A morte é uma maneira dolorosa de ensinar a importância do presente, mas e quando o esquecimento faz parte desse presente?
Duas semanas atrás, quando soube que Gene Hackman e sua esposa Betsy Arakawa haviam sido encontrados mortos, juntamente com um de seus cachorros, após dias de isolamento, minha maneira de prestar homenagem foi escrever um artigo sobre ele e o seu legado. Descobri a história de um casal que se conheceu há mais de 30 anos em uma academia, e que viviam em sintonia entre atividades esportivas e várias paixões em comum: música (ela era pianista), escrita (os dois escreveram alguns livros em colaboração), pintura e o amor por cachorros.
Até então, só conhecia o Hackman, brilhante e discreto ator. Pesquisando para o texto, li detalhes de como os corpos tinham sido encontrados, sobre o estado de decomposição, sobre o dela ter sido encontrado ao lado de remédios pelo chão e um pequeno calefator. Comecei a fantasiar sobre como deveriam ter morrido.
No último domingo, com a divulgação de mais detalhes sobre a morte deles, quis escrever mais, mas fui invadida por um amargor que contagiou minhas entranhas, como se o fel tivesse se rompido, e paralisei.
Gene Hackman e Betsy Arakawa – Veronica Botelho
Cresci escutando que notícia ruim não chega, voa. Vivi isso na pele várias vezes, muito antes de existirem celulares. Hoje, na era da hipercomunicação, já virou clichê falar que estamos cada dia mais desconectados, mas continuamos caminhando em direção a um abismo ainda mais profundo: o da indiferença. Não é apenas o isolamento que nos assombra, mas a anestesia do olhar humano em sociedades onde estamos cada vez mais centrados no próprio umbigo, ou no ataque aos outros, às polêmicas, de tal forma que não enxergamos sequer o vizinho da casa ao lado.
O sentir-se sozinho por entre a gente já não se faz mais referência apenas ao amor, como dizia Camões. Hoje, sentir-se sozinho por entre a gente vem acompanhado de sentir-se sozinho por entre as máquinas, nos scrollings infinitos nos sociais… vem acompanhado de sentir-se esquecido.
A autópsia revelou que a pianista contraiu um vírus raro – hantavírus – e faleceu 7 dias antes do seu marido. Ele morreu por complicações cardíacas agravadas pelo Alzheimer.
Especialistas sugerem que, devido ao estado avançado de Alzheimer, ele pode não ter percebido de imediato que Betsy estava morta, ou que, durante os 7 dias em que sobreviveu sozinho, tenha revivido, repetidamente, a sua perda.
Nunca poderemos saber exatamente o que aconteceu naqueles dias. São muitas perguntas sem resposta: Por que sua esposa não pediu ajuda ao começar a se sentir mal? Se mantinham uma boa relação com os filhos, como ficaram dois meses sem contato algum, incluindo Natal e Ano Novo? A cuidadora da mãe de Betsy, que também tem Alzheimer, declarou que a filha sempre ligava, porém desde outubro não recebia nenhuma ligação. Como ninguém estranhou esse silêncio? Como a ausência do casal permaneceu despercebida por duas semanas? Por que tinha um calefator pequeno ao lado do corpo de Betsy?
O calefator sempre fez parte das fantasias que criei. Foi esse detalhe, antes mesmo das autópsias, que me fez pensar que ela tivesse morrido primeiro. Imaginei que, ao encontrá-la fria, ele pegasse o calefator numa tentativa de aquecê-la, sem compreender que ela tivesse morrido.
A ideia de que ele tenha passado dias sem entender o que havia acontecido, ou revivendo sua morte como uma notícia sempre nova, me parece uma das formas mais cruéis de sofrimento mental. Não consigo pensar em nada mais agonizante: viver várias vezes o primeiro momento de saber que alguém que amamos morreu, na mais precisa exemplificação da relatividade do tempo – o luto dilata, o expande, os segundos passam como dias, os minutos como meses.
Não consigo tirar da minha mente a imagem dele tentando aquecer o corpo inerte da sua companheira, sem entender por que ela não respondia, sentindo desespero, até morrer 7 dias depois.
O silêncio do esquecimento, a impotência na sua forma mais desesperante. Quando o esquecer que se foi esquecido parece ser a única coisa que poderia trazer um mínimo de alívio nessa história atroz – estar sozinho e esquecido. Morrer e não ser mais notícia ruim, para voar.
A morte deles nos diz muito sobre a sociedade na qual nos transformamos: egocêntrica, individualista e superficial.
O racismo desde o ambiente familiar é o ponto de partida da narrativa de “Inverno”, de Verônica Botelho • Freepik
O racismo no ambiente familiar é o ponto de partida da história de Isabel no livro “Inverno” (e-Galáxia), escrito pela piauiense Veronica Botelho. Fruto de uma relação inter-racial, mas criada unicamente por familiares brancos, a jovem sente na pele as tensões vividas por famílias inter-raciais, com o racismo aparecendo em pequenos elementos do cotidiano.
Criada pela mãe Madalena, Isabela cresceu com a família materna em Maceió, Alagoas, sem saber qual a origem de seu pai. A única referência que tem dele é o relato de um abandono paterno, enfatizado constantemente pelo racismo da própria avó. No entanto, ao encontrar cartas escritas pelo pai que contradizem a narrativa sobre sua origem, a personagem inicia sua jornada de autodescoberta e mergulha em suas raízes e ancestralidade.
“A inspiração [para escrever o livro] veio da convivência próxima com pessoas negras retintas, que me permitiu testemunhar experiências profundamente impactantes”, conta Botelho, em entrevista à CNN.
“Ouvi relatos de microagressões diárias em ambientes familiares, histórias de resistência silenciosa, e narrativas de autodescoberta. Por exemplo, a forma como muitas pessoas precisaram desenvolver estratégias de sobrevivência emocional desde muito cedo, ou como aprenderam a navegar espaços predominantemente brancos, enquanto se retalhavam para encaixar, ou pior ainda, para não serem vistas”, completa.
Para a autora, o racismo dentro das famílias ainda é um tema pouco discutido, e o ambiente familiar, muitas vezes, normaliza o preconceito de formas sutis e diárias. “São pequenos comentários, piadas e atitudes que passam de geração em geração sem serem questionados. Confrontar esse racismo é especialmente desafiador porque mistura amor com dor, afeto com discriminação”, observa.
Esse é um dos motivos que a fez abordar o tema por meio da literatura. “Em vez de simplesmente dividir o mundo entre pessoas boas e vilãs, busco mostrar a complexidade dessas relações familiares. Acredito que, ao nos vermos refletidos nessas histórias, podemos começar conversas difíceis, mas necessárias, sobre como o racismo se manifesta em nossas próprias famílias, e ampliá-las de maneira mais natural e resolutiva ao coletivo”, afirma.
Veronica Botelho é licenciada em Psicologia Social e das Organizações pela Universidade de Florença, e atualmente cursa mestrado em Psicologia e Neurociência da Saúde Mental no King’s College London. É autora de “Inverno”. • Divulgação
Preconceito em famílias inter-raciais está longe de ser apenas ficção
O racismo no ambiente familiar inter-racial vai além da ficção e é uma realidade presente em muitas casas brasileiras. A psicóloga social Lia Vainer Schucman, especialista em estudos de branquitude, investiga o assunto no livro “Famílias inter-raciais, tensões entre cor e amor“. À CNN, ela explica que o preconceito nas famílias inter-raciais é uma forma do racismo estrutural.
“Se pensarmos que algo é estrutural, ele está em todas as relações e em todas as instituições. Então, no interior das famílias também há uma hierarquia desigual. Se pensarmos em classe, quem tem mais dinheiro na família é o que mais toma decisões. Se pensarmos em gênero, as mulheres acabam tendo mais trabalho doméstico por conta dessa hierarquia. O racismo também produz essas dinâmicas em famílias inter-raciais, de várias formas”, afirma.
Segundo Schucman, 33% das famílias brasileiras são inter-raciais e, em muitas dessas famílias, pode haver o reforço de estereótipos relacionados a pessoas negras. “Muitas das famílias que eu entrevistei falavam: ‘Meu marido é negro de alma branca, ele estudou bastante’ ou ‘meu filho é moreno claro, ele não é negro’”, conta. “Uma das dinâmicas mais presentes [praticadas por pessoas brancas em famílias inter-raciais] é negar a negritude do outro”, completa.
A psicóloga também explica que ainda há uma visão distorcida do que é racismo e uma dificuldade maior em compreender que o problema existe dentro do ambiente familiar.
“As pessoas aprenderam a entender que o racismo é aquilo que acontece nos Estados Unidos ou na África do Sul, quase como um apartheid [segregação]. Na verdade, o racismo é uma hierarquização de valores. As pessoas não conseguem enxergar que alisar o cabelo do filho negro é racismo, ou que colocar um pregador no nariz para afinar, como eu ouvi relatos, é racismo. Eles acham que racismo é segregação, e, como estão juntos, em família, eles não entendem o que é racismo”, observa Schucman.
Racismo em famílias inter-raciais pode trazer impactos para saúde mental
A família, constantemente, é enxergada como um ambiente seguro e de acolhimento, em que valores pessoais e aprendizados importantes são construídos desde o início da vida. No entanto, também pode ser um ambiente que cria traumas, principalmente em casos em que o racismo está inserido no cotidiano de formas sutis.
“É muito importante que se tenha um exemplo dentro da família, porque o que eu vi nas minhas entrevistas é que aquela família em que a questão racial estava bem resolvida, as crianças conseguiam estar mais fortes para enfrentar um caso de racismo fora do ambiente familiar”, aponta Schucman. “Já aquelas que viviam racismo dentro da família, quando recebia fora, aquilo coincidia, então a pessoa achava que ela era o problema, e não o racismo”, afirma.
A psicóloga cita um relato de seu livro em que uma jovem chorava toda noite por não entender porque nasceu diferente de sua mãe, no que diz respeito ao tom de sua pele. “O efeito foi tão grande que ela começou a odiar o próprio pai, que era negro. Então, para ela, era como se o pai tivesse passado o efeito de cor”, conta.
Afirmação da negritude é fundamental
Na obra “Inverno”, a personagem Isabel inicia uma jornada por suas raízes ao se aproximar do pai Renato e de sua tia Clotilde. Nesse processo, ela se muda para Aracaju, em Sergipe, e, posteriormente, para a Itália. A descoberta de sua negritude e ancestralidade.
“Sua descoberta da negritude reflete muito a realidade do Brasil. Costumamos nos orgulhar de ser um país multicultural, mas essa palavra esconde um problema: a coexistência nem sempre significa diálogo verdadeiro e troca entre diferentes visões de mundo”, afirma Botelho.
“É como uma roda de conversa onde todo mundo pode estar presente, mas só algumas pessoas têm o microfone e o controle do volume. Mesmo quando outras vozes conseguem o microfone, alguém ainda pode diminuir ou aumentar o volume delas. Isso seria multiculturalidade: diferentes culturas compartilhando um espaço, mas com o poder de fala e escuta ainda controlado por alguns. A pluriculturalidade seria quando o microfone circula e cada voz tem seu momento de falar e ser verdadeiramente ouvida”, completa. “A jornada de Isabel é sobre descobrir sua voz num mundo onde muita gente ainda não está pronta para passar o microfone adiante”, acrescenta.
A valorização da negritude e da cultura africana também são fatores importantes para o processo de autodescoberta e aproximação da ancestralidade para outras pessoas que vivem em famílias inter-raciais.
“Se estivéssemos em uma cultura em que o significado de ser negro fosse positivo, o racismo nunca estaria acontecendo. Porque a raça não existe como essência, ela é uma construção”, afirma Schucman.
Capa do livro “Inverno”, de Veronica Botelho • Divulgação
Título: “Inverno” Preço: R$ 50,90 Autor: Veronica Botelho Editora: e-Galáxia Ano da publicação: 2024
Muitas pessoas têm me perguntado como foi a minha primeira Flip. A primeira resposta que me veio à mente foi um post que publiquei quando estive na Índia, em 2018. Um momento em que tudo parecia sem cor, em que observar era a única alternativa para não desmoronar, e acreditar (ter fé) foi o que me permitiu continuar.
Mas essa história começou muito antes, em 2004, quando morava em Barcelona. Foi a primeira vez que ouvi falar de Paraty, e uma das vezes em que senti saudade de casa. Desde então, comecei a fantasiar com o dia em que estaria lá.
No final de 2020, voltei a morar no Brasil, e um dos primeiros lugares que decidi conhecer com Chris — meu companheiro e também o melhor crítico literário que conheço — foi Paraty. Foi lá, dentro de um barco à vela, que Cate, minha terceira filha, começou a existir. Cogitei ir à Flip em 2022 e 2023, mas algo me dizia para esperar. E esperei.
Esperei até esse ano e, quando saiu a programação, quis comprar ingressos para duas mesas: a com Lisa Ginzburg e a com Mohamed Mbour Sarr. Consegui apenas a primeira, que coincidia com o dia do meu aniversário — o mesmo dia em que lançaria meu segundo romance.
Antes da viagem, a sensação era de total euforia; sentia que algo muito bom estava para acontecer. As semanas em que eu e minhas três filhas pegamos coqueluche, os três dias no hospital, os choros solitários pela solidão, os receios, os medos… tudo parecia ter ido para a mais recôndita memória, mas as das mulheres — esquecer o que precisa para seguir adiante. Como se aprecia no livro de Mohamed. Foi com essa energia que cheguei na quarta-feira a Paraty. E levei minhas filhas junto. Para completar o estado de alegria, Chris chegaria no dia seguinte.
Depois de muitas tentativas, consegui conhecer pessoalmente uma amiga virtual – Rebecca. Ignorei como o cansaço de dirigir quatro horas e a fadiga das meninas, por ficarem tanto tempo no carro, poderiam permear o nosso encontro. O que ela presenciou e compartilhou foi o meu caos.
Às 18h, com o sorriso constrangido de quem vai à casa de alguém pela primeira vez, sem saber por onde ou como se mover, entrei na Casa Escreva, Garota!. O lugar que seria a minha morada por alguns dias. Agradeci por Rebecca ter intuído a situação, e ido junto comigo.
Escolhi mal meus horários e fiquei muitas horas quase sem conversar com ninguém. Não apenas não vendi nenhum livro, como as pessoas nem se interessavam por eles. Eu sabia o que tinha que fazer: levantar, oferecer meus livros, explicar, sorrir, mas não conseguia. Estava congelada. Vi nos olhos de uma das minhas filhas aquela expressão de quando deixamos de acreditar que nossa mãe é uma heroína e nos deparamos com a realidade de que ela é apenas uma pessoa fazendo o melhor que pode.
Naquela noite, quando cheguei em casa, li o texto da maravilhosa Jeovanna — uma pessoa que virou amiga graças à sincronicidade. Nele, ela chorava por não estar lá. E eu chorava por estar. A desconhecida cama fria, foi a minha companheira.
Na manhã seguinte, Chris chegou, finalmente as minhas lágrimas tinham um abraço onde se demorar. Passamos uma parte do dia juntos, até eu voltar para a Casa. Teria sido a mesma coisa se eu não tivesse conversado com a poeta Ana Júlia. Eu sempre me inclino diante de pessoas que emitem aquela luz presente na aurora boreal. Encontrá-la, foi mais um presente da sincronicidade. E foi sobre isso que falamos, mas com outras palavras. Como ela mesma expressou num post: “Paraty nos deu de presente a presença!… como a fatalidade da morte nos obriga a encarar a dor gelada do ‘dia da morte’, ela nos obriga a estar presente da maneira mais cruel.” E eu completo: graças a essa dor, aprendemos a importância de viver cada momento o melhor que podemos. Aprendemos o que realmente importa. Aprendemos a viver! Fui dormir com a energia renovada e abraçada.
Chegou a sexta-feira, com ela aquele sorriso que invade o meu rosto há 46 voltas ao sol, 50 primaveras, 50 verões, 50 outonos e 50 primaveras — minhas idas e vindas multiplicaram as estações. Com minhas filhas Cate e Camilla, e Chris, fomos ver a mesa da qual participaria Lisa Ginzburg, mediada por Adriana Ferreira, uma pessoa cujo trabalho admiro muito. Lisa, com sua serena eloquência e sabedoria, disse coisas que ressoavam em mim. Falou da força de se deixar guiar, da importância de estar presente, mas quando mencionou a sincronicidade, especificando que é um conceito de Carl Jung, da mesma maneira que eu faço e que todos que me conhecem sabem, tive a certeza de que o único lugar onde eu poderia estar era ali.
Na saída, encontrei e tirei uma foto com Adriana e sua irmã Vanessa. Compartilhamos sorrisos e abraços.
De repente, senti um vento frio que invadia a minha existência. Precisava escrever, só não tinha onde. Descobri que, na cidade que mais representa a literatura no nosso país, não existem muitos espaços onde é permitido sentar com um computador e escrever. Demorei quase 1 hora para encontrar um lugar. Sentei, escrevi, desaguei, me renovei.
Quando me senti aquecida, saí e esbarrei com Mariana Carrara na porta da Casa para Todos, onde voltei para comprar um livro, o dela. Na saída, ela continuava lá, e eu, com toda a minha timidez de estar invadindo o espaço de alguém, pedi um autógrafo e ofereci meu livro. Ela, com uma empatia que vi em poucas pessoas, percebeu que eu gostaria de uma foto, retirou o meu livro já guardado na bolsa e, com um sorriso sincero, pediu para sua amiga Camila tirar a foto. Fiquei sabendo que ela é a mesma Camila do livro que eu tinha nas mãos.
Senti a energia crescendo, e aproveitei para flanar – palavra que ouvi em diferentes momentos, dita por diferentes pessoas por Paraty.
Fui para casa, fiquei um pouco com minha família, incluindo Íris, mais uma amiga que a Itália me deu. Me preparei e fui encontrar Paula Jacob. Com as indicações de Ana Paula e Maria Carolina, o sucesso do nosso encontro já era garantido. Conversamos sobre muitas coisas e chegamos juntas ao evento. Com a energia nas alturas. Tudo parecia fluir: a conversa, o público atento, as intervenções, as vendas dos livros, os autógrafos… Senti a energia que Lella se esforça para colocar em palavras. Depois, com minha família, fomos comer uns petiscos. De repente, vejo Lisa Ginzburg passando em frente à nossa mesa e, sem pensar duas vezes, a chamei. Ela parou, me apresentei, apresentei minha filha Camilla, que queria conhecê-la. Um encontro breve, mas que não poderia ter sido mais intenso, como se já nos conhecêssemos. Para mim, já poderia voltar para casa. Sorri e agradeci mais uma vez à sincronicidade.
As meninas voltaram para casa com Aline e Chris, Íris e eu fomos atrás de boa música, ou melhor, do que queríamos escutar, porque se uma coisa Paraty tem, são bons músicos. Pegamos o finalzinho do concerto de jazz do projeto Atlântico Sul Music. Na entrada, encontrei Cris Sushi, pessoa com quem compartilhei o início da minha vida em Florença e um pedacinho em Barcelona.
Encerrei a noite dançando Blitz de Evandro Mesquita, Kid Abelha, Paralamas do Sucesso, Rita Lee… na casa que Íris comentou ser a balada dos jornalistas.
No dia seguinte, me dirigi mais uma vez à Casa Escreva, Garota!. Sorri, conversei, vendi alguns livros e comprei muitos outros. Conheci mulheres que compartilham o meu mesmo sonho — ser lida, multiplicar palavras, levar mensagens, continuar aprendendo. Pude encontrar Ana Júlia mais uma vez. Com as escritoras Mari e Patrícia, tive um daqueles papos literários que começam em pé e acabam sentados numa mesa de restaurante. Foram tantas trocas que, por mim, poderíamos marcar um aperitivo virtual semanalmente.
No domingo, fizemos um passeio de barco. Voltei à Ilha dos Cocos e do Algodão, e dessa vez acompanhada de minhas filhas.
Em Paraty finalizei a leitura de Como amar uma filha, da Hila Blum, e Fechar os Olhos, de Byung-Han, e comecei A Vegetariana,de Han Kang.
Todos os dias, Eduardo, descendente de italiano, espanhol e alemão, nos levava e trazia do centro. Conheci um pouco mais de Paraty pelos olhos dele e fui presenteada com duas mudas de ipê. E ele comprou meus livros para sua esposa. Conheci também Gustavo, 11 anos, aprendiz dedicado de marinheiro.
A casa onde nos hospedamos emanava a energia de que precisávamos, e acredito que fosse por causa da atenção e carinho com que Fabiolo, o responsável por ela, a cuida e recebe as pessoas.
Bruna garantiu fotos que em breve estarei postando. Conheci Tais, Vanessa, Monica e Sol pessoalmente. Acompanhei mais uma vez o trabalho incrível de Lella. Recebi o carinho de Manu, Milena e Natana. Provei a melhor comida Thai da minha vida. Conheci e vibrei com mulheres incríveis. Conheci as meninas da Com.Tato. Encontrei amigos virtuais. Revi amizades que nasceram em SP. Fiz amizades que sinto que durarão. Vendi muitos livros. Sorri a cada Meias Verdades, meu primeiro livro escrito em 2016.
Então, esta é a resposta — íntima, inveterada, flanada — sobre como foi a minha primeira Flip. O que levo da Flip é o deslumbre da primeira vez. Aquela mesma sensação de quando aprendemos a andar de bicicleta, a ler, a escrever. De quando pela primeira vez vemos a neve, uma plantação de girassóis, de tulipas. Do primeiro banho no Mediterrâneo, da primeira vez que vemos o Duomo de Florença… Levo as cores.
Agora entendo o texto de Jeovanna, com o qual muitas pessoas que conheço se identificaram. Por isso, espero que no próximo ano a gente se encontre por lá, ou quem sabe a gente se deslumbre juntas em outro lugar…
Ondas contínuas
Transbordam o sereno azul do mar
Enaltecem a beleza de cada momento
Misturam-se ondas de outros tempos
Presente, passado e futuro
Oxalá parasse, oxalá continuasse, oxalá…
Algo está mudando. Sinto como se uma frase que escutei de um ex muitos anos atrás (minha relação Lolita) finalmente começasse a se perder no tempo e nas sensações, deixando espaço para reencontros…
“Ler mulher é chato e entediante, porque mulher quando escreve sempre acaba falando dela, de outras, delas… Uma chatice única e auto-referencial.”
Desde que ouvi essa afirmação, mais de 15 anos se passaram. Já são mais de 15 anos evitando e escondendo minha própria voz, mais de 15 anos escrevendo e me esforçando para não escrever de maneira “entediante”, mais de 15 anos me esforçando para não escrever como o que sou: uma mulher negra.
É incrível como agora, neste exato momento em que escrevo essas palavras, me vem um sorriso nos lábios e o pensamento: Como pude deixar que alguém me calasse tão profundamente?
Para as pessoas negras, não sou negra o suficiente; para es brancas, sou muito negra; para os burgueses, sou muito socialista e anarquista; para os socialistas, sou muito burguesa e anarquista; para as pessoas europeias, sou brasileira e latina; para as brasileiras, europeizada; para as pessoas da minha idade, sou jovem demais; para os jovens de verdade, velha; para os acadêmicos, sou a massa; para a massa, sou intelectualizada demais […]
A única coisa com a qual todos concordam é que SOU UMA MULHER e foi justo na minha única certeza de existência que me permiti ser silenciada. Permiti que calassem a voz da única coisa que posso afirmar sem ser questionada, sem que meu interlocutor duvide minimamente. Mas até nisso fui calada. Fui calada com meu consentimento, fui bloqueada na minha essência, no meu ser, fui bloqueada no único lugar que sentia ser meu: a escrita.
O paradoxo disso tudo? A pessoa que me reconectou com a escrita, com a literatura, com a poesia… que me reconectou com uma parte de mim que estava adormecida pela necessidade de ser aceita; foi a mesma que me desconectou da minha essência, do meu ser mulher, o único porto seguro que eu conhecia.
Aprendemos com as experiências, as nossas, mas também as das pessoas que encontramos pelo caminho nessa viagem chamada vida e morte. Estamos numa contínua corda bamba, por isso aceitar os paradoxos da vida nos liberta. Reconhecer as poucas certezas nos traz serenidade.
Sou grata por ter compreendido aquela afirmação, mesmo que para isso tenha levado mais de 15 anos. Porque aprendi muito, me esforcei para escrever como homem, aprendi a sair de mim e hoje me reencontro. E reencontros têm um sabor diferente, ampliam a sensação do tempo e são também o resgate de épocas e momentos que pareciam perdidos. Levei mais de 15 anos para entender que me aceitar como sou é a única aceitação que realmente importa. Essa é uma das poucas coisas privadas de paradoxos. Uma das poucas certezas da vida. Onde tudo começa.
E hoje, aqui estou, me reapropriando da minha voz, aceitando quem sou, como sou, me reconhecendo e compartilhando tudo o que ficou entalado por tantos anos; tudo o que descobri e vou descobrindo, tudo o que vivi e vou vivendo. Refletindo sobre os infinitos paradoxos e as poucas certezas. Mudando e me reencontrando.