pensarmos no racismo, o que temos que fazer em primeiro lugar é reconhecer que somos todos racistas, porque crescemos em determinados ambientes. E, a partir desse momento, aumentar as informações que chegam aos nossos sentidos, ou seja, multiplicá-las (Multipercepção cultural).

Também é fundamental reconhecer que somos todos diferentes e que nosso cérebro comece a perceber as diferenças como um valor para o nosso crescimento enquanto ser humano, tanto num nível individual quanto coletivo. Que o diferente provoque curiosidade.

O racismo é um sistema onde um grupo tem vantagens sobre outro grupo e somos nós a alimentarmos esse sistema por meio da negação, do silêncio e do pensamento individualista.

“Eu não sou racista, para mim todas as pessoas são iguais!”, diz a maioria. Temos que observar a sociedade onde vivemos, o mundo ao nosso redor e reconhecer que, mais do que uma frase, precisamos agir, encontrar soluções, desconstruir a ideia que temos do mundo para então reconstruí-la, multiplicada com outras tantas existências.

A partir do momento que aceitarmos que até podemos não ser racistas, mas que nosso cérebro sim, este é; esse tema deixará de ser tabu e juntes poderemos encontrar uma solução.

“Prefiro ser fiel a mim mesmo, mesmo correndo o risco de ser ridicularizado, em vez de ser falso, e incorrer em minha própria aversão.” Frederick Douglass

The weirdest people in the world? Joseph Henrich et al.

What To The Slave Is The Fourth Of July%3F

The social cultural brain, Shihui Han 2017 – Oxford Impress 

You and your racist brain – Dr. Larry Sherman 

https://www.facinghistory.org/holocaust-and-human-behavior/chapter-2/science-race

https://www.geledes.org.br/18-expressoes-racistas-que-voce-usa-sem-saber/

Como vive o marido de uma feminista?

Por Veronica Botelho

Hoje foi um daqueles dias em que argumentos que para muitos podem parecer desconexos, para outros são o pão de cada dia e estão mais do que conectados.

Logo pela manhã li um post da jornalista Noemia Colonna, onde ela expressava a invisibilidade que nós, mulheres negras, enfrentamos em lugares públicos. Para tal, compartilhou uma experiência vivida por ela recentemente num restaurante do Rio de Janeiro.

Nesse mesmo post ela convidava à leitura de um artigo — que é parte de um dossiê sobre raça e direitos humanos que enfoca na conscientização da população branca em relação aos privilégios que gozam no Brasil — propondo o envolvimento ativo da população branca e de entidades do governo na luta antirracista.

Após ler o post, compartilhei em algumas linhas que cresci me sentindo invisível e que, nas poucas vezes que tentei comentar com amigues, sempre acabei sendo tachada como paranoica.

O que talvez não esperava era que justamente hoje viveria uma situação que me mandou de volta aquela mesma sensação de impotência e de invisibilidade, ainda que com outra conotação…

Fui almoçar com minhas filhas e duas amigas num restaurante que, a cada ano, faz feijoada como abertura da temporada, já que os donos são brasileiros, mas a especialidade da cozinha é italiana.

Lá encontramos dois casais de brasileiros, conhecidos nossos, com suas filhas. Trocamos algumas palavras, apresentei minhas amigas, mas cada um se manteve na sua mesa.

Enquanto comia e conversava com minhas amigas, escutamos uma delas falarem:

– Quando eu emagrecer, faço a operação e pronto. — na sequência, o marido fala:

– Vai operar o quê? O cérebro? Conheço um neurologista muito bom, mas acho que teu caso não tem solução.

Os dois homens presentes na mesa começam a rir e as mulheres esboçam aquele sorriso de circunstância, sem dizer uma só palavra. Me controlo para não falar nada, afinal, mesmo que sem intenção, por causa da proximidade das mesas estava invadindo a privacidade deles.

Olho para minhas amigas, balanço a cabeça e continuo comendo, absorvida em pensamentos e refletindo sobre como os homens conseguem nos humilhar com tanta desenvoltura.

De repente, entre um prato e outro de feijoada, quando passava perto da mesa deles, um deles diz em alto e bom tom:

– Como será que vive o marido de uma feminista? — sentindo os olhares dirigidos à mim, sorrio, olho para trás com o rabo de olho e respondo:

– Divorciado ou viúvo.

Respondi instintivamente, pois sabia que era uma provocação, então resolvi ser sarcástica e deixar pra lá. Eles começam a rir e continuam a conversa entre eles.

Minhas amigas me observam indignadas, sorrio:

– Deixa pra lá, estavam só me provocando. Eles teriam que ler aquele texto “Sejamos todos feministas”, de Chimamanda Adichie. Vocês conhecem?

– Conheço, inclusive acho que ela quis mesmo divulgá-lo, pois encontrei o pdf dele grátis.

– Sério?! Vou procurar agora mesmo e mandar para eles.

E começamos a rir enquanto procurávamos pelo texto, encontrando-o rapidamente. Na mesma hora mandei para um deles (não tinha o número do outro) e para as duas mulheres. Em menos de cinco minutos um deles já estava na nossa mesa.

– Eu te faço uma pergunta e você me responde com 77 páginas?! — sorri, em resposta.

Ah, detalhe: ele vestia uma camiseta preta com os dizeres “Bolsonaro Sim”. Em tom de gentileza e curiosidade ele inicia um diálogo:

– Sério mesmo, sempre me pergunto como será que vive o marido de uma feminista.

– Por isso te mandei o livro.

– Sim, mas homem é homem e mulher é mulher. Então, se ser feminista é sair com os peitos de fora e com frases absurdas, mijar e defecar na cruz, não se depilar… como será que vivem seus maridos?

Incrédulas, começamos a rir.

– Esses são os estereótipos, ser feminista não tem nada a ver como o que vocês está falando.

– Como não?! É o que vemos por aí.

Minhas amigas, entram na conversa.

– É o que querem que vejam, mas já se sabe que ser feminista não tem nada a ver com esses estereótipos.

– Talvez não na Angola, mas no Brasil ser feminista é isso sim. — disse, levando em consideração que minhas amigas são angolanas.

– Sério, vamos fazer uma coisa, já que você tem filhas mulheres, leia o livro, é bem pequeno. Se quiser, tem o vídeo no TED também, e depois conversamos. Essas afirmações que você fez não tem nada a ver com ser feminista, são ideias estereotipadas e obsoletas.

– Tá bom, então me responde uma pergunta: Se Thammy (a filha de Gretchen) e Pabllo Vittar começam a ter um caso e um dia quebram o pau entre eles, quem é que a Lei Maria da Penha vai defender? Thammy ou Pabllo?

– Desculpa, quem é Pabllo Vittar? — Na verdade, já tinha ouvido falar nela, mas como moro há mais de 20 anos fora, não fui atrás e nem acompanho sua carreira e também queria ver como ele me explicaria.

– Aquele traveco, que agora é considerado como a beleza brasileira.

– Ah, você quer dizer uma mulher transexual? — respondi, mas apenas um tempo depois soube que, na verdade, esta cantora é uma drag queen.

– É, isso mesmo, aquele traveco.

– Ah…

E ignorei completamente a pergunta, me girando e continuando a comer. Ele falou que iria ler o livro e depois conversaríamos, acrescentando que se sou feminista, então ele é machista, pois feminismo é o contrário de machismo.

Eu e minhas amigas nos olhamos, sorrimos e continuamos comendo. Afinal, como dar continuidade a uma conversa desse tipo?

Eles pagam a conta, começam a se despedir dos donos do restaurante e de nós e, de repente ele, sempre o mesmo com a camiseta do Bolsonaro, olha para mim e diz:

– Semana passada sonhei com você. — inocentemente, eu pergunto:

– Brigando?

Assim deduzi porque, um tempo atrás, tivemos uma pequena discussão sobre eu aceitar Jesus ou não. Como eles são evangélicos e sempre me convidavam para participar do grupo deles de oração, certa vez, após muita insistência deles, fui mais taxativa ao dizer não.

Ele e o amigo dele começaram a sorrir.

– Não, não… — Continuaram a sorrir e me olhar de um jeito pouco respeitoso. Foi então que entendi que o sonho devia ter outra conotação. Me afastei deles e me aproximei das esposas, que conversavam com a dona do restaurante; mas não rápido o suficiente para evitar ouvir o amigo, que me olhava, perguntar para ele:

– E como ela estava?

Já perto das suas esposas, pude apenas escutar suas risadas e senti os olhares deles em cima de mim.

Agora me pergunto, são essas as pessoas que se sentem servas de Deus e que acreditam que todos nós que não “aceitamos” Jesus iremos para o inferno e que eles serão salvos?

Será que eles se permitiriam fazer esses mesmos tipos de comentários se não fosse eu uma mulher negra, especialmente agora, na condição de separada? Ao fazer isso, será que não lembram que suas filhas são mulheres e que as mesmas coisas que eles fazem a mim alguém fará a elas?

Como não defender o feminismo negro?! Veja como as discriminações se entrelaçam, como continuamos sendo alvo de preconceito de um mesmo perfil, que afirma com convicção que homem é homem, mulher é mulher e viado não é gente.

Desde que me separei tenho vivido situações que me obrigam a refletir sobre minha condição de mulher negra numa sociedade machista. Em uma semana é a segunda vez que passo por uma situação constrangedora, ofensiva e, escancaradamente, um reflexo das sociedades patriarcais e que continuam a racializar.

Infelizmente, o caminho ainda é longo, muito mais do que podemos imaginar e até mesmo aceitar.

Integração, interação e etnocentrismo: uma relação sutil?

Por Veronica Botelho

(publicado no dia 23 de abril de 2019, em http://substantivoplural.com.br)

Há alguns anos, estudiosos da imigração iniciaram um debate a favor da utilização da palavra interação em vez de integração. É possível encontrar extensa documentação sobre o assunto, que se tornou popular nos últimos anos e em muitas partes do mundo.

Aqui na Itália, por exemplo, o filósofo Salvatore Natoli, professor de filosofia teórica na Universidade Bicocca de Milão, numa entrevista concedida a Affari italiani, em 2012, disse:

“A integração é um conceito arriscado porque também significa assimilação, a interação é, em vez disso, um processo de intercâmbio gradual, mas as condições devem ser criadas para alcançá-lo”. Continue lendo “Integração, interação e etnocentrismo: uma relação sutil?”

“Que tipo de globalização queremos?”, de Marc Torra

Artigo de Marc Torra
Tradução de Veronica Botelho

Abstract

A globalização envolve um processo de “interação” e “integração” de povos e economias. Este artigo discute se o aspecto de ‘integração’ do processo levará inevitavelmente à homogeneização cultural ou se, ao contrário, o aspecto ‘interação’ pode ajudar a fortalecer as identidades culturais. Continue lendo ““Que tipo de globalização queremos?”, de Marc Torra”