Crônicas da Veronica: “A vida é o que vemos dela”

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Anna: Nossa, olhem esse casal que acabou de chegar… Um velho com uma moça tão novinha, que tristeza. Sem vergonha!
Julia: Você diz ele sem vergonha, né?! Porque ela, tadinha, deve precisar, e por isso aceita.
Carol: Imaginem quantos casos desse devem existir e daí, para o tráfico de mulheres, é só um passo… Que dó!

A conversa continuou o seu fluxo e entrou no campo sócio-político, bastaram alguns minutos e algumas cervejas, para resolver as desigualdades sociais do mundo.


Elisa observou em silêncio a conversa, participando e, ao mesmo tempo, desconstruindo a sua percepção. Pois bastaram poucos segundos, para ela perceber uma situação completamente diferente. O “velho”, para Elisa, uma das mais “velhas” da mesa, era um homem de uns 50 anos, com a pele curtida do sol, característica que ela reconheceu como similar a de um grande amigo seu, capitão de barco à vela. A acompanhante dele parecia um pouco mais nova, sua pele negra conservava um brilho como poucas. Em comum, os dois tinham uma intensidade no olhar. Essa mulher observava a conversa à distância, com uma mistura de resignação e tristeza, beirando à raiva. Será que ela estava entendendo o que falavam?

Essa cena acontecia na hora do almoço, no hotel que ficaram em Zinguichor, capital de Casamance, região do Senegal que faz fronteira com a Gambia e é a segunda maior cidade do país, às margens do rio Casamance, onde se viam barcos de pescadores e um barco à vela de 13 metros.

O casal já havia percebido os olhares e comentários.

Ndeye: Veja como essas moças estão nos olhando… Sempre as mesmas histórias, estereótipos, olhar de pena…
Pierre: Turistas de passagem, veem o que querem ver… Ignora!
Ndeye: Você tem razão, mas é triste porque ignorar nos separa ainda mais…

Mais tarde, a cena se repetiu durante o jantar, com comentários dos que não tinham participado da conversa anterior.

Na manhã seguinte, Elisa desce antes. Queria fazer uma ligação, pois era o aniversário da sua filha mais nova e, pela primeira vez, ela não estaria presente e isso a machucava profundamente. Ela vive os aniversários como rituais sagrados, comemorar a vida de cada um de nós é a sua forma de agradecer por existir.

A ligação foi à base de lágrimas, que sufocavam um tímido “parabéns pra você” cantado. Quando Elisa desligou, deixou as lágrimas invadirem seu rosto e, sem se dar conta, aquela mulher, que ela viu no dia anterior, lhe oferecia um lenço de papel, transmitindo uma serenidade sem igual. Sua beleza e seu sorriso eram contagiantes, já não parecia a mesma, dessa vez seu olhar transmitia vida…

Com seu francês improvisado, Elisa explicou que era o aniversário de quatro anos da sua filha mais nova e que ela estava no Senegal para o casamento de uma amiga muito especial, daquele tipo de amizade que vira família. Essa amiga esteve presente em situações de grandes dores e imensas alegrias, e ela tinha que estar presente nesse momento de tamanha felicidade da sua amiga… Elisa teve que escolher entre dois caminhos e qualquer escolha trazia dor e felicidade.

Elas conversaram, se apresentaram. Ndeye contou que eles moram em Paris, mas que todos os anos eles pegam o barco e passam uns três meses entre viagens e visitas à família dela e fazem isso há 20 anos. Que são casados há mais de 20 anos e têm duas filhas.

Ndeye e Pierre começaram a aconselhar passeios de barco pela região de Casamance. Ele falou com olhos emocionados sobre uma ilha onde as pessoas vivem no passado, são gentis, atenciosas e felizes. Falou para Elisa ir e que indicasse que os conhecia.

Pierre explicou que os pescadores, que viam no rio na frente do hotel, tinham voltado de uma noite de pesca em Gambia. Ele viu a câmera fotográfica da Elisa e  acrescentou que não gostam muito que tirem fotos deles, porque se sentem como animais num circo, mas que, se ela perguntasse antes, aceitariam.

Ndeye, Pierre e Elisa conversaram por quase uma hora, até que começaram a descer os integrantes do “grupo” de Elisa. Então, Ndeye e Pierre, sem dar tempo para Elisa os apresentar aos amigos, levantaram, se despediram dela e saíram caminhando de mãos dadas, com sorrisos tímidos no rosto.

Elisa: Bom dia!
Carol: Conseguiu falar com Gaia?
Elisa: Consegui, chorei como um rio, mas ela estava tão feliz porque deixei um presente e um bilhetinho pra ela, que consegui conter as lágrimas… pelo menos, enquanto conversávamos (risos).
Anna: Que lindinha!!! Que bom que você conseguiu acordar cedo pra falar com ela, antes de ela ir para a escola.
Elisa: E, quando terminei a ligação, chegou Ndeye, aquela mulher negra que estava aqui com o seu marido. Ela me ofereceu um lencinho. Imaginem como estava chorando (risos). Acabamos conversando mais. Eles moram em Paris e todos os anos vêm de barco visitar a família dela e navegam pela região. Têm dois filhos e me aconselharam lugares para visitar. Conversa boa e, no fim das contas, não era nada do que foi comentado em nossa mesa. Ela é que parece mais nova mesmo.
Julia: Ai que bom, que alívio…
Anna: E mais que o caso seja esse, a tristeza é que existem muito mais do que comentamos…

E a conversa continuou no fluxo do outro dia, Elisa, que observava em silêncio, escutava os comentários, mas dessa vez não falavam especificamente daquele casal, mas em geral…

Alguns minutos de conversa e suco de baobab, tinham encontrado a solução para o tráfico de mulheres e prostituição infantil…

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