Você não é racista, o seu cérebro sim.

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Por Veronica Botelho

Falar de racismo causa incômodo e justamente por isso é algo que continua a existir. Apesar da ciência, graças aos estudos sobre DNA, já ter demonstrado que, ao nos referirmos aos seres humanos não podemos falar de diferentes raças, continuamos a fazer isso. Mas sabemos que nem sempre foi assim.

Para justificar a escravização de seres humanos e liberar as pessoas brancas do sentimento de culpa, além da validação da escravização pela igreja católica, que desde o início utilizava como pretexto de opressão a estigmatização de grupos considerados por ela diferentes; também os cientistas começaram a se pronunciar, estudando a população negra com uma única hipótese e objetivo: demonstrar que as pessoas negras eram inferiores e que, por isso, o processo de escravização estaria justificado.

Foram vários os defensores de uma inferioridade da população negra, pois o que queriam de fato era demonstrar a superioridade da população branca – viés de confirmação. Tais estudos culminaram no racismo científico.

O século 18 foi crucial para o viés de confirmação, ou seja, cientistas “encontraram” exatamente o que eles estavam buscando e criaram uma pseudociência: Ciência da raça – que estudava o ser humano dividido em diferentes raças.

Um dos primeiros cientistas a separar os seres humanos em diferentes raças, foi o naturalista sueco Carolus Linnaeus, que dividiu a humanidade em 4 variedades: europeia, americana, asiática e africana.

Petrus Camper, um professor de anatomia alemão, acreditava que os gregos foram os que chegaram mais perto da perfeição humana, e costumava utilizar as estátuas gregas como demonstração do que seria a face humana ideal.

O termo caucásico, utilizado até hoje, foi criado por um cientista alemão para descrever “a variedade da humanidade que se originou nas encostas do sul do Monte Cáucaso”. Ele afirmou que esta era a raça “original” e, portanto, a mais “bonita”.

Mas foi o trabalho de Samuel George Morton, um antropologista americano, que ganhou notoriedade, legitimando o racismo. Depois de medir vários crânios provenientes de diferentes lugares do mundo, ele chegou a conclusão que as pessoas brancas tinham os crânios maiores que o de outras raças e por isso eram “superiores”.

Jornalistas, professores e padres começaram a popularizar o racismo. Estudos feitos pelo historiador Reginald Horsman encontraram escritos relativos à esse período, tais como:

“Não necessitávamos ler livros para saber que os caucasianos eram inatamente superiores e que eles eram responsáveis ​​pela civilização no mundo, ou para saber que as raças inferiores estavam destinadas a ser esmagadas ou mesmo a desaparecer.”

Apesar de alguns estudiosos e cientistas questionarem Morton, eles foram ignorados e marginalizados.

Como o professor alemão Friedrich Tiedemann, que afirmou não encontrar evidências que confirmassem uma hierarquia racial entre caucasianos e africanos e, por isso, acabou sendo ignorado e seu argumento foi considerado como se não tivesse validação científica.

Outro estudioso que era contra a ideia de que africanos fossem menos humanes do que es anglo-saxões e se opôs veementemente ao processo de escravidão no século XIX, foi Frederick Douglass.  Um abolicionista americano, sufragista, editor, orador, autor, estadista e reformista.

Denominado “O Sábio de Anacostia” e “O Leão de Anacostia”, Douglass é uma das mais proeminentes figuras da história dos afro-americanos e dos Estados Unidos, principalmente no período da Guerra de Secessão e a consequente abolição da escravatura, tendo pressionado o presidente Abraham Lincoln.

“O homem se distingue de todos os outros animais pela posse de certas faculdades e poderes definidos, bem como pela organização e proporções físicas. Ele é o único animal de duas mãos na terra – o único que ri e quase o único que chora… Dificilmente é necessário o próprio senso comum para detectar a ausência de humanidade em um macaco ou para reconhecer sua presença em um negro.

Testado por todos os testes usuais e incomuns, sejam eles mentais, morais, físicos ou psicológicos, o negro é um HOMEM – considerando-o como possuidor de conhecimento, ou necessitando de conhecimento, sua elevação ou degradação, virtudes ou vícios.  Qualquer que seja o caminho que você toma, você chega à mesma conclusão: o negro é um homem. Seu bem e seu mal, sua inocência e sua culpa, suas alegrias e suas tristezas proclamam sua humanidade no discurso que toda a humanidade praticamente e prontamente entende. . .

É o interesse cego ao preconceito; escritores científicos, não menos que outros, escrevem para agradar, assim como instruir, e mesmo inconscientemente (às vezes) sacrificar o que é verdadeiro pelo o que é popular. A moda não se limita a se vestir; mas se estende também à filosofia – e está na moda agora, em nossa terra, exagerar as diferenças entre o negro e o europeu.”

Por que estava “na moda” para muitos americanos brancos negar a humanidade dos africanos? Douglass explicou: “Todo o argumento em defesa da escravidão se torna totalmente inútil no momento em que se provar que o africano é igualmente um homem como o anglo-saxão. A tentação, portanto, de perceber o negro fora da família humana é extremamente forte.”

Frederick Douglass
Frederick Douglass

Escavando na história, podemos encontrar inúmeras outras informações como essas. Além de informações das barbáries cometidas contra à população negra.

O que tudo isso tem a ver com a neurociência cultural? 

Primeiro uma breve explicação sobre o que é neurociência. A neurociência é o estudo de como o sistema nervoso se desenvolve, como é sua estrutura e o que faz. Ou seja, o que é o cérebro, a medula espinhal, os órgãos sensoriais e todos os nervos que conectam esses órgãos ao resto do corpo.

As suas três funções principais são: sensorial, integrativa e motora. É responsável por tudo o que fazemos. Graças à ele podemos andar, pensar, falar, dormir, comer, escutar…

Por muitos anos a neurociência se dedicou aos estudos do sistema nervoso com foco em compreender a sua estrutura para entender e curar lesões.

Mas, há alguns anos e graças aos avanços nos estudos com neuroimagem, como fMRI (ressonância magnética funcional), foram descobertas variações nas funções cognitivas de diferentes grupos culturais. Graças à essas descobertas, juntamente com os estudos da psicologia social, cultural, neurociência cognitiva e de outras disciplinas, nasce a neurociência cultural. (Chiao, 2007)

A neurociência cultural estuda a influência que o ambiente no qual uma pessoa cresce tem na formação das suas funções cognitivas, no seu DNA, na variação nos processos psicológicos e neurais, e vice-versa.

Com essas informações, além das consequências evidentes do dano causado pelo processo de abdução e escravidão, como tudo isso influencia para que ainda exista racismo em pleno século XXI, mesmo depois da ciência ter demonstrado que não existem raças diferentes quando falamos de seres humanos? 

Mesmo sendo um novo campo da neurociência e sendo ainda escassos os estudos sobre isso, as novas descobertas levam a uma meta-análise com o fenômeno do racismo. Apesar de ninguém se considerar racista, graças ao que aconteceu e aos ambientes onde crescemos, podemos refletir sobre como nossos cérebros foram moldados e sobre como o racismo é presente no nosso inconsciente e no nosso DNA.

Mas será que a ciência está mesmo disposta a fazer essa meta-análise e aceitar seus resultados? 

O meio acadêmico eurocêntrico critica a neurociência cultural, considerada por muitos privada de validação causal. Já no meio acadêmico asiático, onde os estudos científicos continuam avançando, tem ocorrido o contrário.

A verdade dói, mas só assim poderemos aniquilar o inimigo que vem aniquilando vidas durante séculos. 

Ou seja, o fato de você ter ume amigo negro, uma esposa, um marido, um filho… e viajar todos os anos para ajudar ONGs presentes no continente africano não é uma comprovação de que você não seja racista.

Mas para você todas as pessoas são iguais, certo?

Nosso cérebro não funciona assim. A percepção que temos de quem somos e do mundo, influencia o modo como vivemos nele, e isso depende do lugar onde crescemos, das informações que chegaram e chegam aos nossos sentidos, pois a partir dali tais informações foram transportadas e interpretadas pelos nossos cérebros. Sim, todo esse processo acontece de acordo com o contexto onde crescemos.

Nossos sentidos são cinco: visão, olfato, paladar, audição e tato. Toda informação que nosso cérebro recebe chega até ele através dos nossos sentidos.

Isso explica porque uma criança mexicana pode comer alimentos picantes tranquilamente, e uma espanhola não. Porque os chineses, japoneses e coreanos podem se reconhecer entre eles ou porque italianos gesticulam muito. Mas isso são exemplos banais comparados às descobertas da neurociência cultural.

Estudos demonstraram que a região do nosso cérebro responsável pela empatia se ativa de maneira diferente quando vemos um pessoa que percebemos como do “nosso grupo”. Esses mesmos estudos demonstraram que recém-nascidos não têm preferência por uma fisionomia, mas que a partir dos 3 meses começam a preferir a face de pessoas do próprio grupo étnico.

Aqui gostaria de fazer um paralelismo do condicionamento ao racismo com o estudo feito com Little Albert* (John B. Watson e Rosalie Rayner,1920), considerado antiético, mas reconhecido por muitos como responsável por grandes avanços na neurociência, demonstrando o condicionamento clássico em seres humanos.

Nesse experimento implantam uma fobia num bebê através da associação de um estímulo inicialmente neutro (animais peludos) a um estímulo aversivo (som alto).

Agora, em comparação a esse estudo, analisemos as canções de ninar presentes em várias culturas e que utilizam a figura do homem negro sempre vinculada ao medo. Qual tipo de condicionamento estamos provocando em nossas crianças cada vez que cantamos: “boi boi boi, boi da cara preta”? Qual impacto causamos nos cérebros das nossas crianças ao contarmos para elas histórias onde o protagonista que assusta é sempre um homem negro?

Ao refletirmos sobre a quais tipos de informação nossos cérebros foram e ainda são condicionados, torna-se impossível acreditar que isso não tenha um impacto a nível inconsciente.

E a nossa linguagem? Se observarmos a origem de várias palavras e expressões que utilizamos no nosso dia a dia com a maior naturalidade, nos daremos conta de como o racismo muitas vezes atua sutilmente: mulata, criado-mudo, denegrir, mercado negro, lista negra, “não sou tuas negas”, da cor do pecado, inveja branca, a coisa tá preta, boi-boi da cara preta, cabelo duro, cabelo de piche, cor de pele, morena…

Da mesma maneira acontece na publicidade presente em vários países, tanto antigamente quanto atualmente: conguitos, Volkswagen, sony, mascotes e logos racistas, bombril… Para não mencionar o fato que, por muitos anos, as pessoas negras só eram representadas em filmes, em situação de subalternidade, como delinquentes e prostitutas. Mesmo a situação tendo mudado nos últimos anos, a presença de pessoas negras fazendo papéis de protagonistas no cinema e na televisão ainda é muito baixa e em alguns países completamente inexistente.

São informações como essas que serão responsáveis pelo o que o nosso cérebro utilizará para julgar e colocar uma pessoa numa categoria, em milésimos de segundos. Se essa pessoa for diferente de nós, diferente do que estamos acostumados no nosso dia a dia, inconscientemente essas informações condicionarão a percepção que será formada, e a trataremos de modo diferente.

Sendo o nosso cérebro moldados pelo ambiente e o ambiente moldado pelo nosso cérebro, será que é realmente possível acabar com o racismo? 

Acreditamos que sim (Institute of cultural intelligence). A neurociência já demonstrou que nossos cérebros são plásticos, o que significa que sempre podemos aprender algo novo. Para isso precisamos sentir a necessidade, estudar, nos informar.

Se pensarmos no racismo, o que temos que fazer em primeiro lugar é reconhecer que somos todos racistas, porque crescemos em determinados ambientes. E, a partir desse momento, aumentar as informações que chegam aos nossos sentidos, ou seja, multiplicá-las (Multipercepção cultural).

Também é fundamental reconhecer que somos todos diferentes e que nosso cérebro comece a perceber as diferenças como um valor para o nosso crescimento enquanto ser humano, tanto num nível individual quanto coletivo. Que o diferente provoque curiosidade.

O racismo é um sistema onde um grupo tem vantagens sobre outro grupo e somos nós a alimentarmos esse sistema por meio da negação, do silêncio e do pensamento individualista.

“Eu não sou racista, para mim todas as pessoas são iguais!”, diz a maioria. Temos que observar a sociedade onde vivemos, o mundo ao nosso redor e reconhecer que, mais do que uma frase, precisamos agir, encontrar soluções, desconstruir a ideia que temos do mundo para então reconstruí-la, multiplicada com outras tantas existências.

A partir do momento que aceitarmos que até podemos não ser racistas, mas que nosso cérebro sim, este é; esse tema deixará de ser tabu e juntes poderemos encontrar uma solução.

“Prefiro ser fiel a mim mesmo, mesmo correndo o risco de ser ridicularizado, em vez de ser falso, e incorrer em minha própria aversão.” Frederick Douglass

The weirdest people in the world? Joseph Henrich et al.

What To The Slave Is The Fourth Of July%3F

The social cultural brain, Shihui Han 2017 – Oxford Impress 

You and your racist brain – Dr. Larry Sherman 

https://www.facinghistory.org/holocaust-and-human-behavior/chapter-2/science-race

https://www.geledes.org.br/18-expressoes-racistas-que-voce-usa-sem-saber/

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