O caminho perdido dos fatos

Por Veronica Botelho

Cega pela nostalgia de cada terra que um dia deixei para trás,
apaixonada por cada terra que um dia abandonei:
embora você deixe a sua terra, ela permanece dentro de você,
embora você deixe muitas terras, essas já fazem parte de você
e você se perde dentro dos fatos

Podemos decidir as terras que queremos chamar de nossas
e cada uma ficará dentro de nós
dentro do nosso sentir
dentro do nosso pensar
dentro do nosso ser
e você se perde dentro dos fatos

O preço por tanto sentir
é não poder tocá-las ao mesmo tempo
o preço por tanto pensar
é não existir sem todas elas
o preço por tanto ser
é não poder renunciar a nenhuma delas
e você se perde dentro dos fatos

Sou cada lugar por onde passei
sou cada pessoa com quem conversei
sou fruto de muitos
saboreado por poucos
sou ar
sou vento
sou amor
sou sentimento
sou desejo de reencontro
reencontro das minhas terras
sou negação dos seus defeitos
sou exaltação dos seus desejos
me perdi dentro dos fatos

Na boca de todos
compreendida por poucos
sou nordestina no sul do Brasil
bicho raro no meu nordeste
catalã na Espanha
fiorentina na Itália
americana na Argentina
sou bicho do mato na Inglaterra
mãe na alta esfera
me perdi dentro dos fatos

Resultado de um mundo que se diz globalizado
consciente de vários pecados
cidadã do mundo com tantos passados
produto de um mercado
que não estava preparado
sou resultado de sonhos
perdidos dentro dos fatos

Estrangeira é a minha condição
resultado de tantos fracassos
desse mundo que se diz globalizado
um único presente
baseado em infinitas realidades
E o futuro?! Ah, está perdido dentro dos fatos!

Como vive o marido de uma feminista?

Por Veronica Botelho

Hoje foi um daqueles dias em que argumentos que para muitos podem parecer desconexos, para outros são o pão de cada dia e estão mais do que conectados.

Logo pela manhã li um post da jornalista Noemia Colonna, onde ela expressava a invisibilidade que nós, mulheres negras, enfrentamos em lugares públicos. Para tal, compartilhou uma experiência vivida por ela recentemente num restaurante do Rio de Janeiro.

Nesse mesmo post ela convidava à leitura de um artigo — que é parte de um dossiê sobre raça e direitos humanos que enfoca na conscientização da população branca em relação aos privilégios que gozam no Brasil — propondo o envolvimento ativo da população branca e de entidades do governo na luta antirracista.

Após ler o post, compartilhei em algumas linhas que cresci me sentindo invisível e que, nas poucas vezes que tentei comentar com amigues, sempre acabei sendo tachada como paranoica.

O que talvez não esperava era que justamente hoje viveria uma situação que me mandou de volta aquela mesma sensação de impotência e de invisibilidade, ainda que com outra conotação…

Fui almoçar com minhas filhas e duas amigas num restaurante que, a cada ano, faz feijoada como abertura da temporada, já que os donos são brasileiros, mas a especialidade da cozinha é italiana.

Lá encontramos dois casais de brasileiros, conhecidos nossos, com suas filhas. Trocamos algumas palavras, apresentei minhas amigas, mas cada um se manteve na sua mesa.

Enquanto comia e conversava com minhas amigas, escutamos uma delas falarem:

– Quando eu emagrecer, faço a operação e pronto. — na sequência, o marido fala:

– Vai operar o quê? O cérebro? Conheço um neurologista muito bom, mas acho que teu caso não tem solução.

Os dois homens presentes na mesa começam a rir e as mulheres esboçam aquele sorriso de circunstância, sem dizer uma só palavra. Me controlo para não falar nada, afinal, mesmo que sem intenção, por causa da proximidade das mesas estava invadindo a privacidade deles.

Olho para minhas amigas, balanço a cabeça e continuo comendo, absorvida em pensamentos e refletindo sobre como os homens conseguem nos humilhar com tanta desenvoltura.

De repente, entre um prato e outro de feijoada, quando passava perto da mesa deles, um deles diz em alto e bom tom:

– Como será que vive o marido de uma feminista? — sentindo os olhares dirigidos à mim, sorrio, olho para trás com o rabo de olho e respondo:

– Divorciado ou viúvo.

Respondi instintivamente, pois sabia que era uma provocação, então resolvi ser sarcástica e deixar pra lá. Eles começam a rir e continuam a conversa entre eles.

Minhas amigas me observam indignadas, sorrio:

– Deixa pra lá, estavam só me provocando. Eles teriam que ler aquele texto “Sejamos todos feministas”, de Chimamanda Adichie. Vocês conhecem?

– Conheço, inclusive acho que ela quis mesmo divulgá-lo, pois encontrei o pdf dele grátis.

– Sério?! Vou procurar agora mesmo e mandar para eles.

E começamos a rir enquanto procurávamos pelo texto, encontrando-o rapidamente. Na mesma hora mandei para um deles (não tinha o número do outro) e para as duas mulheres. Em menos de cinco minutos um deles já estava na nossa mesa.

– Eu te faço uma pergunta e você me responde com 77 páginas?! — sorri, em resposta.

Ah, detalhe: ele vestia uma camiseta preta com os dizeres “Bolsonaro Sim”. Em tom de gentileza e curiosidade ele inicia um diálogo:

– Sério mesmo, sempre me pergunto como será que vive o marido de uma feminista.

– Por isso te mandei o livro.

– Sim, mas homem é homem e mulher é mulher. Então, se ser feminista é sair com os peitos de fora e com frases absurdas, mijar e defecar na cruz, não se depilar… como será que vivem seus maridos?

Incrédulas, começamos a rir.

– Esses são os estereótipos, ser feminista não tem nada a ver como o que vocês está falando.

– Como não?! É o que vemos por aí.

Minhas amigas, entram na conversa.

– É o que querem que vejam, mas já se sabe que ser feminista não tem nada a ver com esses estereótipos.

– Talvez não na Angola, mas no Brasil ser feminista é isso sim. — disse, levando em consideração que minhas amigas são angolanas.

– Sério, vamos fazer uma coisa, já que você tem filhas mulheres, leia o livro, é bem pequeno. Se quiser, tem o vídeo no TED também, e depois conversamos. Essas afirmações que você fez não tem nada a ver com ser feminista, são ideias estereotipadas e obsoletas.

– Tá bom, então me responde uma pergunta: Se Thammy (a filha de Gretchen) e Pabllo Vittar começam a ter um caso e um dia quebram o pau entre eles, quem é que a Lei Maria da Penha vai defender? Thammy ou Pabllo?

– Desculpa, quem é Pabllo Vittar? — Na verdade, já tinha ouvido falar nela, mas como moro há mais de 20 anos fora, não fui atrás e nem acompanho sua carreira e também queria ver como ele me explicaria.

– Aquele traveco, que agora é considerado como a beleza brasileira.

– Ah, você quer dizer uma mulher transexual? — respondi, mas apenas um tempo depois soube que, na verdade, esta cantora é uma drag queen.

– É, isso mesmo, aquele traveco.

– Ah…

E ignorei completamente a pergunta, me girando e continuando a comer. Ele falou que iria ler o livro e depois conversaríamos, acrescentando que se sou feminista, então ele é machista, pois feminismo é o contrário de machismo.

Eu e minhas amigas nos olhamos, sorrimos e continuamos comendo. Afinal, como dar continuidade a uma conversa desse tipo?

Eles pagam a conta, começam a se despedir dos donos do restaurante e de nós e, de repente ele, sempre o mesmo com a camiseta do Bolsonaro, olha para mim e diz:

– Semana passada sonhei com você. — inocentemente, eu pergunto:

– Brigando?

Assim deduzi porque, um tempo atrás, tivemos uma pequena discussão sobre eu aceitar Jesus ou não. Como eles são evangélicos e sempre me convidavam para participar do grupo deles de oração, certa vez, após muita insistência deles, fui mais taxativa ao dizer não.

Ele e o amigo dele começaram a sorrir.

– Não, não… — Continuaram a sorrir e me olhar de um jeito pouco respeitoso. Foi então que entendi que o sonho devia ter outra conotação. Me afastei deles e me aproximei das esposas, que conversavam com a dona do restaurante; mas não rápido o suficiente para evitar ouvir o amigo, que me olhava, perguntar para ele:

– E como ela estava?

Já perto das suas esposas, pude apenas escutar suas risadas e senti os olhares deles em cima de mim.

Agora me pergunto, são essas as pessoas que se sentem servas de Deus e que acreditam que todos nós que não “aceitamos” Jesus iremos para o inferno e que eles serão salvos?

Será que eles se permitiriam fazer esses mesmos tipos de comentários se não fosse eu uma mulher negra, especialmente agora, na condição de separada? Ao fazer isso, será que não lembram que suas filhas são mulheres e que as mesmas coisas que eles fazem a mim alguém fará a elas?

Como não defender o feminismo negro?! Veja como as discriminações se entrelaçam, como continuamos sendo alvo de preconceito de um mesmo perfil, que afirma com convicção que homem é homem, mulher é mulher e viado não é gente.

Desde que me separei tenho vivido situações que me obrigam a refletir sobre minha condição de mulher negra numa sociedade machista. Em uma semana é a segunda vez que passo por uma situação constrangedora, ofensiva e, escancaradamente, um reflexo das sociedades patriarcais e que continuam a racializar.

Infelizmente, o caminho ainda é longo, muito mais do que podemos imaginar e até mesmo aceitar.

Cansei

Acervo pessoal

Por Veronica Botelho

Cansei de viver no silêncio, na sombra e na invisibilidade de um sistema que não se enxerga.

Invisível dentro uma estrutura que, na verdade, é cega e não me vê, do mesmo jeito que não vê as outras pessoas, do mesmo jeito que não enxerga as suas falhas, do mesmo jeito que insiste em continuar negando evidências, fatos, vidas… e milhares de mortes.

Cansei de escutar e ficar calada. Calada por não querer ofender, calada por acreditar que tudo tem seu tempo.

Cansei de esperar que chegue o tempo em que todas as pessoas serão tratadas e vistas como diferentemente iguais.

Cansei de esperar que chegue o tempo em que inocentes vão parar de morrer.

Cansei de esperar pela união entre as pessoas por um bem que deveria ser comum: a vida.

Já escutei inúmeras vezes que não posso opinar sobre política no Brasil, porque não vivo lá há muitos anos.

Saí do Brasil antes de poder votar e decidi me abster do direito ao voto porque a minha coerência me fez pensar que não morando lá não tinha o direito de influenciar nas eleições.

E, mesmo amando a política (não o que fazem com ela, mas o que esta representa), decidi lutar e me manifestar nos lugares onde morei, mesmo não podendo influenciar diretamente nas eleições, já que rejeitei a possibilidade de ter tanto a nacionalidade espanhola quanto a nacionalidade italiana, algo que facilitaria minha vida na Europa. Assim o fiz não apenas porque acredito que o mundo seja de todos nós, mas também porque esta foi a maneira que encontrei de protestar contra um mundo onde uma nacionalidade vale mais que a outra.

Agora eu cansei, cansei de verdade.

Não acompanhei de perto a campanha do Bolsonaro, mas tal como venho fazendo há mais de 20 anos, li o programa de todos os candidatos. Quando comecei a receber nos grupos de familiares e amigos imagens pró-Bolsonaro, a única coisa que questionei foi: como poderiam votar numa pessoa que prometia dar armas à população? Depois, timidamente, lembrei a eles que sou uma mulher negra e nordestina e falei em tom de brincadeira (única maneira que encontrei para não ser atacada e, ainda assim, ir contra ao silêncio): — Como quero viver mais alguns anos, acho que tão cedo não vou poder voltar ao Brasil! Resposta: Silêncio!

Sei que não vivo aí. Essa foi uma escolha minha e ao fazê-la, sem perceber, acabei escolhendo também por viver no silêncio. No silêncio da minha terra natal e no silêncio das tantas terras pelas quais passei.

Agora eu quero gritar. Gritar que, quando vidas estão em perigo, não importa onde estamos e, por isso, tenho direito à voz, mesmo não morando aí.

Quero gritar para as pessoas brancas que nunca me viram e para as negras que também nunca me viram, porque crescer branca dentro de um corpo negro foi o que me condenou ao silêncio.

Amigos brancos, vocês estão com as mãos sujas de sangue há muito tempo. Por isso, agora as suas mãos viraram feridas abertas que não param de sangrar.

Sei que vocês sentem raiva por causa dos 14 anos de governo do PT. Todavia, o foco dessa discussão não é se este partido roubou ou arruinou nosso país, até mesmo porque o Brasil foi e continua sendo saqueado desde os tempos da colonização.

Quero me concentrar naquilo que vejo a partir de fora. Tenho primes no Piauí com carreiras universitárias, coisa que nunca tinha acontecido na minha família materna. Minha avó aprendeu a ler quase aos 50 anos. Cada vez que vou ao Brasil vejo pessoas negras viajando, quando antes eu era a única pessoa negra no aeroporto que não estava carregando malas ou limpando o chão.

Diferente do passado, quando a única pessoa negra que eu via em situação semelhante à minha era a Glória Maria, e mesmo ela, acredito eu, também tinha que conviver com vários silêncios; o que vejo agora é um movimento intelectual potente de pessoas negras que lutam pela igualdade social e ele só aumenta.

Agora vejo também um genocídio à minha frente. Pessoas inocentes morrendo por causa do racismo estrutural e sistêmico. É verdade que isto já dura muito tempo, mas agora está escancarado e vocês não podem mais usar a desculpa de que não sabem, pois uma das coisas mais positivas que a globalização nos trouxe foi a circulação de informações.

Por isso, não me importa se o Governo Bolsonaro construiu estradas ou aliou-se às “maiores” potências do mundo, não me importa se empresas internacionais voltaram a confiar no Brasil… Enquanto vidas negras continuarem morrendo, nada disso me importa. Enquanto o racismo continuar a ser negado e justificado, enquanto 54% da população continuar sendo esmagada, silenciada, invisibilizada e exterminada, nada disso me importa.

Para ser sincera, me parece absurdo vangloriar-se da construção de colégios militares ou do corte de verbas para o Ministério dos Direitos Humanos.

Os ministros atuais possuem competências técnicas? Ok, mas onde estão as pessoas negras e as mulheres nesses ministérios?

As mortes dos policiais diminuíram? E a população, que deveria ser defendida, e não assassinada, por eles e cujas mortes só aumentam?

Ganhamos o apoio do Estados Unidos e Israel? Sério que vocês acreditam que seja um apoio e não uma maneira de continuarem a se aproveitar das nossas riquezas com o aval e ajuda do próprio governo?

Turistas dos Estados Unidos, Japão, Canadá e Austrália já não precisam mais de vistos??? E desde quando acordos unilaterais são soluções vantajosas para o Brasil??

Não sei se isto é uma cegueira, uma estupidez ou se o que vocês realmente querem é ter um país livre de nós, que fomos justamente as pessoas a construir esta nação e que ainda somos o motivo pelo qual vocês podem continuar a viver como vivem. E isso, obviamente, só é possível graças ao nosso silêncio, que diariamente é forçado por vocês.

Amigos negros, sinto um orgulho enorme de vocês, de nós. Tenho acompanhado a nossa luta desde que nasci e demorei a me pronunciar, mas por pura ignorância, por não ter consciência do que acontecia, mesmo vivendo na pele. Fui calada pela falácia da meritocracia, professada pela minha própria mãe, mulher negra. Com o tempo aprendi que ninguém vence sozinho, que precisamos nos unir e que a frase “a união faz a força” não é só um slogan.

Por isso, apesar de todo o orgulho e alegria ao ver que a gente balança, mas não cai, apesar de perceber que temos nos tornado mais fortes do que nunca… fico triste ao ver tantas campanhas e ações realizadas por vocês de modo paralelo e muitas vezes desordenado. Essas campanhas são sim lícitas e em prol da nossa população, mas muitas vezes faltam a elas a união, um movimento conjunto e ancorado nas nossas dores e anseios similares, que surgem a partir da cor da nossa pele.

Já imaginaram, por exemplo, quão potente seria se nos organizássemos e criássemos uma única estratégia de revolução não violenta? Se todas as pessoas negras militantes e ativistas se juntassem, independente da notoriedade?

Se juntes criássemos uma estratégia para chegar ao poder, afinal de contas, somos maioria. Seria grandioso, podem ter certeza. Seria realmente uma concentração de poder nas mãos das pessoas negras e também das pessoas brancas que lutam ou querem lutar junto conosco pela vida humana.

Sim, isso inclui também nos unirmos a vocês, amigos brancos que também gritam pelo antifascismo. Agora é a hora de nos aliarmos e sermos antirracistas, porque é onde tudo começa.

Não é hora de deixar que nossos egos falem mais alto, não é hora de querer ter um protagonismo dentro de uma história que é de todos. Quando pessoas inocentes morrem, não existe ninguém que sai ganhando.

Devemos juntar nossas forças, criar um movimento único e projetar coletivamente o país onde gostaríamos de viver.

Criar cargos e nomear líderes a partir das competências de cada pessoa. Ou seja, criar um projeto único de país que englobe sonhos e projetos diversos, criar uma voz, única, porém plural.

Muitas pessoas já estão lutando por isso, mas acabam se sentindo cansadas e solitárias. Para que a gente não esmoreça, se entrelacem, colaborem entre si, dividam para multiplicar. Afinal de contas, defender o direito à vida, lutar por um país melhor e querer viver em paz são causas em comum. Utopia?

Um país onde as pessoas permitem a existência de uma classe privilegiada — em detrimento de outra que é esmagada, silenciada e assassinada diariamente — está fadado a um futuro pior do que o atual presente.

Se vocês acham que é utópico unir-se em prol de um bem comum, ou seja, a vida, comecem a imaginar como será viver num futuro distópico. Um futuro que, nem mesmo aqueles que acreditam não ser parte desta luta, gostarão de viver.

Qual é a tua raça?

Por Veronica Botelho

Esse é o título de uma das crônicas presentes no meu livro Meias Verdades. Nela faço uma reflexão sobre racismo e xenofobia e defendo a extinção do uso da palavra racismo, justificando que a mesma se baseia num dos muitos equívocos da ciência, já que ficou demonstrado com o estudo do DNA que não se pode falar de diferentes raças quando nos referimos aos seres humanos.

Recebi algumas críticas sobre isso, pois algumas pessoas interpretaram como se eu estivesse negando a existência do racismo, ao passo que outras se mostraram de acordo com a minha reflexão, mas não entenderam qual então poderia ser o termo mais correto para substituir a palavra “raça”.

Quase três anos após a publicação desse livro, continuo observando, analisando e, principalmente, vivendo, situações que eu mesma confesso não saber chamar de outro modo, a não ser “racismo”.

Talvez para facilitar o conceito, talvez porque continuemos, consciente ou inconscientemente, acreditando que somos mesmo diferentes…  talvez porque esta palavra se impregnou no nosso DNA, de tal modo que acabou por modificá-lo, já que muitos de nós, negros, continuamos a aceitar sermos tratados como inferiores e continuamos a nos calar perante a supremacia branca…

Afinal de contas, nos acostumamos a ter que impor nossos direitos, a nos defender e por isso estamos cansados. Muitas vezes nos sentimos até ridículos, pois escutamos que é muito mimimi, mas a verdade é que crescer ouvindo comentários “racistas” é mais forte do que qualquer demonstração científica de que somos todos parte de uma única raça.

Cresci negra numa família composta por metade negros e metade brancos, cresci escutando que negro quando não caga na entrada caga na saída, que se meu nariz fosse mais afilado poderia até enganar um pouquinho minha raiz negra, que era melhor eu estudar porque, do contrário, nunca seria respeitada. Que o mundo é cruel com os negros, que sempre vou ter que trabalhar mais duro para ser respeitada…

Sem perceber, cresci tentando me embranquecer. Por ser a única negra da minha família branca, muitas vezes acreditava que eu também era branca. Só quando saia da minha bolha percebia que era diferente. Sem querer e sem nem dar importância, acabei sendo a outra várias vezes, tive namorados que me escondiam dos seus amigos e aceitava tudo isso calada, sem entender o porquê…

Acabei me casando com um branco, tive duas filhas aparentemente brancas. Continuei escutando isso, mas dessa vez do pai das minhas filhas. Inúmeras vezes, ao escrever um projeto e ter que apresentá-lo, ouvia as pessoas dizer:

– Melhor eu falar primeiro, você sabe como funciona, né?!
Não se vista assim, senão você vai parecer a típica brasileira e acabam te confundindo com uma puta
– Deixa eu entrar primeiro, depois você entra, assim nos tratarão melhor…
– Se você dançar assim vão pensar mal, você sabe como é quando veem mulata aqui na Europa…

Continuei sem dar importância, continuei me calando, aceitando uma situação que para mim sempre foi normalidade.

Hoje estou em processo de separação, sozinha com minhas filhas, num país que não é meu. De repente, as situações que há muito havia deixado para trás voltaram com ainda mais força.

Virei carne fácil, frequentemente ouço comentários desrespeitosos de pais de amigas das minhas filhas, escuto cantadas vulgares, comentários sobre meu corpo, desconhecidos se sentem no direito de me tocar…

Ao cruzar fronteiras, fui tratada mal. Solicitaram meu documento numa fila, enquanto não falaram nada para minha amiga branca que estava ao meu lado. Quando vou apresentar um projeto, tenho que levar alguém branco para poder iniciar a fala e, só desta maneira, ser levada a sério e, mesmo sabendo que o projeto foi idealizado por mim, os olhares e as perguntas acabam sendo mais direcionados para a pessoa branca.

E agora, que já não tenho mais alguém que entre antes de mim e me apresente, alguém que, por meio da sua presença, me faça ser respeitada, me percebo sozinha com minha cor e minha voz… E, mesmo assim, continuo me calando, porque cada vez que tento comentar tais situações, a primeira coisa que escuto é:

  • Deixa de mimimi;
  • É impressão tua;
  • Você está ficando paranóica;
  • Que é isso, você está muito na defensiva, cuidado para não ficar agressiva…

Entretanto, uma das coisas positivas da internet é que finalmente estou encontrando pessoas “paranóicas” como eu, que vivem situações parecidas às minhas.

Aos poucos começamos a falar, estamos perdendo o medo, estamos cansadas de nos calar, porque o silêncio nunca resolveu nada, porque quem cala consente e já nos calamos por muito tempo…

Estamos vivendo um momento histórico, ganhando mais força graças a pessoas como Djamila Ribeiro, Noemia Colonna, Joice Berth… O caminho é longo, mas parado não se chega a lugar algum.

Hoje escreveria minha crônica de um modo diferente, confesso. Se, por um lado, continuo defendendo que a utilização de uma palavra derivada de um equívoco científico acaba por dar ainda mais força ao racismo; por outro sou consciente de que é o nosso silêncio que continua reforçando este erro científico.

Afinal, a ciência já até comprovou que pertencemos a uma mesma raça, ou seja, a raça humana.

Ou seja, é o não reconhecimento da branquitude em relação aos seus privilégios, é o nosso inconsciente coletivo que continua dando força a um erro científico que provocou e ainda está provocando várias mortes e, infelizmente, catástrofes históricas também.