Imagem: Anitta e Kevinho (foto de divulgação)
Por Veronica Botelho
“O medo de que não vamos dar conta de crescer além de quaisquer distorções que possamos achar em nós mesmas é que nos mantém dóceis, leais e obedientes, definidas pelo que vem de fora, e que nos leva a aceitar muitos aspectos da opressão que sofremos por sermos mulheres.”
Audre Lorde
Minha adolescência foi marcada por muitos estilos musicais, mas sem dúvida um dos que mais lembro é o do grupo “É o tchan” – não existia festa em casa com amigas nas quais não acabávamos todas descendo na boquinha da garrafa, ou “segurando o tchan”. Lembro dos adultos olhando e rindo, e quantas mais olhadas e risadas, mais nos animávamos na dança. A verdade é que não lembro de nenhuma sensação que me mandasse além da minha idade, até porque naquela idade sexo era fora dos meus pensamentos, o conceito de vulgar também, a minha sensação era de dançar livremente e com coreografias ensaiadas. Não percebia nenhuma maldade.
Hoje sou mãe de duas meninas, moramos na Itália, elas nasceram aqui e digamos que a música não é tão presente nas festas aqui como é no Brasil, mas o sangue não nega: elas passam o dia dançando e escutando música… quando eu era a responsável por colocar música em casa, minhas escolhas para dançar com elas variavam desde samba-canção, bossa nova, rock até Michael Jackson, Madonna.
Mas agora que elas já escolhem suas músicas, os ritmos que elas mais gostam de dançar é reggaeton, hip hop, salsa funk, e principalmente Anitta, que descobriram nos vídeos do Youtube, e acabaram trocando Camilla Cabello, Rihanna, Kate Perry, Justin Bieber eTaylor Swift por Anitta e Ludmilla.
Confesso que no início tentei mostrar outras opções que mostrassem menos a bunda, que sensualizassem menos as mulheres, mas não teve jeito, a paixão por Anitta foi mais forte, e acabei me rendendo. Porém, quando elas mostram para as suas amiguinhas quem é e os pais veem, a reação deles não é muito boa – muitos ficam chocados com os vídeos, sem nem imaginar o que dizem as letras. Alguns ainda tentam ser simpáticos e mostrar indiferença, comentam que ela é muito bonita e mudam de assunto.
Muitas vezes, se tenho a oportunidade, tento introduzir o tema e como fiz uma pesquisa sobre Anitta para um texto que escrevi ano passado onde (leia aqui) falo sobre apropriação cultural, explico que ela é uma mulher determinada, com as ideias bem claras e como isso serve para empoderar as crianças e mulheres, descobri uma fonte de inspiração, mesmo sem gostar da sua música, apesar de reconhecer que algumas são tão contagiantes que é impossível ficar parada (tenho que dar a César o que é de César, afinal, ela ganhou não só a minha admiração, mas principalmente, a admiração das minhas filhas).
Cada vez que as vejo dançar, tentando fazer o quadradinho (Link audio Little square Snoop Dog & Anitta) que as vejo rebolando, vejo apenas alegria e inocência nos seus olhos, e muita satisfação com cada passo que sai bem. Mas por mais que essa seja a mensagem que elas me passam, como posso protegê-las da interpretação e conotação que outras pessoas dão a essa dança? Ou, por exemplo, o que responder quando elas me perguntam por que o pai delas não as deixa dançar Anitta? Será que eu também deveria proibir para as protegê-las dos condicionamentos dos adultos?
E por que na minha época de adolescência meus pais ou avós não diziam nada, ao contrário, até riam e aplaudiam? Será que essa mudança de comportamento é porque fomos nos tornando sempre mais desconfiados? Se sim, o que provocou essa desconfiança?
Como essas perguntas não paravam de aumentar (na mesma proporção que o amor das minhas filhas por Anitta), já que não podia fazer nada, decidi que responderia as perguntas depois, pois para mim é mais importante ver o sorriso e a alegria nos rostos das minhas filhas. Assim, decidi levá-las de surpresa para o show de Anitta em Milão.
Elas conseguiram até vê-la de perto, depois que minha filha grande chorou perto de um segurança e ele falou com a organizadora do evento, que as trouxe para a zona VIP. Foi o primeiro show que foram e segundo elas a coisa mais bonita que já aconteceu em suas vidas.
Então algumas respostas começaram a aparecer. Dia 16/08 Djamila Ribeiro escreveu na sua coluna para a Folha de São Paulo um artigo no qual comenta sobre um texto que eu desconhecia de Audre Lorde (texto original aqui) e fazia uma reflexão bem interessante sobre empoderamento e negação do erótico como maneira de aprisionamento das mulheres. Nem preciso dizer que foi acabar de ler o texto e eu já estava escutando esse speech da própria Audre Lorde.
Senti que ele poderia ser fonte de boas reflexões sobre o fenômeno Anitta com as crianças. Quero deixar claro que esse texto é uma reflexão minha, pessoal, para a qual gostaria de encontrar algumas respostas, mas não sou especializada em Audre Lorde, apenas li alguns essays e essa é a primeira vez que eu escuto e leio esse texto. Então se você é especializado em Audre Lorde, e/ou nesse argumento, amaria escutar seu ponto de vista e multiplicar conhecimentos.
Audre Lorde começa falando: “O erótico é um recurso que mora no interior de nós mesmas, assentado em um plano profundamente feminino e espiritual, e firmemente enraizado no poder de nossos sentimentos não pronunciados e ainda por reconhecer. Para se perpetuar, toda opressão deve corromper ou distorcer as fontes de poder inerentes à cultura das pessoas oprimidas, fontes das quais pode surgir a energia da mudança. No caso das mulheres, isso se traduziu na supressão do erótico como fonte de poder e informação em nossas vidas.”
Imagina que passamos 9 meses e o único contato que temos sobre nossa pele nua, é a pele nua da nossa mãe, até um dia nascermos e começarem a nos vestir, e serão poucos os pais que com o tempo não comecem a perceber que seus filhos estarão melhor só de fraldas, ou ate mesmo sem (temperaturas permitindo). Existe uma técnica de tirar a fralda das crianças que se baseia em deixá-las a maior parte do tempo possível sem fraldas e observar a expressão que elas fazem quando estão fazendo xixi ou cocô. Eu a utilizei com minhas filhas e a verdade é que funcionou.
Então começamos a sentir a comodidade de estar nuas, de poder fazer xixi em qualquer lugar, de poder ir para praia ou piscina peladas, de repente sem entender começamos a ter que nos vestir mais, e as camadas vão só aumentando, mas essa fase coincide com a descoberta do nosso corpo, principalmente nós meninas. Quantas vezes vemos familiares e/ou amigos brincando com o “pintinho” dos meninos? Quantas vemos inclusive comentando as dimensões, tocando?
Por acaso vemos a mesma proporção de comentários sobre a “pepeca”. Então no meio dessa confusão de sensações que não acompanham as mudanças, nossos corpos começam a se transformar em alguma coisa que não reconhecemos e que parece que ninguém quer reconhecer. Vira um tabu, e quando nos deparamos com fenômenos como Anitta, que coloca para fora tudo aquilo que a gente tinha dentro, que fala de sexo com uma naturalidade que nos faz não conseguir entender por que nossos pais ficam nervosos quando perguntamos o que é.
Às vezes isso pode coincidir também com a época em que não queremos crescer, aquela pré-adolescência com que nos deparamos de cara e que não temos ideia do que é, estamos cheias de perguntas que ninguém quer responder. Agora as mudanças nos nossos corpos são evidentes, então Anitta nos devolve aquela sensação de estarmos nuas, de sermos ainda crianças. Nos dá respostas.
“Mas quando começamos a viver desde dentro pra fora, conectadas ao poder do erótico dentro de nós e permitindo que esse poder preencha e inspire nossas formas de atuar com o mundo que nos rodeia, então é que começamos a ser responsáveis por nós mesmas no sentido mais profundo.” (Audre Lorde)
Dependendo do nosso caráter, não daremos ouvido às proibições e defenderemos nossa liberdade de mostrar nossos corpos, de dançar do jeito que queremos, de exibir o nosso poder sobre o nosso corpo, mas infelizmente vivemos numa sociedade que justifica um estupro dizendo que a mulher provocou por causa do modo que estava vestida, numa sociedade que interpreta e condiciona o que as crianças percebem inocentemente, acabando por conseguir o resultado oposto, porque a proibição desperta a atenção das crianças para o tema de forma precoce. Além de muitas outras perguntas.
“A necessidade de compartilhar em profundidade de sentimento é uma necessidade humana. Mas na tradição européia-estadunidense, essa necessidade é satisfeita com certos encontros eróticos ilícitos. Tais ocasiões quase sempre se caracterizam por falta de atenção mútua, pela pretensão de chamá-las pelo que não são, seja isso religião, ou arrebatamento, violência da multidão ou brincar de médico. E esse chamamento torto à necessidade e ao ato faz surgir aquela distorção que resulta em pornografia e obscenidade – o abuso do sentimento.” Audre Lorde.
O que para uma criança era apenas uma sensação, ganha outras conotações e se algumas não darão ouvido, e deverão aceitar a condição de pornográfico, outras aceitaram a supressão e viverão negando sensações “Se recusamos a consciência do que estamos sempre sentindo, por mais confortável que isso possa parecer, estamos nos privando de parte da experiência, e nos permitindo ser reduzidas ao pornográfico, ao abusado, ao absurdo.” Audre Lorde.
Será que o que nossas filhas sentem quando veem Anitta é uma necessidade inconsciente de proteger os seus direitos, de proteger o seu poder do erótico, de proteger a sua essência? Como se Anitta fosse a resposta concreta de todas as sensações que elas sentem e não sabem explicar, porque não precisam de nenhuma outra explicação além do sentir? Além de parecer a elas que é a única maneira de se rebelar contra a supressão do sentir?
“Em contato com o erótico, eu me rebelo contra a aceitação do enfraquecimento e de todos os estados de meu ser que não são próprios de mim, que me foram impostos, como a resignação, o desespero, o auto-aniquilamento, a depressão, a autonegação.” Audre Lorde
Num próximo post farei uma reflexão se realmente essa distorção e desconfiança, aumentou com o tempo e em quais culturas o erótico é visto de forma diferente da nossa.
E então, será que devemos proibir nossos filhos de verem e dançarem como Anitta, ou não?
“Reconhecer o poder do erótico em nossas vidas pode nos dar a energia necessária pra fazer mudanças genuínas em nosso mundo, mais que meramente estabelecer uma mudança de personagens no mesmo drama tedioso. Pois não só tocamos nossa fonte mais profundamente criativa, mas fazemos o que é fêmeo e autoafirmativo frente a uma sociedade racista, patriarcal e anti-erótica.” Audre Lorde
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Encontramos a tradução do texto de Audre Lorde no blog Caderneta Feminista. Cuidado ao entrar nele, você pode acabar ficando horas e horas lendo o monte de texto foda que tem lá (como nós).
Tradução feita por Tatiana Nascimento dos Santos – Dezembro de 2009, retirada do Zine “Textos escolhidos de Audre Lorde”.
Artigo Original: Use of the Erotic: The Erotic as Power, in: LORDE, Audre. Sister outsider: essays andspeeches. New York: The Crossing Press Feminist Series, 1984. p. 53-59.


