Minha primeira vez
Flip - Veronica Botelho

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Muitas pessoas têm me perguntado como foi a minha primeira Flip. A primeira resposta que me veio à mente foi um post que publiquei quando estive na Índia, em 2018. Um momento em que tudo parecia sem cor, em que observar era a única alternativa para não desmoronar, e acreditar (ter fé) foi o que me permitiu continuar.

Mas essa história começou muito antes, em 2004, quando morava em Barcelona. Foi a primeira vez que ouvi falar de Paraty, e uma das vezes em que senti saudade de casa. Desde então, comecei a fantasiar com o dia em que estaria lá.

No final de 2020, voltei a morar no Brasil, e um dos primeiros lugares que decidi conhecer com Chris — meu companheiro e também o melhor crítico literário que conheço — foi Paraty. Foi lá, dentro de um barco à vela, que Cate, minha terceira filha, começou a existir. Cogitei ir à Flip em 2022 e 2023, mas algo me dizia para esperar. E esperei.

Flip - Veronica Botelho

Esperei até esse ano e, quando saiu a programação, quis comprar ingressos para duas mesas: a com Lisa Ginzburg e a com Mohamed Mbour Sarr. Consegui apenas a primeira, que coincidia com o dia do meu aniversário — o mesmo dia em que lançaria meu segundo romance.

Antes da viagem, a sensação era de total euforia; sentia que algo muito bom estava para acontecer. As semanas em que eu e minhas três filhas pegamos coqueluche, os três dias no hospital, os choros solitários pela solidão, os receios, os medos… tudo parecia ter ido para a mais recôndita memória, mas as das mulheres — esquecer o que precisa para seguir adiante.  Como se aprecia no livro de Mohamed. Foi com essa energia que cheguei na quarta-feira a Paraty. E levei minhas filhas junto. Para completar o estado de alegria, Chris chegaria no dia seguinte.

Depois de muitas tentativas, consegui conhecer pessoalmente uma amiga virtual – Rebecca. Ignorei como o cansaço de dirigir quatro horas e a fadiga das meninas, por ficarem tanto tempo no carro, poderiam permear o nosso encontro. O que ela presenciou e compartilhou foi o meu caos.

Às 18h, com o sorriso constrangido de quem vai à casa de alguém pela primeira vez, sem saber por onde ou como se mover, entrei na Casa Escreva, Garota!. O lugar que seria a minha morada por alguns dias. Agradeci por Rebecca ter intuído a situação, e ido junto comigo.

Escolhi mal meus horários e fiquei muitas horas quase sem conversar com ninguém. Não apenas não vendi nenhum livro, como as pessoas nem se interessavam por eles. Eu sabia o que tinha que fazer: levantar, oferecer meus livros, explicar, sorrir, mas não conseguia. Estava congelada. Vi nos olhos de uma das minhas filhas aquela expressão de quando deixamos de acreditar que nossa mãe é uma heroína e nos deparamos com a realidade de que ela é apenas uma pessoa fazendo o melhor que pode.

Naquela noite, quando cheguei em casa, li o texto da maravilhosa Jeovanna — uma pessoa que virou amiga graças à sincronicidade. Nele, ela chorava por não estar lá. E eu chorava por estar. A desconhecida cama fria, foi a minha companheira.

Na manhã seguinte, Chris chegou, finalmente as minhas lágrimas tinham um abraço onde se demorar. Passamos uma parte do dia juntos, até eu voltar para a Casa. Teria sido a mesma coisa se eu não tivesse conversado com a poeta Ana Júlia. Eu sempre me inclino diante de pessoas que emitem aquela luz presente na aurora boreal. Encontrá-la, foi mais um presente da sincronicidade. E foi sobre isso que falamos, mas com outras palavras. Como ela mesma expressou num post: “Paraty nos deu de presente a presença!… como a fatalidade da morte nos obriga a encarar a dor gelada do ‘dia da morte’, ela nos obriga a estar presente da maneira mais cruel.” E eu completo: graças a essa dor, aprendemos a importância de viver cada momento o melhor que podemos. Aprendemos o que realmente importa. Aprendemos a viver! Fui dormir com a energia renovada e abraçada.

Flip - Veronica Botelho

Chegou a sexta-feira, com ela aquele sorriso que invade o meu rosto há 46 voltas ao sol, 50 primaveras, 50 verões, 50 outonos e 50 primaveras — minhas idas e vindas multiplicaram as estações. Com minhas filhas Cate e Camilla, e Chris, fomos ver a mesa da qual participaria Lisa Ginzburg, mediada por Adriana Ferreira, uma pessoa cujo trabalho admiro muito. Lisa, com sua serena eloquência e sabedoria, disse coisas que ressoavam em mim. Falou da força de se deixar guiar, da importância de estar presente, mas quando mencionou a sincronicidade, especificando que é um conceito de Carl Jung, da mesma maneira que eu faço e que todos que me conhecem sabem, tive a certeza de que o único lugar onde eu poderia estar era ali.

Na saída, encontrei e tirei uma foto com Adriana e sua irmã Vanessa. Compartilhamos sorrisos e abraços.

De repente, senti um vento frio que invadia a minha existência. Precisava escrever, só não tinha onde. Descobri que, na cidade que mais representa a literatura no nosso país, não existem muitos espaços onde é permitido sentar com um computador e escrever. Demorei quase 1 hora para encontrar um lugar. Sentei, escrevi, desaguei, me renovei. 

Quando me senti aquecida, saí e esbarrei com Mariana Carrara na porta da Casa para Todos, onde voltei para comprar um livro, o dela. Na saída, ela continuava lá, e eu, com toda a minha timidez de estar invadindo o espaço de alguém, pedi um autógrafo e ofereci meu livro. Ela, com uma empatia que vi em poucas pessoas, percebeu que eu gostaria de uma foto, retirou o meu livro já guardado na bolsa e, com um sorriso sincero, pediu para sua amiga Camila tirar a foto. Fiquei sabendo que ela é a mesma Camila do livro que eu tinha nas mãos.

Senti a energia crescendo, e aproveitei para flanar – palavra que ouvi em diferentes momentos, dita por diferentes pessoas por Paraty. 

Fui para casa, fiquei um pouco com minha família, incluindo Íris, mais uma amiga que a Itália me deu. Me preparei e fui encontrar Paula Jacob. Com as indicações de Ana Paula e Maria Carolina, o sucesso do nosso encontro já era garantido. Conversamos sobre muitas coisas e chegamos juntas ao evento. Com a energia nas alturas. Tudo parecia fluir: a conversa, o público atento, as intervenções, as vendas dos livros, os autógrafos… Senti a energia que Lella se esforça para colocar em palavras. Depois, com minha família, fomos comer uns petiscos. De repente, vejo Lisa Ginzburg passando em frente à nossa mesa e, sem pensar duas vezes, a chamei. Ela parou, me apresentei, apresentei minha filha Camilla, que queria conhecê-la. Um encontro breve, mas que não poderia ter sido mais intenso, como se já nos conhecêssemos. Para mim, já poderia voltar para casa. Sorri e agradeci mais uma vez à sincronicidade.

As meninas voltaram para casa com Aline e Chris, Íris e eu fomos atrás de boa música, ou melhor, do que queríamos escutar, porque se uma coisa Paraty tem, são bons músicos. Pegamos o finalzinho do concerto de jazz do projeto Atlântico Sul Music. Na entrada, encontrei Cris Sushi, pessoa com quem compartilhei o início da minha vida em Florença e um pedacinho em Barcelona. 

Encerrei a noite dançando Blitz de Evandro Mesquita, Kid Abelha, Paralamas do Sucesso, Rita Lee… na casa que Íris comentou ser a balada dos jornalistas.

No dia seguinte, me dirigi mais uma vez à Casa Escreva, Garota!. Sorri, conversei, vendi alguns livros e comprei muitos outros. Conheci mulheres que compartilham o meu mesmo sonho — ser lida, multiplicar palavras, levar mensagens, continuar aprendendo. Pude encontrar Ana Júlia mais uma vez. Com as escritoras Mari e Patrícia, tive um daqueles papos literários que começam em pé e acabam sentados numa mesa de restaurante. Foram tantas trocas que, por mim, poderíamos marcar um aperitivo virtual semanalmente.

No domingo, fizemos um passeio de barco. Voltei à Ilha dos Cocos e do Algodão, e dessa vez acompanhada de minhas filhas. 

Em Paraty finalizei a leitura de Como amar uma filha, da Hila Blum, e Fechar os Olhos, de Byung-Han, e comecei A Vegetariana, de Han Kang. 

Todos os dias, Eduardo, descendente de italiano, espanhol e alemão, nos levava e trazia do centro. Conheci um pouco mais de Paraty pelos olhos dele e fui presenteada com duas mudas de ipê. E ele comprou meus livros para sua esposa. Conheci também Gustavo, 11 anos, aprendiz dedicado de marinheiro. 

A casa onde nos hospedamos emanava a energia de que precisávamos, e acredito que fosse por causa da atenção e carinho com que Fabiolo, o responsável por ela, a cuida e recebe as pessoas.

Bruna garantiu fotos que em breve estarei postando. Conheci Tais, Vanessa, Monica e Sol pessoalmente. Acompanhei mais uma vez o trabalho incrível de Lella. Recebi o carinho de Manu, Milena e Natana. Provei a melhor comida Thai da minha vida. Conheci e vibrei com mulheres incríveis. Conheci as meninas da Com.Tato. Encontrei amigos virtuais. Revi amizades que nasceram em SP. Fiz amizades que sinto que durarão. Vendi muitos livros. Sorri a cada Meias Verdades, meu primeiro livro escrito em 2016.

Então, esta é a resposta — íntima, inveterada, flanada — sobre como foi a minha primeira Flip. O que levo da Flip é o deslumbre da primeira vez. Aquela mesma sensação de quando aprendemos a andar de bicicleta, a ler, a escrever. De quando pela primeira vez vemos a neve, uma plantação de girassóis, de tulipas. Do primeiro banho no Mediterrâneo, da primeira vez que vemos o Duomo de Florença… Levo as cores.

Agora entendo o texto de Jeovanna, com o qual muitas pessoas que conheço se identificaram. Por isso, espero que no próximo ano a gente se encontre por lá, ou quem sabe a gente se deslumbre juntas em outro lugar…

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