Choque cultural: quando o desejo de conhecer o mundo se transforma em pesadelo

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Por Veronica Botelho
Counselor cultural

Morar no exterior pode ser visto como uma experiência estimulante, que incentiva a abertura de novas formas de perceber o mundo, alimentando a nossa curiosidade, aumentando nossa criatividade e aprendizagem, mas nem tudo são “flores”. Sair da nossa zona de conforto por decisão própria, estimulada pela curiosidade de conhecer “o mundo”, pode facilitar o processo, mas e quando decidimos sair em busca de uma vida melhor, ou porque nos casamos com uma pessoa de outra cultura, ou por causa de uma boa oferta de trabalho, ou porque estamos fugindo de situações de violência, guerra, insegurança e quando o desejo de conhecer o mundo depende de situações que queremos mudar?

A probabilidade de nos depararmos com sintomas característicos do “choque cultural” aumenta, porque a motivação é extrínseca, ou seja, não depende completamente de nós, porque gostamos do nosso país e nos sentimos “obrigados” a deixá-lo. A consequência é que as nossas expectativas podem se transformar em frustração. A percepção que começaremos a formar da nova cultura será influenciada por emoções negativas, nos sentiremos insatisfeitos, mesmo antes de partir, e esses sentimentos afetarão a experiência que poderia ser uma das mais gratificantes das nossas vidas, se transformando em pesadelo.

Os valores, normas sociais e tradições de um novo ambiente cultural podem ser muito diferentes das crenças que nos moldaram, do modo que acreditamos sobre “como as coisas deveriam ser”, de acordo com o local em que crescemos. Quando nos mudamos para outro ambiente cultural (não necessariamente só a mudança de país), carregamos nossa própria bagagem, nossas experiências de vida, nosso modo de perceber o mundo. Para algumas pessoas, o processo de adaptação pode ser mais simples, e até fácil, para outras, as dificuldades podem ser significativas.

O “choque cultural” é uma experiência comum entre pessoas que decidem deixar seu ambiente de origem, caracterizada por sentimentos de confusão, estresse, desorientação no contato com uma cultura desconhecida. A tendência é nos fecharmos ainda mais e/ou procurar nossos conterrâneos, criando espécies de “guetos”. A consequência é perder a oportunidade de interagir positivamente com a nova cultura, aprendendo com ela e ensinando a nossa, de uma multiplicação de valores, sensações e conhecimento.

Reações comuns do “Choque Cultural” (em graus variados e em momentos diferentes): 
·         Saudade extrema;
·         Isolamento;
·         Tédio;
·         Problemas de saúde;
·         Sono irregular;
·         Dificuldade de aprendizagem e de concentração;
·         Irritabilidade;
·         Cansaço;
·         Crítica contínua;
·         Desmotivação;
·         Baixa autoestima;
·         Insegurança;
·         Falta de iniciativa;
·         Apatia;
·         Depressão.

Geralmente o choque cultural se desenvolve em 4 fases diferentes:

1.    LUA DE MEL: normalmente é a primeira fase, mas muda de pessoa a pessoa, inclusive, dependendo da motivação da mudança, essa fase pode ser ausente, como no caso dos refugiados. É o momento em que tudo parece perfeito, caracterizado pelo desejo de explorar e provar a nova cultura, como quando viajamos a turismo;

2.      FRUSTRAÇÃO: depois da fase da lua de mel, as maneiras habituais de lidar com a vida cotidiana, com os relacionamentos, com a escola, com o trabalho…  parecem não se “encaixar” no novo ambiente, seja por dificuldades com o idioma, pelo esforço em conhecer novas pessoas, ou por não encontrar um trabalho onde se sinta realizado, por exemplo. Começamos a nos sentir inferiores, a sentir saudades de casa e a idealizar o que “deixamos” para trás; começamos a ser altamente críticos da vida na nova comunidade e a nos sentir frustrados, irritados, ansiosos ou até mesmo deprimidos. Esses sentimentos podem comportar pequenos problemas de saúde e/ou interrupções no ritmo de sono e de alimentação.
A motivação pode diminuir, nos afastamos dos novos amigos e a possibilidade de voltarmos para a cultura de origem começa a ser uma opção tangível. Outra emoção que pode se manifestar é a raiva por não encontrarmos o que esperávamos. Nesse processo, os laços familiares multiplicam as sensações, seja pela família ter ficado no ambiente de origem ou por ter acompanhado na mudança. A percepção que desenvolvemos do novo ambiente será condicionada e tudo será visto como negativo. Culpamos a nova cultura pelas nossas frustrações e dificuldades, afirmamos que  é hostil, que fazem tudo de maneira estranha, e não reconhecemos o fato de que é um processo de adaptação, que depende de nós.

3.      ADAPTAÇÃO: podemos decidir mergulhar na cultura do acolhimento, lutar contra as diferenças, encontrar pontos em comum, se aproximar de pessoas da nova cultura,  interagir positivamente, e começarmos a nos sentir mais relaxados. Nossos sentimentos e atitudes sobre a nova vida melhoram, recuperando autoconfiança, motivação e serenidade. Ou podemos continuar interagindo somente com pessoas da nossa mesma proveniência, inclusive muito diferentes de nós e que talvez não nos aproximaríamos se estivéssemos no nosso ambiente de origem. Ficamos ainda mais fechados para a nova cultura, ressaltando as divergências, aumentando os mal-entendidos e erros. Idealizaremos cada vez mais o lugar de origem, vivendo fisicamente num lugar e com a mente em outro. Por exemplo, os “transmigrantes”, que são os imigrantes que decidem ir embora em busca de uma situação econômica melhor, que trabalham para mandar dinheiro para familiares, com a ideia de que um dia voltarão para sua terra natal, implica em falta de interesse em interagir, em conhecer a fundo a nova cultura, entrando numa dinâmica de rejeição e rejeitado. Nos sentiremos um “peixe fora d’água” e perderemos a possibilidade de desenvolver uma percepção positiva da nova realidade e, principalmente, perderemos a oportunidade de multiplicar conhecimento, relações pessoais, de aprender do diverso…

4.      ACEITAÇÃO: aceitamos a situação e decidimos dar o melhor de nós para interagir com o novo ambiente, aproveitando o que a nova cultura tem de melhor, aprendendo e ensinando, um processo dinâmico e contínuo, que nos levará a um estado de mais tranquilidade, respeito pelas diferenças, maior abertura mental; ou aceitamos, mas como resultado de uma resignação, de acúmulo de frustrações, que  pode nos levar a um estado de isolamento, a aceitar que a cultura é “estranha”, “diferente demais” e a interagir apenas com os nossos conterrâneos que confirmarem que estamos certos; ou a decidir voltar, a desistir, o que, dependendo do tempo que ficamos fora, pode nos levar a mais uma desilusão, mais uma frustração por termos idealizado e na volta nos damos conta de que não era como as nossas expectativas.

Como afrontar o “choque cultural”? 
O ideal seria aceitar cada fase, identificar as emoções que nos bloqueiam no processo e canalizá-las de maneira positiva e reconhecer que a nova cultura não tem culpa das nossas decisões; que para os locais somos pessoas “estranhas”, “diferentes” e eles também passam por um processo de reconhecimento e aceitação, inclusive, dependendo de onde vamos morar, podemos nos deparar com pessoas que nunca interagiram com culturas diferentes e elas precisarão de mais tempo para nos conhecer, entender as diferenças, encontrar o que nos une. O processo é bem parecido, com a diferença que não foram elas que decidiram sair do seu ambiente, elas simplesmente um dia se depararam com o “desconhecido”.

Algumas pessoas podem ser mais abertas, estimuladas pela curiosidade, outras mais fechadas; o esforço para interagir pode ser maior ou menor, dependendo da situação, como por exemplo, um parente que se casa com uma pessoa de uma cultura diferente. A sua família pode se esforçar mais do que uma pessoa que está na sua zona de conforto e que nunca saiu do seu país. A paciência é crucial! Não levar para o pessoal a falta de um sorriso, por exemplo, um gesto que para nós pode ser considerado hostil, um modo de se comunicar que identificamos como rude. Observar, estudar a nova cultura, comer a sua comida, escutar a sua música, saborear as diferenças com olhos de curiosidade, respeito, identificar os pontos em comum e se concentrar neles fará com que aos poucos comecemos a interagir positivamente, mostrando e ensinando a nossa cultura de origem.

Com paciência, respeito e gentileza, as portas se abrem. Afinal de contas, somos todos seres humanos, e o diverso espanta e condiciona, mas também ensina e fascina!

Você, intercambista, turista, expatriado ou imigrante, que está longe de sua terra natal, enfrenta dificuldades de interagir com uma nova cultura? Entre em contato!

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