As estações brincando com a percepção

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Por Veronica Botelho

Aqui, na Toscana, foi necessário quase um mês para que as flores começassem a desabrochar, para o verde colorir nossos dias, para o sol acordar mais cedo e ir dormir mais tarde… um mês para a primavera chegar com todo o seu esplendor. Chegou tórrida, com sabor de verão, o que levou um mês, agora, parece um segundo… O verão começou a bater na porta, quase ao mesmo tempo que as flores começaram a desabrochar.  A primavera e o verão brincando com a nossa percepção de tempo.

Na Índia, é verão, no Brasil, inverno…

Sem sair de casa, podemos sentir uma primavera com gostinho de inverno e/ou de verão, podemos multiplicar nossa percepção do tempo, interagindo com pessoas que estão vivendo outras estações, outros mundos, outros pontos de vista. Sei que no Brasil o inverno chegou com gostinho de chimarrão; na Índia, o verão tem sabor de manga; no Japão, a primavera começou a dar o seu ar da graça e demorou quase um mês para florescer de norte a sul, com seu gostinho de “sakura” – flor de cereja.

As estações nos ensinam que cada momento tem seu tempo, e que o tempo não pode ser controlado. Acompanhar o tempo, através das estações, é um exercício para a nossa paciência.  A paciência é mais uma irmã do tempo. O calendário pode determinar o início das estações, mas a nossa percepção vem chacoalhada, multiplicada a cada mudança de estação, a cada pessoa com a qual conversamos, que está vivendo em outro tempo. Sentir alguém que está longe fisicamente, através das estações, nos permite interagir, utilizando sensações que conhecemos, nos permite imaginar o que a outra pessoa está sentindo, nos permite multiplicar o nosso sentir.

Uma pessoa maravilhosa, que tive o prazer de conhecer recentemente, é da Índia. Quando trocamos e-mails, ela sempre escreve uma metáfora sobre a estação que está vivendo. Percebi que um amigo do Japão faz o mesmo. As suas frases me fazem senti-los mais próximos e saboreio minha primavera com mais intensidade. Interagir com pessoas de culturas diferentes, que estão vivendo outros tempos, multiplica nossa percepção.

Viver é dinamismo. O universo continuamente nos lembra disso. Reconhecer que somos filhos desse universo, interagir com o todo, com o planeta, de maneira dinâmica, nos coloca em sintonia com a energia vital do universo, nos coloca em sintonia com a vida. A interação cultural é um dos presentes que nos dá o universo, para entrar em sintonia com as energias que nos rodeiam, ocasionando um aumento da sincronicidade.

Sincronicidade é um conceito desenvolvido por Carl G. Jung, que faz referência a acontecimentos que se relacionam por significado e não por casualidade.  Exemplos: pensar numa pessoa e pouco tempo depois encontrá-la ou ela te ligar;  sonhos que depois se realizam e/ou aparecem em forma de déjà-vu num futuro imediato ou não. Outro dia uma amiga minha me contou que assistiu o show de um cantor no YouTuve, que foi gravado em 2016, e, quando estava acabando, ela recebeu um vídeo de uma amiga, com um pedacinho desse mesmo show que ela estava assistindo no YouTuve. Outra situação aconteceu comigo. Eu, voltando de uma viagem na França, passo numa banca de livros de uma cidadezinha, com pouco mais de 5 mil habitantes, e encontro o livro sobre um escritor, que não estava encontrando onde moro, e descubro que ele era dessa cidade. Exemplos de coincidência, casualidade ou de sincronicidade?

Segundo Jung, o insight também se trata de um fenômeno sincronístico, entendido como uma compreensão instantânea. Neurocientistas consideram diferente, que o insight é decorrência do acúmulo de inputs do passado que foram moldando a nossa percepção. Não poderíamos dizer que multiplicando nossa percepção, não estaríamos multiplicando a probabilidade de que aconteçam eventos sincronísticos, ou seja, aumentando a probabilidade de insights da criatividade?

Ultimamente, estou observando e anotando, quando as pessoas me comentam sobre acontecimentos desse tipo, ou que  acontecem diretamente comigo. Uma das características, em comum que notei, é que quanto mais aumentamos a interação com outras realidades, mais ampliamos a observação sincera do mundo, mais apreciamos o viver hic et nunc, aqui e agora, multiplicamos o nosso sentir. Entramos em sintonia com o universo, aprendendo a respeitar cada diferença, apreciar cada qualidade, nos sentindo mais próximos, permitindo a existência de mais significados que acabam se relacionando porque se multiplicam. Interagir com o próximo segue o fluxo do dinamismo da vida, segue um multiplicar de tempos, nos ensina a ter paciência, nos permite chacoalhar nosso status quo, multiplica nossa percepção.

Que tal seguir o exemplo dos meus amigos da Índia e do Japão e interagir com outras culturas através das estações? No lugar de reclamar do calor do verão, do frio do inverno, da alergia da primavera, do cinza do outono, por que não começar a sentir o silêncio da neve, o florescer da primavera, as cores do outono, o cheiro de fruta do verão, de cada lugar que estiver em contato?  Interagir positivamente com um contexto é encontrar o que nos une, é sentir junto, dando o melhor de cada um de nós. Para aprender  com as diferenças, temos que encontrar as semelhanças, nossas pontes… começo a acreditar que a sincronicidade seja uma delas.

Obrigada, universo!

Obs.: Me contem, comentando o post ou enviando por e-mail veronica@veronicabotelho.com, seus exemplos de sincronicidade. Será que é realmente um presente do universo?

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