Acredito que uma das funções de quem escreve é devolver às palavras os seus significados originais. Caso não seja possível, pelo menos tentar dar uma explicação, abrir um diálogo sobre o porquê uma palavra se perdeu pelo caminho, ganhando outra conotação, mudando sentidos, significados, mas, principalmente, tentar prestar atenção em como a sentimos. Uma palavra que escutamos diariamente, principalmente aqui na Europa e que está nos focos de cada noticiário, é a “refugiado”.
A origem da palavra vem do latim “refugium”: lugar protegido e seguro ao que se retira, quando está fugindo. Infelizmente, aqui na Europa, xs refugiadxs não encontram necessariamente um lugar protegido, pelo contrário, encontram hostilidade. Muitos governos fazem a população acreditar que hospedar refugiados seja a causa de todos os problemas na economia, na educação, na saúde e na segurança, por exemplo. A imprensa incentiva essa crença e eles são ainda mais emarginados pela maior parte da população local.
MEU ENCONTRO COM REFUGIADOS
Quando vim morar na Europa, me deparei pela primeira vez com o conceito de refugiado. Escutar as histórias de pessoas que tiveram que fugir dos seus países, após terem presenciado guerra, destruição, assassinatos de familiares, amigos… mexeu muito comigo. Impossível ficar passiva. Então, resolvi ser voluntária no apoio a esses grupos, quando morei na Catalunha. Comecei a me interessar pela história de cada um, mesmo sabendo que nada poderia mudar do passado, mas, pelo menos, poderia contribuir escutando e guiando essas pessoas para que a interação com a Catalunha fosse a mais amena possível, talvez a mais próxima do sonho que estavam buscando.
Uma das primeiras famílias com a qual tive contato era da Libéria. Ser aceita nesse lar foi difícil, mas o filho mais velho estava tendo problemas na escola e a assistente social não conseguia se comunicar com eles. Depois de tudo que viveram no seu país, não simpatizavam com os brancos, a quem culpavam por toda a desgraça sofrida. Graças ao cinema nigeriano, que conheci por meio deles e se tornou assunto das nossas conversas, a comida, o inglês, meu país de origem, aos poucos fui interagindo com eles. Descobri que eles chegaram pelo sul da Espanha e por meses acreditaram estar no Brasil, mais precisamente na Bahia, pois, quando pagaram a pessoa para tirá-los de lá, foi o único pedido que fizeram: queriam ir para o Brasil, porque tinham crescido escutando histórias dos seus antepassados que imigraram para lá e eles acreditavam que se sentiriam em casa. Confessaram que, quando descobriram que estavam na Espanha, choraram e se sentiram ainda mais perdidos, porque eles tinham escutado histórias horríveis sobre como “os brancos” tratavam “os negros” na Europa.
Descobri que os problemas do filho na escola eram porque ele tinha desenhado imagens violentas, com muito sangue e tumulto de pessoas, e conversando com seus pais, sua mãe, entre lágrimas, me explicou que o filho tinha visto os avôs, tios e primos serem assassinados. Eles eram os únicos sobreviventes de toda a família. Chorei com eles… A verdade é que descobri que o sonho que buscam é a possibilidade de viver, se sentem satisfeitos e agradecidos pela vida. Acabam aceitando a realidade: o que deveria ser um refúgio e propiciar segurança e proteção era uma utopia, o que encontram é poder continuar vivendo, o “como” já não importa.
REFUGIADOS NO MUNDO
Os países que recebem o maior número de refugiados no mundo são Turquia, Paquistão, Líbano, Irã e Etiópia, demonstrando que, como sempre, os que menos dispõem de recursos continuam sendo os que mais ajudam. Quando se mora na Europa, nos damos conta que muitas vezes os europeus esquecem que o mundo não é só Europa e os Estados Unidos. Aliás, bem pelo contrário, os países ocidentais representam a menor parte da população mundial. O Brasil, apesar do seu vasto território, por causa do seu posicionamento geográfico, acaba não sendo uma das metas principais para os refugiados, mas pelo o que pude comprovar não porque não queiram, mas porque os barcos prometem uma coisa e os levam para as metas mais próximas – Itália e Espanha. Nos últimos anos, os pedidos de asilo político no Brasil não superaram o total de aproximadamente 35 mil, provenientes de vários países, enquanto Líbano e Jordânia juntos, por exemplo, receberam cerca de 9 milhões de refugiados da Síria.
Acabo sendo prolixa e repetindo a mesma coisa, mas enquanto as guerras existirem, enquanto pessoas forem privadas do poder existir, continuarei afirmando: a solução depende da nossa união como um todo. Fazemos parte do mesmo planeta. Juntando nossas forças, podemos encontrar soluções, apreciando e aprendendo com a diversidade, descobrindo o que nos une como seres humanos… e, quem sabe, num futuro não muito distante, a palavra “refugiado” não precise existir ou seja atribuída a quem quiser um refúgio para pensar e meditar, para se encontrar. Um lugar de paz e seguro ao qual vamos, não por fuga, mas, sim, por querermos encontrar novos horizontes, novos sonhos.
Sozinhos somos sempre minoria, juntos formamos um todo!
MULTIPERCEPÇÃO CULTURAL
A união entre os povos é possível e começa desde o ato mais simples: a comunicação entre as pessoas. Acredito e aplico isso no meu trabalho, como counselor cultural. Atuo como um guia da interação entre as culturas, desenvolvendo a comunicação positiva, com empatia e respeito pelo diverso. O meu Programa de Pesquisa e Desenvolvimento Multipercepção Cultural propõe a desconstrução de barreiras limitantes, como preconceitos e pré-julgamentos, para a construção de uma nova forma de se comunicar.
Influencio pessoas das mais diferentes formas. Cursos, palestras, workshops, atendimento individual e corporativo, bem como ações beneficentes.
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