Por Veronica Botelho
Eu sou aquela filha que, para a alegria dos pais, “é branca!”. Esse foi o primeiro comentário que fizeram após a enfermeira dizer que era uma menina. Quando ligaram para minha avó para falar que eu tinha nascido, esta foi a primeira coisa que lhe informaram, mas a alegria deles durou pouco, pois minha avó perguntou:
– Ela tem uma mancha no bumbum?
– Tem sim!
– Ah, então vai ficar pretinha sim… (com risadas que se ouviram ao telefone)
A primeira negra da família! Ela sempre me explicou essa história dizendo que tinha ficado contente, feliz e minha mãe nunca entendeu!
Sou a filha negra de um pai branco. Questionei minha paternidade várias vezes, procurando fotos que demonstrassem que me pareço com ele, que faleceu quando eu tinha menos de 7 anos. Fotos em que eu parecesse com minha avó, filha de uma indígena e de um português, loira; com meu avô, filho de português e de uma austríaca, branco. Meus maiores amores e as pessoas com as quais passei os primeiros 5 anos da minha vida. Procurava fotos que me confirmassem quem sou.
Cresci escutando que se meu nariz não era “tão de negro”, era porque meu pai tentava afinar com os dedos desde o dia que nasci. Ouvindo que minha boca é igual à da minha avô, o corpo igual ao do pai, os pés iguais aos da tia paterna, que só tinha a cor da minha mãe, mas que na verdade eu era mulata, morena, café-com-leite, cor de jambo…
Quando criança, me falavam para não tomar muito sol, pois caso fizesse isso pareceria ainda mais negra do que sou. Detalhe: dos 5 aos 18 anos morei em Natal e passava as férias em Niterói. Na pré-adolescência, quando meu cabelo, até então liso, começou a encrespar, minha mãe começou a me levar para alisar. Ainda bem que, por ser muito curiosa, consegui evitar que colocassem produtos mais fortes e aos 14 anos tinha o cabelo liso, mas também bem preto, graças ao henê.
Quando cansei do preto e resolvi começar a pintar, só lavava o cabelo no salão, o que me fez não querer mais ir à praia ou à piscina com os amigos e, quando ia, não tirava o boné da cabeça. Diversas vezes me encontrei segurando-o para que não o tirassem de mim, enquanto cantavam “negra do cabelo duro…”.
Não é de se estranhar que eu tivesse trocado as idas à praia e à piscina por livros e filmes.
A única negra da família
Sou a ex-esposa negra de um casal inter-racial. A ex-esposa de um marido que me dizia para não usar saia curta ou roupas apertadas, porque sendo brasileira e negra as pessoas acabariam me confundindo com uma prostituta. Que falava para não me maquiar, porque senão ficaria muito vistosa. A ex-esposa de um homem que não queria que eu falasse português quando passeava pelo mercado cheio de brasileiros, porque, segundo ele, já sabia que tipo de brasileiros encontraria por ali e não queria conversa com “essa gente”.
Sou a irmã negra de uma irmã que antes era vista como branca no Brasil, devido ao fato de ter uma cor de pele e cabelos mais claros. Hoje em dia, graças ao fato de que ela também assumiu seus cabelos cacheados, parecemos filhas dos mesmos genitores, coisa que tive que repetir várias vezes, diante da surpresa de uma filha negra e outra no Brasil considerada branca.
Inclusive, nossa mãe sempre nos conta sobre a vez em que eu e ela fomos confundidas com africanas, ao passo que minha irmã não. Era o ano de 1985, logo após a morte do meu pai. Decidimos passar uma temporada em Abidjan (Costa do Marfim), onde meus avós moravam por ocasião de trabalho, e época do apartheid. Estávamos voltando para o Brasil e ela – minha mãe – decidiu fazer tranças no seu cabelo. Assim, ao embarcar, deduziram que ambas éramos nativas do continente e, por isso, proibiram que minha irmã viajasse conosco, mesmo após mostrarmos todos os documentos.
Como nos deram o direito de contatar alguém, minha mãe pediu pra anunciar o nome do meu avô, que tinha nos visto embarcando e provavelmente ainda estaria no aeroporto. Só conseguimos seguir viagem porque ele, utilizando o seu cargo diplomático, se responsabilizou e nos acompanhou até o avião.
Minha mãe também me conta que eu e ela tínhamos que usar banheiro diferente das pessoas brancas, mas que minha irmã não. Não lembro disso, mas fico imaginando a cena e tentando entender os condicionamentos que tal vivência me trouxe.
Sou a mãe negra de duas filhas que são vistas como brancas.
Minha filha chorava, até pouco tempo atrás, cada vez que alguém me perguntava na sua frente, com expressão de surpresa, como, afinal, foi possível que eu tivesse gerado uma filha branca.
Perdi a conta das vezes em que tive que consolá-la. Perdi a conta das vezes em que a ouvi chorar. Lágrimas implorando para ser “marrom”, lágrimas por querer ter o cabelo igual ao meu, lágrimas e súplicas para que eu identificasse nela o que tem de igual a mim. Lágrimas intercaladas com perguntas sobre porque, afinal, ela não se parece comigo, lágrimas por ciúmes da irmã mais velha, a respeito de quem as pessoas sempre dizem: ela sim até parece ser tua filha, a pequenininha não.
A falta de sensibilidade das pessoas chega a ser tamanha que, certa vez no Brasil, ao amamentá-la, me perguntaram como poderia eu amamentar uma filha que não era minha.
Hoje ela tem 8 anos e acredito que já tenha se acostumado. Já não chora mais, porém não há um dia sequer que ela e a irmã não me peçam pra listar o que elas têm de igual à mim.
Sou a única negra da minha família paterna. Fui um das poucas negras na minha escola, sou a única negra na maioria dos meus círculos de amigues e nos lugares que frequento.
Já escutei de várias pessoas, inclusive da família do meu ex e dele próprio, que eu era a única negra decente que eles conheciam, a única que não fede, a única na qual confiam… Sim, me falavam isso sem um mínimo de pudor.
Obviamente, tais palavras sempre vieram fantasiadas de brincadeiras e piadas. Nunca soube o que responder, não conseguia sequer saber o que sentir diante de tais situações, pois geralmente estava sozinha, num grupo onde a maioria acabava rindo disso.
Todavia, não sou a única negra da minha família materna, família esta que muitas vezes minha mãe evitava. Lembro que, ao receber visitas da nossa avó, ela a escondia de seus amigues branques. Eu mesma e minha irmã já fizemos isto também.
Morei com uma mãe negra que, sempre que me via fazer algo errado, dizia: Nego quando não caga na entrada, caga na saída. Uma mãe negra que não contratava negros, pois afirmava que não se podia confiar em pessoas dessa cor, exceto quando eram da família. Uma mãe negra que sempre me alertava para nunca ir em Salvador, porque na Bahia só tinha preto, ou seja, era um lugar onde não se podia confiar em ninguém. Pena que eu conheci a carta de Lynch já adulta, teria entendido melhor as atitudes da minha mãe e economizado em psicanálise.
Hoje entendo o comportamento da minha mãe. Ela sofreu muito com o racismo, mais do que eu, inclusive. Por isso, seu processo de aceitação da sua cor e das suas origens levará um certo tempo. Espero que um dia ela se perdoe porque hoje já não guardo rancor. Graças às coisas que ela falava pude compreender que não éramos todos vistos como iguais e tratados com os mesmos direitos. E foi exatamente isso que me impulsionou a sair da minha bolha e a ter tanto orgulho, hoje, de quem sou, da minha cor e das minhas origens.
Foi exatamente isso que me fez lutar contra os preconceitos, para que parem de matar e parem de condenar nossas vidas. É precisamente essa história que me leva a tentar unir os mundos que sinto dentro de mim.
Por isso, à medida que fui crescendo, ia me rebelando, apoiando as causas das pessoas desprivilegiadas e defendendo as empregadas domésticas, para que pudessem voltar para suas casas e não fossem obrigadas a ficar semanas inteiras sem ver suas famílias. Apanhei muitas vezes por isso.
Para ela eu sou a ovelha negra da família. O que ela demorou a entender é que eu sentia orgulho disso.
Entre a negação e a aceitação, me encontrei
Sou vários mundos dentro de um único corpo. Sou a prova viva de um processo de negação e aceitação do “racismo”.
Por isso acredito que a solução está em reconhecer todos os condicionamentos que temos ao crescer num país e num mundo onde pessoas são assassinadas por causa da cor da sua pele.
Tanto as pessoas negras quanto às brancas precisam reconhecer este fato. Principalmente aquelas que, como eu, foram enganadas e ludibriadas pelo discurso da meritocracia; e aquelas que, como minha mãe, foram condenadas a um sofrimento eterno por causa das dores sofridas, sempre vivendo na ilusão de que são vistas pelos brancos, quando na realidade, basta um passo em falso para serem completamente ignoradas, muitas vezes eliminadas e até mesmo torturadas.
Porque, infelizmente, ser uma pessoa negra vivendo no mundo das pessoas brancas é uma condenação eterna ao silêncio, ao não errar, a ter amizades interesseiras, a sempre ter que agradar e dizer sim.
Temos hoje o dever de fazer uma autorreflexão sincera e profunda, temos a obrigação de reconhecer o racismo existente em cada um de nós, pois esta é a única maneira de liquidá-lo.
Esse reconhecimento, nu, cru e por vezes amargo, é parte de quem sou, é parte do meu passado. Um passado que forjou meu presente e me faz lutar por um futuro onde nos olharemos pelo o que somos: Todos diferentes, todos com muitos mundos dentro de um só corpo. Cada um com suas percepções, mas se conectando através do que temos em comum e crescendo graças às nossas diferenças. Esse é o resultado de crescer branca num corpo e alma negros.


