O mundo secreto das pessoas altamente sensíveis

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Por Veronica Botelho

Nos últimos anos, termos como transtorno bipolar, esquizofrenia, depressão crônica e borderline ganharam um estranho protagonismo: apesar de serem doenças que deveriam ser tratadas com o maior respeito, máxima cautela, que precisam de diagnóstico por parte de um professional, elas viraram chacota, conversas de bar. Entraram no inconsciente coletivo como doenças das quais se envergonhar, “doenças de gente fraca”.

De um lado, algumas pessoas que sofrem com esses transtornos muitas vezes acabam se fechando ainda mais, não procuram ajuda, e a cada vez que escutam uma piada, sentem que uma parte de si morre, começam a acreditar que não tem solução, se sentem fora de lugar. De outro lado, estão as que resolvem encarar de frente o problema e procuram um médico, acabando “super medicamentadas”, o que as faz sentir melhores por um tempo, mas a longo prazo percebem que os remédios já não fazem mais efeitos.

O sentir se transforma numa espécie de apatia, nada as deixa muito tristes, como nada as deixa muitos felizes. O dia a dia vai passando na maior tranquilidade, uma tranquilidade a base de Lexotan, Lorazepam, Rivotril… até que um dia parece que os remédios não fazem mais efeito, o médico resolve aumentar a dose. Então quando menos esperam estão tomando remédio para viver, com a esperança de recuperar o sentir.

O que muitas pessoas não sabem é que também existe um traço presente em aproximadamente 20% da população mundial*, ou seja, a cada 5 pessoas, uma apresentará: a alta sensibilidade.

Faz mais ou menos 1 ano que descobri essa característica e desde então aos poucos fui fazendo paz comigo mesma e entendendo sempre mais minhas filhas.

Durante minha infância e adolescência, sempre escutei que eu era sensível demais, que chorava por tudo, que me emocionava com tudo… a primeira vez que lembro de ter chorado muito com um filme foi com ET, depois veio Uma Janela para o Céu, E o Vento Levou, Titanic… bom, minha lista de choros com filmes é enorme. Parecia uma condição para que eu assistisse o filme: quanto mais me fizesse chorar, melhor… e aquilo também era meu refúgio preferido.

Antes não entendia porque as pessoas me explicavam coisas íntimas, me pediam conselhos, opiniões, e isso desde pequena, e agora começo a entender que é porque eu realmente sinto o que elas estão sentindo, quando escuto o relato de alguém – eu consigo sentir junto.

Tenho sérios problemas para criticar e julgar as pessoas, acabo sempre encontrando uma maneira de justificar a ação. Quando alguém comete um ato de violência, penso na história dessa pessoa para que a tenha levado a isso, quando vejo alguém que comete um ato de amor, humanidade, também penso na história que tem por detrás desse ato e de quem o fez. A diferença que percebi nos anos é a de que pessoas que cometem um ato de violência, e as que cometem um ato de amor, têm uma coisa em comum: muita dor.

No mundo há mais amor que ódio, e falo de todo tipo de ódio – aliás, é justamente por isso que ainda existem guerras, violência e doenças. Veja o que o amor pelo dinheiro faz com uma pessoa, o que o amor cego por uma religião chega a provocar, quanta dor, quanto ódio… o ódio é um amor que virou ódio, ou um amor que não soube ser vivido, porque não se entendeu.

Dizem que as pessoas altamente sensíveis correspondem a 20% da população*. Sim, somos muitos.

E quantas pessoas como eu, existem hoje por aí sem entender o que tem, achando que rótulos como depressão, transtorno bipolar e tantos outros, fazem parte delas, quando na verdade se trata de alta sensibilidade, que é um traço caracterial. E sabe quando foi que a ficha caiu para mim?

Quando assisti o filme “Sensitive – The untold story” e chorei, chorei muito, chorei anos, rios, lagos. Era um choro de felicidade, uma explicação que sentia muito minha, das minhas filhas, do meu entorno, era a resposta que esperei por anos,  a descrição exata de como me sentia quando era criança e como me sinto hoje. Nele Alanis Morissetti faz um depoimento profundo, tocante, impactante.

Hoje aceito e abraço essa minha característica, respeito e defendo-a, além de me proteger e defender o meu espaço interno. Antes me sentia estranha se comparada às pessoas ao meu entorno, sempre essa sensação de “ver” tudo, observar tudo… sentir tudo. Me obriguei muitas vezes a sair, minha mãe falava que não era normal eu ficar sempre fechada em casa, lendo, assistindo filme… quando não saia, ela mesma fazia festas.

Como eu cozinhava, tinha também minha maneira de conseguir ficar sozinha em alguns momentos quando a casa estava cheia, e até hoje prefiro receber, estar servindo, dando atenção, do que sentada absorvendo todas informações em maneira passiva.

Agora entendo porque chorei na primeira vez que vi a imagem do quadro de Klimt, “The Kiss”. Chorei quando vi o Duomo de Florença, quando vi a exposição inédita de Frida Khalo. Agora entendo porque tenho bom olho e ouvido para a arte. Principalmente agora posso acompanhar minhas filhas nesse percurso, guiá-las, abraçá-las e senti-las de verdade. Porque o que sinto desde que descobri essa característica, é que ela aumenta com o tempo e que é como um dom, e como todo dom temos o dever de compartilhar com o mundo, multiplicando amor.

*Cada vez que cito um dado estatístico, gosto de esclarecer que as pesquisas que estudamos no Ocidente estão baseadas em menos de 20% da população mundial, e são feitas no Ocidente. Importante ter em consideração essa informação. E inclusive para quem gosta de pesquisar, ou tem curiosidade pelo tema, aconselho pesquisá-lo nos diferentes continentes – é uma experiência incrível e maravilhosa de aprendizagem.

Você é altamente sensível? Ou tem um amigo ou amiga, um filho, uma filha ou uma irmã, irmão, pai, mãe que é? Já conhecia a alta sensibilidade? Se não, o que você sentiu ao ler esse post? Amaria ler teus conselhos, experiências, perguntas e respostas!

Complementando o artigo, segue link com tradução livre da página da Dra. Elaine Aron, especialista no assunto, para que você possa ler diretamente da fonte e ainda faça um teste: Você é altamente sensível?  

*Esse é um post de opinião e não pretende substituir, quanto menos reduzir a importância dos psiquiatras e psicólogos, sendo eu mesma da área de psicologia. É um relato em que trago mais informações para evitar, sempre que possível, o uso de medicamentos Scielosp.

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