Integração, Interação e Etnocentrismo: Uma Relação Sutil?

Por Veronica Botelho

Há alguns anos estudiosos da imigração iniciaram um debate a favor da utilização da palavra interação em vez de integração. É possível encontrar uma extensa documentação sobre esse assunto, que se tornou mais popular em diversas partes do mundo nos últimos anos.

Aqui na Itália, por exemplo, o filósofo Salvatore Natoli, professor de filosofia teórica na Universidade Bicocca de Milão, numa entrevista concedida em 2012 à Affari italiani, disse: “A integração é um conceito arriscado porque também significa assimilação, a interação é, em vez disso, um processo de intercâmbio gradual, mas as condições devem ser criadas para alcançá-lo”.

A primeira vez que ouvi a palavra interação social no lugar de integração foi uns três anos. Fui me apresentar, sem saber bem o que queria, a uma associação cultural que trabalha com formação linguística focada nos imigrantes, desde formação para professores, instituições e para interessados em geral.

Tinha acabado de começar a trabalhar no projeto de recolocação internacional People Interplay e me deparei com o site da Limo – Linguaggi in Movimento, que ainda não tinha muita informação, pois estava na sua fase inicial. Marquei um encontro e lá estavam três mulheres que transmitiam simpatia, curiosidade e amor pelo seu ofício. Comentei que tinha trabalhado em Barcelona (Catalunha), numa cooperativa social para a promoção da integração social e notei seus sorrisos tímidos, até que uma delas me interrompeu:

– Não estamos de acordo com o uso da palavra integração, pois, por meio do nosso trabalho, pretendemos contribuir para um modelo de integração diferente desse que é entendido como a adaptação do cidadão estrangeiro à sociedade de chegada, no sentido unidirecional; quando o que acreditamos é numa interação entendida como enriquecimento recíproco e bidirecional.

Sabe quando acreditamos numa ideia e nos damos de cara com uma outra que achamos bem mais interessante?! Pois foi exatamente o que aconteceu comigo e, como minha paixão por aprender é bem maior do que meu orgulho e amo quando alguém me faz pensar “fora da caixinha”, virei a casaca mesmo.

Trabalhei anos como voluntária para a “integração” de imigrantes na Catalunha, convivendo com pessoas com problemas de inclusão social e laboral e nunca tinha pensado na etimologia dessa palavra, tão utilizada.

Naquele instante, enquanto a escutava, também tinha um sorriso tímido. Agradeci sua explicação e expressei meu estupor por nunca ter pensado nisso. Elas também sorriram e seus sorrisos transmitiam satisfação, imagino que por ter ensinado mais uma pessoa sobre uma diferença aparentemente trivial, mas que está presente diariamente nas nossas vidas e de maneira tão significativa.

A partir daquele momento comecei a estudar tudo o que é inerente às duas palavras  e com a intenção de responder uma pergunta: Por que utilizamos integração no lugar de interação?

Se analisarmos a etimologia da palavra integração, esta deriva do latim “integrare – tornar inteiro, fazer um só, que vem de interger – inteiro, completo, correto”. Por integração social, segundo o Dicionário Aurélio, entendemos a “adaptação, incorporação de um indivíduo ou grupo externo numa comunidade, num meio”.

Analisemos agora a etimologia da palavra interação: deriva do latim “inter – entre e ação do latim agere – realizar, fazer”. Segundo o dicionário Aurélio, é a “1. Influência recíproca de dois ou mais elementos; 2. Fenômeno que permite a certo número de indivíduos constituir-se em grupo, e que consiste no fato de que o comportamento de cada indivíduo se torna estímulo para outro.”

Sem precisar ir muito longe, percebemos imediatamente como a palavra integração, utilizada dentro de um discurso de inclusão sociocultural, não é a mais adequada. Afinal, podemos falar que uma pessoa que chega numa nova realidade é incompleta? Está pela metade? É incorreta?

Ou seria mais apropriado falar de uma interação recíproca entre duas ou mais pessoas? Onde se dá e se recebe, sem nenhuma das partes se sentir mais “completa” do que a outra, mesmo que a intenção seja ajudar. Se considerarmos a etimologia e significado das duas palavras, teremos certeza de que não somos condicionados a nos sentir superiores ao que consideramos diverso?

E aqui entra a ligação com o etnocentrismo…

A palavra etnocentrismo deriva do grego “éthnos – raça, povo, centro + ismo – ideologia”. De acordo com o Dicionário Aurélio, etnocentrismo é “Visão ou forma de pensamento de quem crê na supremacia do seu grupo étnico ou da sua nacionalidade”. Dando uma explicação simples, uma pessoa etnocêntrica é aquela que considera que a sua cultura é o centro, ou seja, mais importante, a que dita as regras.

Será que estamos todes imunes ao etnocentrismo? Sinceramente, acredito que o sentimento que esse termo provoca pode ser comparado ao mesmo sentimento que a palavra racismo desperta. É difícil encontrar alguém que se reconheça como racista, mas infelizmente não podemos negar que ele – o racismo – é bem mais presente do que queremos aceitar.

Da mesma maneira, a palavra etnocentrismo provoca uma reação parecida (além da relação profunda com o próprio racismo). Afinal, quem admite se sentir superior ao próximo? Porém, quantas vezes escutamos alguém, ou nós mesmos, soltarmos frases tais como:

Minha cultura é superior!
Aquela cultura não é boa…
Eles são culturalmente atrasados…
Minha cultura é melhor!
Não confio nos nordestinos!
Carioca é malandro…

Bingo! Aqui está o etnocentrismo que praticamos diariamente e com a maior tranquilidade, porque crescemos condicionados pelo ambiente onde vivemos e sentir-se superior é uma tendência do ser humano, inclusive é um modo do nosso cérebro proteger a nossa identidade.

Agora que fizemos uma análise do significado de integração, interação e etnocentrismo, proponho uma reflexão:

Quando um estrangeiro chega a um país, a maioria das políticas utilizadas em prol da inclusão social se baseiam na palavra integração. (In)conscientemente, o país que acolhe considera o recém-chegado como alguém incompleto, alguém que precisa ser corrigido, ou seja, é uma ação unidirecional. E o fazem com a melhor das intenções, com a ideia de que está ajudando.

Eu ajudo os imigrantes a se integrarem (que vergonha sinto de mim mesma, falei isso por anos! rs)
Faço voluntariado para incentivar a integração social das classes menos favorecidas.
Trabalho com integração social de pessoas com problemas mentais… 

Essas afirmações, aparentemente inócuas, escondem como somos condicionados a nos sentirmos superiores aos demais, ao que consideramos diverso e, o pior, sempre achando que estamos contribuindo para melhorar uma situação.

E se considerássemos todos como iguais, cada um com sua bagagem cultural, suas experiências e ideias, e no lugar da palavra integração utilizássemos a palavra interação? A relação não seria mais equilibrada e justa? Sempre sob a perspectiva de dar e receber, de respeitarmos uns aos outros, tentando conhecer o diverso, encontrando os pontos de união e interação, encontrando as diferenças e respeitando-as. Cada ume se sentindo complete e se multiplicando na interação com e outro.

Poderia ser o início da neutralização do etnocentrismo presente na nossa consciência coletiva. Quem sabe, inclusive, um modo de neutralizar também o racismo, até que um dia ele desapareça, assim como o conceito de raça para se referir aos seres humanos está, aos poucos, desaparecendo.

O equilíbrio da comunicação é: eu dou e recebo, você dá e recebe. Desta forma, não há ninguém que se sinta superior.

A política social atual é fantasiada de “bonismo”, porque, na verdade, nesse contexto quem ajuda está incentivando uma dependência, a sensação de desconforto da pessoa que “precisa” da ajuda; sem contar que inconscientemente quem ajuda se sente superior, tocando naquela linha sutil entre altruísmo e egoísmo (tema para outra pauta, rs).

A longo prazo, a ajuda sai pela culatra, pois o ajudado se sente em dívida, dependente, inferior e incapaz de se ver como igual. Logo, falha-se em atingir o objetivo final, que é fazer com que a pessoa se sinta parte da sociedade, se adapte, se sinta em casa.

Adotando uma política que visa a interação, consideramos que a ajuda é mútua, evitamos esse dinamismo ao qual estamos tão acostumados e facilitamos um intercâmbio gradual.

Precisamos desconstruir significados usados há muito tempo e usar as palavras certas. Humanizar todos os seres humanos, reconhecer que podemos aprender uns com os outros e olhar-nos como o que somos: iguais, cada um com suas diferenças.

Crônicas da Veronica: “A vida é o que vemos dela”

Anna: Nossa, olhem esse casal que acabou de chegar… Um velho com uma moça tão novinha, que tristeza. Sem vergonha!
Julia: Você diz ele sem vergonha, né?! Porque ela, tadinha, deve precisar, e por isso aceita.
Carol: Imaginem quantos casos desse devem existir e daí, para o tráfico de mulheres, é só um passo… Que dó!

A conversa continuou o seu fluxo e entrou no campo sócio-político, bastaram alguns minutos e algumas cervejas, para resolver as desigualdades sociais do mundo.

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Marielle, presente no mundo.

Ilustração: Giulia Cavalcanti  Instagram @giulialovesmuffins

A execução de Marielle é um reflexo do que está acontecendo em vários lugares do mundo.

Quando decidimos morar fora do nosso país de origem, nem sempre pensamos no tempo que perderemos. No meu caso, no início era tudo descoberta. Vir morar no exterior no final dos anos 90 foi uma escolha, não uma necessidade. Passei vários anos tentando entender como funcionava as culturas com as quais começava a entrar em contato. Aprendi que eu, como jovem negra, era mais respeitada e aceita fora do meu próprio país. Aprendi, vendo na prática, que existia um respeito pelas pessoas, e naquela época a curiosidade pelas diferentes culturas na Europa era mais forte que os casos de “racismo” e xenofobia. Aprendi a lutar junto com amigas catalães, pelos direitos humanos, pelo direito a se ter uma voz, comecei a me interessar mais pela política, a entender a importância da implicação dos jovens na mesma. No Brasil vivia numa situação privilegiada e fora da realidade da maioria, mas só percebi a incoerência e injustiça existente, quando comecei a viajar. Foi na Catalunha que aprendi a importância de lutarmos juntos por nossos ideais, por nossos direitos. Foi lá que aprendi a importância de não nos calar!
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