Mudanças e Reencontros

Por Veronica Botelho

Algo está mudando. Sinto como se uma frase que escutei de um ex muitos anos atrás (minha relação Lolita) finalmente começasse a se perder no tempo e nas sensações, deixando espaço para reencontros…

“Ler mulher é chato e entediante, porque mulher quando escreve sempre acaba falando dela, de outras, delas… Uma chatice única e auto-referencial.”

Desde que ouvi essa afirmação, mais de 15 anos se passaram. Já são mais de 15 anos evitando e escondendo minha própria voz, mais de 15 anos escrevendo e me esforçando para não escrever de maneira “entediante”, mais de 15 anos me esforçando para não escrever como o que sou: uma mulher negra.

É incrível como agora, neste exato momento em que escrevo essas palavras, me vem um sorriso nos lábios e o pensamento: Como pude deixar que alguém me calasse tão profundamente?

Para as pessoas negras, não sou negra o suficiente; para es brancas, sou muito negra; para os burgueses, sou muito socialista e anarquista; para os socialistas, sou muito burguesa e anarquista; para as pessoas europeias, sou brasileira e latina; para as brasileiras, europeizada; para as pessoas da minha idade, sou jovem demais; para os jovens de verdade, velha; para os acadêmicos, sou a massa; para a massa, sou intelectualizada demais […]

A única coisa com a qual todos concordam é que SOU UMA MULHER e foi justo na minha única certeza de existência que me permiti ser silenciada. Permiti que calassem a voz da única coisa que posso afirmar sem ser questionada, sem que meu interlocutor duvide minimamente. Mas até nisso fui calada. Fui calada com meu consentimento, fui bloqueada na minha essência, no meu ser, fui bloqueada no único lugar que sentia ser meu: a escrita.

O paradoxo disso tudo? A pessoa que me reconectou com a escrita, com a literatura, com a poesia… que me reconectou com uma parte de mim que estava adormecida pela necessidade de ser aceita; foi a mesma que me desconectou da minha essência, do meu ser mulher, o único porto seguro que eu conhecia.

Aprendemos com as experiências, as nossas, mas também as das pessoas que encontramos pelo caminho nessa viagem chamada vida e morte. Estamos numa contínua corda bamba, por isso aceitar os paradoxos da vida nos liberta. Reconhecer as poucas certezas nos traz serenidade.

Sou grata por ter compreendido aquela afirmação, mesmo que para isso tenha levado mais de 15 anos. Porque aprendi muito, me esforcei para escrever como homem, aprendi a sair de mim e hoje me reencontro. E reencontros têm um sabor diferente, ampliam a sensação do tempo e são também o resgate de épocas e momentos que pareciam perdidos. Levei mais de 15 anos para entender que me aceitar como sou é a única aceitação que realmente importa. Essa é uma das poucas coisas privadas de paradoxos. Uma das poucas certezas da vida. Onde tudo começa.

E hoje, aqui estou, me reapropriando da minha voz, aceitando quem sou, como sou, me reconhecendo e compartilhando tudo o que ficou entalado por tantos anos; tudo o que descobri e vou descobrindo, tudo o que vivi e vou vivendo. Refletindo sobre os infinitos paradoxos e as poucas certezas. Mudando e me reencontrando.

“Ser diferente não é um problema, é riqueza”, Emma Franchini

Livro: Wonder, R.J. Palacio
Redação: Emma Franchini

Desde o começo da minha escolarização, sempre amei ler. Lia qualquer livro que me atraísse ou me aconselhassem, não importava argumento ou se correspondia à minha idade. Ao fazer isso, ao longo dos anos eu li muitos livros, alguns mais interessantes, outros menos, mas apenas um realmente me deixou um ensinamento que carregarei sempre comigo, onde quer que eu vá e quem quer que eu encontre. Este livro é Wonder, de R.J. Palacio. Continue lendo ““Ser diferente não é um problema, é riqueza”, Emma Franchini”