Imagem: Giulia Cavalcanti Instagram @giulialovesmuffins
Quando penso no conceito de multiculturalismo, automaticamente penso num lugar onde diferentes culturas convivem pacificamente, respeitando umas as outras e interagindo entre elas. Penso numa sociedade onde não se julga a cor da pele, a classe social, o gênero, a proveniência familiar. E não, não penso no meu país de origem – Brasil.
Quando falo do meu país, me vem em mente uma sociedade com várias realidades culturais. Mas para mim, “multi” seria multiplicar, e o Brasil onde vivi, não conseguiu se multiplicar, pelo menos não ainda. “Em vez de multiplicar, se divide. Divide-se em classes sociais bem distintas; divide-se territorialmente por regiões, como também entre territórios de negros e de brancos; favelas e asfaltos; Norte e Sul…” Edilberto C, professor e poeta potiguar.
As minorias culturais conseguiram sobreviver dentro de uma invisibilidade, consequência de um passado de colônia, mas principalmente consequência de continuar sombra de um passado, que como sabemos não pode ser mudado. Esse passado pode ser assimilado, aceitado, para poder transformar o futuro, através de ações “aqui e agora”.
Como falar de multiculturalismo no Brasil, sem explicar como foi o processo do seu povoamento? Quando os europeus chegaram no Brasil, encontram os índios, e ocorreu o que se chama de “cunhadismo”. Os índios concediam índias aos europeus, como demonstração de afeto e senso de família. Dessas uniões nasciam os “mamelucos”. Em contrapartida, os europeus, através do “cunhadismo”, obtinham mão de obra, e os índios também viam os europeus como aliados contra os seus inimigos.
Com a necessidade de sempre mais mão de obra, e copiando práticas das tribos que escravizavam os seus adversários, os índios começaram a ser escravizados pelos europeus, apesar da luta dos jesuítas contra a sua prática, pois esses os catequizavam, ensinavam a sua cultura, anulando e condicionando as suas culturas originais. Como consequência houve praticamente uma extinção dos índios, com as guerras e doenças trazidas da Europa, por exemplo.
Sendo a história de um país complexa, salto diretamente à chegada dos escravos africanos. Provenientes de diferentes etnias do continente africano, eram separados e colocados para conviver entre eles, em regiões diversas, o que dificultava a comunicação entre si. Os africanos não eram considerados pessoas. Representavam mão de obra eficaz, e o dinheiro gerado do tráfico negreiro era uma das principais fontes de ganho da época.
Das relações entre os africanos e europeus, começaram a nascer os “mulatos”, palavra derivada de mula, que já em si demonstra sua conotação negativa. E que continuamos utilizando até hoje, ignorando a importância da sua origem etimológica, para condicionamento do nosso imaginário coletivo, mas esse seria outro argumento que precisaria de horas de reflexão. O que antropólogos afirmam é que sejam os mamelucos, sejam os “mulatos”, nasceram numa condição de não-aceitação em nenhuma das culturas presentes. Não eram índios, nem negros, nem europeus. E essa é a origem do “multiculturalismo” no Brasil: pessoas aculturadas e desterritorializadas. E assim, nós brasileiros, fomos nos formando como povo, assimilando a cultura europeia imposta. Das culturas indígenas e africanas existem poucos registros, condicionados pela ideia da supremacia branca, que prevaleceu por muitos anos e que levará muitos anos para ser extinta completamente.
Nosso “multiculturalismo” é aparente. Na verdade, nós brasileiros, para sermos aceitos como tais dentro do nosso próprio país, passamos nossas vidas tentando nos “esbranquiçar”, nos formar, sem um suporte educativo, lutando contra os preconceitos, nos adaptando às exigências dos mais brancos, do capitalismo, porque o que existe no Brasil é um preconceito com a cor, com a classe social, com a região de proveniência, com o gênero, preconceito contra tudo que é “diverso”, de um padrão considerado “normal”.
Como falar de “raças” num país que foi constituído por mestiços? Hoje um dos argumentos mais discutidos é o racismo! Paradoxal, verdade? Por anos sofremos a falta de representatividade positiva das etnias discriminadas na televisão, nas propagandas, no governo, nas instituições acadêmicas. Sofremos com a apoderação cultural dos poucos resquícios restantes das culturas indígenas e africanas. Durante anos e anos, o Brasil “vendeu” ao resto do mundo, a ideia de um país multicultural, mas foi em 1995 que, pela primeira vez, um Presidente (Fernando Henrique Cardoso) reconheceu publicamente o racismo e a desigualdade racial, embora não de forma oficial.
Em 2003, o Governo Federal reconheceu oficialmente essa realidade e criou a Secretaria de Politicas Públicas de Promoção da Igualdade Racial, posteriormente incorporada ao Ministério das Mulheres, da igualdade Racial e dos Direitos Humanos, no Governo Dilma. Esse Ministério foi desfeito com a ascensão de Temer ao poder. Em 2014, após denúncias de racismo, a Organização das Nações Unidas (ONU)apresentou um relatório – “As Nações Unidas concluem que o país vive um “mito de democracia racial” e que há “racismo institucionalizado” e uma “ideologia de embranquecimento” na sociedade brasileira.”
Fonte http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2014/09/140911_eleicoes2014_onu_racismo_rs
Um artigo da constituição Brasileira, expressa claramente essa dicotomia entre a realidade vivida no Brasil, e a democracia racial exportada ao resto do mundo, pois a própria faz uma distinção entre o que deveria ser um único povo:
Art. 215. O Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais.
- 1o – O Estado protegerá as manifestações das culturas populares, indígenas e afro-brasileiras, e das de outros grupos participantes do processo civilizatório nacional. § 2o – A lei disporá sobre a nação de datas comemorativas de alta significação para os diferentes segmentos étnicos nacionais.
- 3o – A lei estabelecerá o Plano Nacional de Cultura, de duração plurianual, visando ao desenvolvimento cultural do País e à integração das ações do poder público que conduzem à: (I) defesa e valorização do patrimônio cultural brasileiro; (II) produção, promoção e difusão de bens culturais; (III) formação de pessoal qualificado para a gestão da cultura em suas múltiplas dimensões;
(IV) democratização do acesso aos bens de cultura; (V) valorização da diversidade étnica e regional.
(Incluído pela Emenda Constitucional no 48, de 2005).
Art. 216. Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, nos quais se incluem: I – as formas de expressão; II – os modos de criar, fazer e viver; III – as criações científicas, artísticas e tecnológicas; IV – as obras, objetos, documentos, edificações e demais espaços destinados às manifestações artístico-culturais; V – os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e científico.
Com o governo de Lula, em 2003, foi aprovada a lei 10.639/03 de ensinar Cultura Africana e Indígena nas escolas, pelo menos o que se conhece, mas principalmente a importância que tiveram na construção do Brasil; e o programa de cotas para as universidades. A lei de cotas foi, e ainda é, muito criticada, mas hoje, após quase 15 anos da sua criação, o Brasil começa a se encaminhar para a ideia, pelo menos a ideia que tenho, de um país multicultural.
Porém, é “importante salientar que a política das cotas abriu um debate agressivo e discriminante revelando muitas vezes a face mais perversa do racismo à brasileira. A lei criou uma comoção nacional e deu início a um debate agressivo entre defensores e contrários. Esta divergência se intensificou e se estendeu até o momento político atual com o processo de impeachment da presidenta Dilma. Um dos grandes porta-vozes desse debate contrário às cotas, que chega a hostilizar os negros, é o parlamentar Jair Bolsonaro, representa de uma extrema direita evangélica, cujo discurso é replicado pelo movimento MBL, responsável pela convocação das massas à rua para depor a presidenta.” Edilberto C.
Pela primeira vez na nossa história, temos movimentos afro-brasileiros, movimentos constituídos e encabeçados por intelectuais acadêmicos, negros, índios, membros da comunidade LGBT. As crianças começam a conhecer a nossa história desde um ponto de vista menos etnocêntrico europeu. Começamos a ver representantes de todas as culturas presentes no território brasileiro na televisão, nas mídias sociais, nas propagandas. Mas nossos políticos, dirigentes de grandes empresas, professores universitários ainda são em sua maioria brancos.
O caminho a percorrer é longo, mas acredito que em mais uns 15 anos, poderei falar que o Brasil é, sim, um país multicultural, pois as diferentes culturas interagem entre elas, e não apenas se integram, utilizando só o que nos interessa para se completarem, e considerando outras culturas, menos completas.
Texto: Veronica Botelho – Escritora multicultural, antropóloga por paixão, formada em Psicologia. Autora do Livro Meias Verdades.
Enfim o Brasil aporta nos portos do século XX
“Vivemos num momento de cataclismo.
Vivemos num país cindido e sequer sabemos
Quando se deu a cisão.
Desconfio que nunca houve, de fato uma junção.
As partes que nos compunham
desde sempre
Estiveram remendadas toscamente.
Se víamos a nós mesmos coesos,
isto se dava
Ao fato de que éramos cosidos.
Retalhos de toscas malhas nos
coadunavam toscamente.
Sem qualquer cuidado de manter a harmonia.
Bastava-nos estar liados.
A parecer sermos, quando muito
não passávamos,
De uma colcha de retalhos.
Se aqui ou ali alguma revolta
ousasse pôr para fora
O nariz a farejar sinais de
desigualdade,
Subitamente abafados, víamos o
corpo lavado
Jogados ao pau de arara, ao
tronco, a ferros, navalha.
Quando se fala de governo,
quando de quando em quando
Não eram mais do mesmo? Mas a
roda da história,
Sempre roda e vai e volta. Torna e
sempre retorna,
Para tornar a voltar. Hiatos,
mínimos hiatos
Deram a este povo o desejo
De a si mesmo governar.
Mesmo assim os seus atores
protagonizaram voltas
Devolvendo cada classe de volta ao
seu lugar.
E’ preciso que se mantenha
Não se venha a misturar, os que podem
E os que não podem.
Já fomos coroa e colônia. Já
senhores e escravos
Já fomos também letrados,
apartados de iletrados
Fazendeiro e morador, coronel e
agricultor
E nesta roda da história chegamos
a nova era
Finalmente, era tempo, de essa era
chegar
Dividimo-nos agora, o capital e o trabalho
Cada qual de sua parte
Quer aquilo que lhe cabe.
Que cabe ao capital? Diz o motor
da história
Que a este cabe a glória de deter
em sua posse
O capital e o trabalho. E’ dono da
mão de obra
E da fortuna que sobra
O produto da labuta, o lucro a
comprar mais gente
Para lhe dar mais trabalho.
Que cabe ao trabalhador? Algo
mais que o seu trabalho?
Ao trabalhador o trabalho. Porque é ele
O operário da fortuna da história
Para o bem e para a glória
Dos senhores capitais.”
Edilberto C. – Professor e poeta, nascido potiguar.
ESQUÁLIDO: A ANATOMIA DO OUTRO
por Edilberto Santos
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