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Integração, Interação e Etnocentrismo: Uma Relação Sutil?

Por Veronica Botelho

Há alguns anos estudiosos da imigração iniciaram um debate a favor da utilização da palavra interação em vez de integração. É possível encontrar uma extensa documentação sobre esse assunto, que se tornou mais popular em diversas partes do mundo nos últimos anos.

Aqui na Itália, por exemplo, o filósofo Salvatore Natoli, professor de filosofia teórica na Universidade Bicocca de Milão, numa entrevista concedida em 2012 à Affari italiani, disse: “A integração é um conceito arriscado porque também significa assimilação, a interação é, em vez disso, um processo de intercâmbio gradual, mas as condições devem ser criadas para alcançá-lo”.

A primeira vez que ouvi a palavra interação social no lugar de integração foi uns três anos. Fui me apresentar, sem saber bem o que queria, a uma associação cultural que trabalha com formação linguística focada nos imigrantes, desde formação para professores, instituições e para interessados em geral.

Tinha acabado de começar a trabalhar no projeto de recolocação internacional People Interplay e me deparei com o site da Limo – Linguaggi in Movimento, que ainda não tinha muita informação, pois estava na sua fase inicial. Marquei um encontro e lá estavam três mulheres que transmitiam simpatia, curiosidade e amor pelo seu ofício. Comentei que tinha trabalhado em Barcelona (Catalunha), numa cooperativa social para a promoção da integração social e notei seus sorrisos tímidos, até que uma delas me interrompeu:

– Não estamos de acordo com o uso da palavra integração, pois, por meio do nosso trabalho, pretendemos contribuir para um modelo de integração diferente desse que é entendido como a adaptação do cidadão estrangeiro à sociedade de chegada, no sentido unidirecional; quando o que acreditamos é numa interação entendida como enriquecimento recíproco e bidirecional.

Sabe quando acreditamos numa ideia e nos damos de cara com uma outra que achamos bem mais interessante?! Pois foi exatamente o que aconteceu comigo e, como minha paixão por aprender é bem maior do que meu orgulho e amo quando alguém me faz pensar “fora da caixinha”, virei a casaca mesmo.

Trabalhei anos como voluntária para a “integração” de imigrantes na Catalunha, convivendo com pessoas com problemas de inclusão social e laboral e nunca tinha pensado na etimologia dessa palavra, tão utilizada.

Naquele instante, enquanto a escutava, também tinha um sorriso tímido. Agradeci sua explicação e expressei meu estupor por nunca ter pensado nisso. Elas também sorriram e seus sorrisos transmitiam satisfação, imagino que por ter ensinado mais uma pessoa sobre uma diferença aparentemente trivial, mas que está presente diariamente nas nossas vidas e de maneira tão significativa.

A partir daquele momento comecei a estudar tudo o que é inerente às duas palavras  e com a intenção de responder uma pergunta: Por que utilizamos integração no lugar de interação?

Se analisarmos a etimologia da palavra integração, esta deriva do latim “integrare – tornar inteiro, fazer um só, que vem de interger – inteiro, completo, correto”. Por integração social, segundo o Dicionário Aurélio, entendemos a “adaptação, incorporação de um indivíduo ou grupo externo numa comunidade, num meio”.

Analisemos agora a etimologia da palavra interação: deriva do latim “inter – entre e ação do latim agere – realizar, fazer”. Segundo o dicionário Aurélio, é a “1. Influência recíproca de dois ou mais elementos; 2. Fenômeno que permite a certo número de indivíduos constituir-se em grupo, e que consiste no fato de que o comportamento de cada indivíduo se torna estímulo para outro.”

Sem precisar ir muito longe, percebemos imediatamente como a palavra integração, utilizada dentro de um discurso de inclusão sociocultural, não é a mais adequada. Afinal, podemos falar que uma pessoa que chega numa nova realidade é incompleta? Está pela metade? É incorreta?

Ou seria mais apropriado falar de uma interação recíproca entre duas ou mais pessoas? Onde se dá e se recebe, sem nenhuma das partes se sentir mais “completa” do que a outra, mesmo que a intenção seja ajudar. Se considerarmos a etimologia e significado das duas palavras, teremos certeza de que não somos condicionados a nos sentir superiores ao que consideramos diverso?

E aqui entra a ligação com o etnocentrismo…

A palavra etnocentrismo deriva do grego “éthnos – raça, povo, centro + ismo – ideologia”. De acordo com o Dicionário Aurélio, etnocentrismo é “Visão ou forma de pensamento de quem crê na supremacia do seu grupo étnico ou da sua nacionalidade”. Dando uma explicação simples, uma pessoa etnocêntrica é aquela que considera que a sua cultura é o centro, ou seja, mais importante, a que dita as regras.

Será que estamos todes imunes ao etnocentrismo? Sinceramente, acredito que o sentimento que esse termo provoca pode ser comparado ao mesmo sentimento que a palavra racismo desperta. É difícil encontrar alguém que se reconheça como racista, mas infelizmente não podemos negar que ele – o racismo – é bem mais presente do que queremos aceitar.

Da mesma maneira, a palavra etnocentrismo provoca uma reação parecida (além da relação profunda com o próprio racismo). Afinal, quem admite se sentir superior ao próximo? Porém, quantas vezes escutamos alguém, ou nós mesmos, soltarmos frases tais como:

Minha cultura é superior!
Aquela cultura não é boa…
Eles são culturalmente atrasados…
Minha cultura é melhor!
Não confio nos nordestinos!
Carioca é malandro…

Bingo! Aqui está o etnocentrismo que praticamos diariamente e com a maior tranquilidade, porque crescemos condicionados pelo ambiente onde vivemos e sentir-se superior é uma tendência do ser humano, inclusive é um modo do nosso cérebro proteger a nossa identidade.

Agora que fizemos uma análise do significado de integração, interação e etnocentrismo, proponho uma reflexão:

Quando um estrangeiro chega a um país, a maioria das políticas utilizadas em prol da inclusão social se baseiam na palavra integração. (In)conscientemente, o país que acolhe considera o recém-chegado como alguém incompleto, alguém que precisa ser corrigido, ou seja, é uma ação unidirecional. E o fazem com a melhor das intenções, com a ideia de que está ajudando.

Eu ajudo os imigrantes a se integrarem (que vergonha sinto de mim mesma, falei isso por anos! rs)
Faço voluntariado para incentivar a integração social das classes menos favorecidas.
Trabalho com integração social de pessoas com problemas mentais… 

Essas afirmações, aparentemente inócuas, escondem como somos condicionados a nos sentirmos superiores aos demais, ao que consideramos diverso e, o pior, sempre achando que estamos contribuindo para melhorar uma situação.

E se considerássemos todos como iguais, cada um com sua bagagem cultural, suas experiências e ideias, e no lugar da palavra integração utilizássemos a palavra interação? A relação não seria mais equilibrada e justa? Sempre sob a perspectiva de dar e receber, de respeitarmos uns aos outros, tentando conhecer o diverso, encontrando os pontos de união e interação, encontrando as diferenças e respeitando-as. Cada ume se sentindo complete e se multiplicando na interação com e outro.

Poderia ser o início da neutralização do etnocentrismo presente na nossa consciência coletiva. Quem sabe, inclusive, um modo de neutralizar também o racismo, até que um dia ele desapareça, assim como o conceito de raça para se referir aos seres humanos está, aos poucos, desaparecendo.

O equilíbrio da comunicação é: eu dou e recebo, você dá e recebe. Desta forma, não há ninguém que se sinta superior.

A política social atual é fantasiada de “bonismo”, porque, na verdade, nesse contexto quem ajuda está incentivando uma dependência, a sensação de desconforto da pessoa que “precisa” da ajuda; sem contar que inconscientemente quem ajuda se sente superior, tocando naquela linha sutil entre altruísmo e egoísmo (tema para outra pauta, rs).

A longo prazo, a ajuda sai pela culatra, pois o ajudado se sente em dívida, dependente, inferior e incapaz de se ver como igual. Logo, falha-se em atingir o objetivo final, que é fazer com que a pessoa se sinta parte da sociedade, se adapte, se sinta em casa.

Adotando uma política que visa a interação, consideramos que a ajuda é mútua, evitamos esse dinamismo ao qual estamos tão acostumados e facilitamos um intercâmbio gradual.

Precisamos desconstruir significados usados há muito tempo e usar as palavras certas. Humanizar todos os seres humanos, reconhecer que podemos aprender uns com os outros e olhar-nos como o que somos: iguais, cada um com suas diferenças.

O caminho perdido dos fatos

Por Veronica Botelho

Cega pela nostalgia de cada terra que um dia deixei para trás,
apaixonada por cada terra que um dia abandonei:
embora você deixe a sua terra, ela permanece dentro de você,
embora você deixe muitas terras, essas já fazem parte de você
e você se perde dentro dos fatos

Podemos decidir as terras que queremos chamar de nossas
e cada uma ficará dentro de nós
dentro do nosso sentir
dentro do nosso pensar
dentro do nosso ser
e você se perde dentro dos fatos

O preço por tanto sentir
é não poder tocá-las ao mesmo tempo
o preço por tanto pensar
é não existir sem todas elas
o preço por tanto ser
é não poder renunciar a nenhuma delas
e você se perde dentro dos fatos

Sou cada lugar por onde passei
sou cada pessoa com quem conversei
sou fruto de muitos
saboreado por poucos
sou ar
sou vento
sou amor
sou sentimento
sou desejo de reencontro
reencontro das minhas terras
sou negação dos seus defeitos
sou exaltação dos seus desejos
me perdi dentro dos fatos

Na boca de todos
compreendida por poucos
sou nordestina no sul do Brasil
bicho raro no meu nordeste
catalã na Espanha
fiorentina na Itália
americana na Argentina
sou bicho do mato na Inglaterra
mãe na alta esfera
me perdi dentro dos fatos

Resultado de um mundo que se diz globalizado
consciente de vários pecados
cidadã do mundo com tantos passados
produto de um mercado
que não estava preparado
sou resultado de sonhos
perdidos dentro dos fatos

Estrangeira é a minha condição
resultado de tantos fracassos
desse mundo que se diz globalizado
um único presente
baseado em infinitas realidades
E o futuro?! Ah, está perdido dentro dos fatos!

Passo a passo para interagir com uma nova cultura

Por Veronica Botelho

Quando damos de cara com uma nova realidade, com um ponto de vista diferente do nosso, quando nos encontramos em novos ambientes, em situações diretamente condicionadas ao fator cultural. Interagir com uma nova cultura nunca é fácil!

Podemos estar falando de cenários dentro de uma mesma cidade, como de situações entre ocidente e oriente, países desenvolvidos e “subdesenvolvidos” (detesto essa palavra, me parece puro condicionamento (in) consciente ao etnocentrismo). Todavia com todas as diferenças culturais que possam existir, também existem condições que nos tornam iguais, que nos une.

Continue lendo “Passo a passo para interagir com uma nova cultura”

Integração, interação e etnocentrismo: uma relação sutil?

Por Veronica Botelho

(publicado no dia 23 de abril de 2019, em http://substantivoplural.com.br)

Há alguns anos, estudiosos da imigração iniciaram um debate a favor da utilização da palavra interação em vez de integração. É possível encontrar extensa documentação sobre o assunto, que se tornou popular nos últimos anos e em muitas partes do mundo.

Aqui na Itália, por exemplo, o filósofo Salvatore Natoli, professor de filosofia teórica na Universidade Bicocca de Milão, numa entrevista concedida a Affari italiani, em 2012, disse:

“A integração é um conceito arriscado porque também significa assimilação, a interação é, em vez disso, um processo de intercâmbio gradual, mas as condições devem ser criadas para alcançá-lo”. Continue lendo “Integração, interação e etnocentrismo: uma relação sutil?”

Pensamento fluido: ego e imperfeições

Ilustração do instagram @nablaandzibe

Por Veronica Botelho

Uma das coisas que a vida está me ensinando é que conhecer o passado das pessoas, com todos os seus fantasmas, segredos e medos, e permanecer perto delas em certos momentos de suas vidas, pode levar a um dos muitos paradoxos da vida: você perceberá que ao longo do tempo, se essas mesmas pessoas decidirem enterrar o passado, se escondendo atrás da máscara da perfeição (em vez de olhar para dentro e entender o que tem que aprender), você será enterrado junto! Continue lendo “Pensamento fluido: ego e imperfeições”

The power of Anitta: uma análise atípica

Imagem: Anitta e Kevinho (foto de divulgação)

Por Veronica Botelho

“O medo de que não vamos dar conta de crescer além de quaisquer distorções que possamos achar em nós mesmas é que nos mantém dóceis, leais e obedientes, definidas pelo que vem de fora, e que nos leva a aceitar muitos aspectos da opressão que sofremos por sermos mulheres.”

Audre Lorde

Minha adolescência foi marcada por muitos estilos musicais, mas sem dúvida um dos que mais lembro é o do grupo “É o tchan” – não existia festa em casa com amigas nas quais não acabávamos todas descendo na boquinha da garrafa, ou “segurando o tchan”. Lembro dos adultos olhando e rindo, e quantas mais olhadas e risadas, mais nos animávamos na dança. A verdade é que não lembro de nenhuma sensação que me mandasse além da minha idade, até porque naquela idade sexo era fora dos meus pensamentos, o conceito de vulgar também, a minha sensação era de dançar livremente e com coreografias ensaiadas. Não percebia nenhuma maldade.

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O mundo secreto das pessoas altamente sensíveis

Por Veronica Botelho

Nos últimos anos, termos como transtorno bipolar, esquizofrenia, depressão crônica e borderline ganharam um estranho protagonismo: apesar de serem doenças que deveriam ser tratadas com o maior respeito, máxima cautela, que precisam de diagnóstico por parte de um professional, elas viraram chacota, conversas de bar. Entraram no inconsciente coletivo como doenças das quais se envergonhar, “doenças de gente fraca”.

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As estações brincando com a percepção

Por Veronica Botelho

Aqui, na Toscana, foi necessário quase um mês para que as flores começassem a desabrochar, para o verde colorir nossos dias, para o sol acordar mais cedo e ir dormir mais tarde… um mês para a primavera chegar com todo o seu esplendor. Chegou tórrida, com sabor de verão, o que levou um mês, agora, parece um segundo… O verão começou a bater na porta, quase ao mesmo tempo que as flores começaram a desabrochar.  A primavera e o verão brincando com a nossa percepção de tempo. Continue lendo “As estações brincando com a percepção”

Crônicas da Veronica: “A vida é o que vemos dela”

Anna: Nossa, olhem esse casal que acabou de chegar… Um velho com uma moça tão novinha, que tristeza. Sem vergonha!
Julia: Você diz ele sem vergonha, né?! Porque ela, tadinha, deve precisar, e por isso aceita.
Carol: Imaginem quantos casos desse devem existir e daí, para o tráfico de mulheres, é só um passo… Que dó!

A conversa continuou o seu fluxo e entrou no campo sócio-político, bastaram alguns minutos e algumas cervejas, para resolver as desigualdades sociais do mundo.

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Diário da Veronica: “quando a inspiração encontra o paraíso”

Todos os dias eu escrevo. Escrevo na minha mente, escrevo sobre a conexão entre mim e o mundo e fica só para mim, como um diário pessoal que se cancela com o tempo… Difícil encontrar o momento para parar e escrever para o mundo o que aprendo com ele, ou talvez a verdade é que minha mente é mais rápida do que minhas mãos e, quando consigo parar, a inspiração já foi embora, ficando aquela sensação de ter “escrito” um belíssimo texto, e me sinto satisfeita com esse sentimento. Ou quem sabe prefiro essa sensação que é só minha e assim não dou a possibilidade a julgamentos? Quem sabe se o texto era belíssimo na minha mente e quando vou passá-lo para o papel perde o seu encanto? Quem sabe não é o medo de me expor que fala mais alto? Continue lendo “Diário da Veronica: “quando a inspiração encontra o paraíso””

REFUGIADO: a busca de um sonho, o encontro da utopia

Acredito que uma das funções de quem escreve é devolver às palavras os seus significados originais. Caso não seja possível, pelo menos tentar dar uma explicação, abrir um diálogo sobre o porquê uma palavra se perdeu pelo caminho, ganhando outra conotação, mudando sentidos, significados, mas, principalmente, tentar prestar atenção em como a sentimos. Uma palavra que escutamos diariamente, principalmente aqui na Europa e que está nos focos de cada noticiário, é a “refugiado”.
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Quanta razão tinha Umberto Eco: “o fascismo eterno”

Por Veronica Botelho

Após a execução da socióloga, feminista e militante dos direitos humanos brasileira Marielle Franco, em março de 2018, escrevi um texto onde fazia um paralelismo da situação atual em três lugares que considero como casa: Brasil, Itália e Catalunha. A conclusão a qual cheguei foi que a democracia está morrendo, está perdendo para um fascismo emascarado, e que estamos todos divididos, negando a realidade. Recentemente, me deparei com o texto “O fascismo eterno”, que o escritor, filósofo, semiólogo, linguista e bibliófilo italiano Umberto Eco escreveu em 1995, para uma conferência da Universidade Columbia, de Nova York, durante celebração da liberação da Europa. Com esse texto, mais uma vez Umberto Eco nos faz refletir e encontrar respostas para o que estamos vivendo.

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Choque cultural: quando o desejo de conhecer o mundo se transforma em pesadelo

Por Veronica Botelho
Counselor cultural

Morar no exterior pode ser visto como uma experiência estimulante, que incentiva a abertura de novas formas de perceber o mundo, alimentando a nossa curiosidade, aumentando nossa criatividade e aprendizagem, mas nem tudo são “flores”. Sair da nossa zona de conforto por decisão própria, estimulada pela curiosidade de conhecer “o mundo”, pode facilitar o processo, mas e quando decidimos sair em busca de uma vida melhor, ou porque nos casamos com uma pessoa de outra cultura, ou por causa de uma boa oferta de trabalho, ou porque estamos fugindo de situações de violência, guerra, insegurança e quando o desejo de conhecer o mundo depende de situações que queremos mudar? Continue lendo “Choque cultural: quando o desejo de conhecer o mundo se transforma em pesadelo”

“Que tipo de globalização queremos?”, de Marc Torra

Artigo de Marc Torra
Tradução de Veronica Botelho

Abstract

A globalização envolve um processo de “interação” e “integração” de povos e economias. Este artigo discute se o aspecto de ‘integração’ do processo levará inevitavelmente à homogeneização cultural ou se, ao contrário, o aspecto ‘interação’ pode ajudar a fortalecer as identidades culturais. Continue lendo ““Que tipo de globalização queremos?”, de Marc Torra”

“Ser diferente não é um problema, é riqueza”, Emma Franchini

Livro: Wonder, R.J. Palacio
Redação: Emma Franchini

Desde o começo da minha escolarização, sempre amei ler. Lia qualquer livro que me atraísse ou me aconselhassem, não importava argumento ou se correspondia à minha idade. Ao fazer isso, ao longo dos anos eu li muitos livros, alguns mais interessantes, outros menos, mas apenas um realmente me deixou um ensinamento que carregarei sempre comigo, onde quer que eu vá e quem quer que eu encontre. Este livro é Wonder, de R.J. Palacio. Continue lendo ““Ser diferente não é um problema, é riqueza”, Emma Franchini”

A artista por trás da mão

A força da imagem da mão que oferece a flor, obra Kindness (gentileza), símbolo do livro Meias Verdades, da escritora Veronica Botelho, está no poder da escolha. A mão que pode bater é a mesma que acolhe.  Então, que a opção seja pela oferta de amor. O livro não poderia ter melhor representação.

A artista por trás da ilustração é a italiana Carla Bruttini. “A ideia surgiu de forma intuitiva, num mundo onde tem havido pouco espaço para a bondade”, explica Carla.  Em Kindness, Carla utiliza uma técnica mista com colagem, cada uma é diferente, única e original, a forma é a mesma, como a própria raça humanaContinue lendo “A artista por trás da mão”

Marielle, presente no mundo.

Ilustração: Giulia Cavalcanti  Instagram @giulialovesmuffins

A execução de Marielle é um reflexo do que está acontecendo em vários lugares do mundo.

Quando decidimos morar fora do nosso país de origem, nem sempre pensamos no tempo que perderemos. No meu caso, no início era tudo descoberta. Vir morar no exterior no final dos anos 90 foi uma escolha, não uma necessidade. Passei vários anos tentando entender como funcionava as culturas com as quais começava a entrar em contato. Aprendi que eu, como jovem negra, era mais respeitada e aceita fora do meu próprio país. Aprendi, vendo na prática, que existia um respeito pelas pessoas, e naquela época a curiosidade pelas diferentes culturas na Europa era mais forte que os casos de “racismo” e xenofobia. Aprendi a lutar junto com amigas catalães, pelos direitos humanos, pelo direito a se ter uma voz, comecei a me interessar mais pela política, a entender a importância da implicação dos jovens na mesma. No Brasil vivia numa situação privilegiada e fora da realidade da maioria, mas só percebi a incoerência e injustiça existente, quando comecei a viajar. Foi na Catalunha que aprendi a importância de lutarmos juntos por nossos ideais, por nossos direitos. Foi lá que aprendi a importância de não nos calar!
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Dica de leitura: “Mais Platão, menos Prozac”

Final de agosto de 2000, chegava para morar em Barcelona, cidade que tinha visitado várias vezes, graças a uma tia que morava lá. Foi a primeira cidade europeia que coloquei os pés. Em dezembro daquele ano, estava trabalhando na cafeteria dessa tia e nas horas vagas eu lia. Um dos livros foi “Mais Platão, menos Prozac”, do filósofo Lou Marinoff. É uma crítica às terapias psicanalíticas e antidepressivas tradicionais e uma defesa ao uso do aconselhamento filosófico.
O best-seller, que vendeu mais de 500 mil exemplares nos Estados Unidos, mostra como identificar problemas, expressar emoções de forma construtiva e usar a filosofia para ajudar a fazer escolhas. De forma acessível, o livro traz estudos de casos a partir de experiências de conselheiros filosóficos, para apoiar a defesa da prática. O objetivo de tudo isso? Equilíbrio pessoal, tentar conhecer o mundo e a nós mesmos através da filosofia.

Lembro da sensação ao ler esse livro, tinha 22 anos, estava no meio de uma crise de identidade, ansiosa pelo futuro, e como a cada página (depois das primeiras 100 risos) eu sentia que alguma lição estava aprendendo.
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Brasil: Um país multicultural?

Imagem: Giulia Cavalcanti  Instagram @giulialovesmuffins

Quando penso no conceito de multiculturalismo, automaticamente penso num lugar onde diferentes culturas convivem pacificamente, respeitando umas as outras e interagindo entre elas. Penso numa sociedade onde não se julga a cor da pele, a classe social, o gênero, a proveniência familiar. E não, não penso no meu país de origem – Brasil.

Quando falo do meu país, me vem em mente uma sociedade com várias realidades culturais. Mas para mim, “multi” seria multiplicar, e o Brasil onde vivi, não conseguiu se multiplicar, pelo menos não ainda. “Em vez de multiplicar, se divide. Divide-se em classes sociais bem distintas; divide-se territorialmente por regiões, como também entre territórios de negros e de brancos; favelas e asfaltos; Norte e Sul…” Edilberto C, professor e poeta potiguar.

As minorias culturais conseguiram sobreviver dentro de uma invisibilidade, consequência de um passado de colônia, mas principalmente consequência de continuar sombra de um passado, que como sabemos não pode ser mudado. Esse passado pode ser assimilado, aceitado, para poder transformar o futuro, através de ações “aqui e agora”.

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Apropriação cultural: será que entendi?

Imagem: (reprodução/youtube)

A beleza do mundo é a sua diversidade. Podemos gostar de um determinado pintor, um determinado poeta, nos identificar com um tipo de literatura, de música, mas é inegável a influência da arte no nosso dia-a-dia. Por arte entendo qualquer e toda expressão artística que comunica, com quem a aprecia ou não.

A comunicação é a força da arte.
Pegamos como exemplo o último videoclipe da cantora Anitta, lançado recentemente. Três minutos e vinte e seis segundos que provocaram uma chuva de comentários, (re)abrindo o debate sobre vários temas. Duzentos e seis segundos que foram capazes de (re)trazer a tona desde objetificação do corpo feminino à apropriação cultural.

A música, expressão artística com capacidade de comunicação tão vasta, que existem poucas capazes de chegar a tantas pessoas, de tantos ambientes diferentes. Uma mistura de interpretações, um cruzamento, quando se ataca, ou uma multiplicação, quando se respeita. O poder de comunicar a tantos pontos de vista diferentes deixa a música vulnerável a diferentes interpretações, ficando muitas vezes com um sabor agridoce, provocando um conflito interno, propício a despertar a hipocrisia presente na nossa consciência coletiva (https://goo.gl/DYxhYj).
Confesso que não conhecia Anitta, nem era ou sou familiarizada com o funk. A primeira vez que a vi foi nesse videoclipe “Vai Malandra”, que provocou textos como este, em vários lugares do mundo, que em pouco mais de uma semana teve quase 100 milhões de visualizações. O cenário é a favela carioca, com figurantes moradores de lá, destacando a cultura da comunidade, com muita dança, alegria e sorrisos.
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Gene Hackman e Betsy Arakawa - Veronica Botelho

O que podemos aprender com a morte de Gene Hackman e Betsy Arakawa: Reflexões sobre presença e ausência

A morte é uma maneira dolorosa de ensinar a importância do presente, mas e quando o esquecimento faz parte desse presente?

Duas semanas atrás, quando soube que Gene Hackman e sua esposa Betsy Arakawa haviam sido encontrados mortos, juntamente com um de seus cachorros, após dias de isolamento, minha maneira de prestar homenagem foi escrever um artigo sobre ele e o seu legado. Descobri a história de um casal que se conheceu há mais de 30 anos em uma academia, e que viviam em sintonia entre atividades esportivas e várias paixões em comum: música (ela era pianista), escrita (os dois escreveram alguns livros em colaboração), pintura e o amor por cachorros.

Até então, só conhecia o Hackman, brilhante e discreto ator. Pesquisando para o texto, li detalhes de como os corpos tinham sido encontrados, sobre o estado de decomposição, sobre o dela ter sido encontrado ao lado de remédios pelo chão e um pequeno calefator. Comecei a fantasiar sobre como deveriam ter morrido. 

No último domingo, com a divulgação de mais detalhes sobre a morte deles, quis escrever mais, mas fui invadida por um amargor que contagiou minhas entranhas, como se o fel tivesse se rompido, e paralisei.

Gene Hackman e Betsy Arakawa - Veronica Botelho
Gene Hackman e Betsy Arakawa – Veronica Botelho

Cresci escutando que notícia ruim não chega, voa. Vivi isso na pele várias vezes, muito antes de existirem celulares. Hoje, na era da hipercomunicação, já virou clichê falar que estamos cada dia mais desconectados, mas continuamos caminhando em direção a um abismo ainda mais profundo: o da indiferença. Não é apenas o isolamento que nos assombra, mas a anestesia do olhar humano em sociedades onde estamos cada vez mais centrados no próprio umbigo, ou no ataque aos outros, às polêmicas, de tal forma que não enxergamos sequer o vizinho da casa ao lado.

O sentir-se sozinho por entre a gente já não se faz mais referência apenas ao amor, como dizia Camões. Hoje, sentir-se sozinho por entre a gente vem acompanhado de sentir-se sozinho por entre as máquinas, nos scrollings infinitos nos sociais… vem acompanhado de sentir-se esquecido.

A autópsia revelou que a pianista contraiu um vírus raro – hantavírus – e faleceu 7 dias antes do seu marido. Ele morreu por complicações cardíacas agravadas pelo Alzheimer.

Especialistas sugerem que, devido ao estado avançado de Alzheimer, ele pode não ter percebido de imediato que Betsy estava morta, ou que, durante os 7 dias em que sobreviveu sozinho, tenha revivido, repetidamente, a sua perda.

Nunca poderemos saber exatamente o que aconteceu naqueles dias. São muitas perguntas sem resposta: Por que sua esposa não pediu ajuda ao começar a se sentir mal? Se mantinham uma boa relação com os filhos, como ficaram dois meses sem contato algum, incluindo Natal e Ano Novo? A cuidadora da mãe de Betsy, que também tem Alzheimer, declarou que a filha sempre ligava, porém desde outubro não recebia nenhuma ligação. Como ninguém estranhou esse silêncio? Como a ausência do casal permaneceu despercebida por duas semanas? Por que tinha um calefator pequeno ao lado do corpo de Betsy?

O calefator sempre fez parte das fantasias que criei. Foi esse detalhe, antes mesmo das autópsias, que me fez pensar que ela tivesse morrido primeiro. Imaginei que, ao encontrá-la fria, ele pegasse o calefator numa tentativa de aquecê-la, sem compreender que ela tivesse morrido. 

A ideia de que ele tenha passado dias sem entender o que havia acontecido, ou revivendo sua morte como uma notícia sempre nova, me parece uma das formas mais cruéis de sofrimento mental. Não consigo pensar em nada mais agonizante: viver várias vezes o primeiro momento de saber que alguém que amamos morreu, na mais precisa exemplificação da relatividade do tempo – o luto dilata, o expande, os segundos passam como dias, os minutos como meses.

Não consigo tirar da minha mente a imagem dele tentando aquecer o corpo inerte da sua companheira, sem entender por que ela não respondia, sentindo desespero, até morrer 7 dias depois.

O silêncio do esquecimento, a impotência na sua forma mais desesperante. Quando o esquecer que se foi esquecido parece ser a única coisa que poderia trazer um mínimo de alívio nessa história atroz – estar sozinho e esquecido. Morrer e não ser mais notícia ruim, para voar.

A morte deles nos diz muito sobre a sociedade na qual nos transformamos: egocêntrica, individualista e superficial.

CNN Brasil - Veronica Botelho

Racismo em famílias inter-raciais é tema de livro, mas existe além da ficção

O racismo desde o ambiente familiar é o ponto de partida da narrativa de “Inverno”, de Verônica Botelho • Freepik

O racismo no ambiente familiar é o ponto de partida da história de Isabel no livro “Inverno” (e-Galáxia), escrito pela piauiense Veronica Botelho. Fruto de uma relação inter-racial, mas criada unicamente por familiares brancos, a jovem sente na pele as tensões vividas por famílias inter-raciais, com o racismo aparecendo em pequenos elementos do cotidiano.

Criada pela mãe Madalena, Isabela cresceu com a família materna em Maceió, Alagoas, sem saber qual a origem de seu pai. A única referência que tem dele é o relato de um abandono paterno, enfatizado constantemente pelo racismo da própria avó. No entanto, ao encontrar cartas escritas pelo pai que contradizem a narrativa sobre sua origem, a personagem inicia sua jornada de autodescoberta e mergulha em suas raízes e ancestralidade.

“A inspiração [para escrever o livro] veio da convivência próxima com pessoas negras retintas, que me permitiu testemunhar experiências profundamente impactantes”, conta Botelho, em entrevista à CNN.

“Ouvi relatos de microagressões diárias em ambientes familiares, histórias de resistência silenciosa, e narrativas de autodescoberta. Por exemplo, a forma como muitas pessoas precisaram desenvolver estratégias de sobrevivência emocional desde muito cedo, ou como aprenderam a navegar espaços predominantemente brancos, enquanto se retalhavam para encaixar, ou pior ainda, para não serem vistas”, completa.

Para a autora, o racismo dentro das famílias ainda é um tema pouco discutido, e o ambiente familiar, muitas vezes, normaliza o preconceito de formas sutis e diárias. “São pequenos comentários, piadas e atitudes que passam de geração em geração sem serem questionados. Confrontar esse racismo é especialmente desafiador porque mistura amor com dor, afeto com discriminação”, observa.

Esse é um dos motivos que a fez abordar o tema por meio da literatura. “Em vez de simplesmente dividir o mundo entre pessoas boas e vilãs, busco mostrar a complexidade dessas relações familiares. Acredito que, ao nos vermos refletidos nessas histórias, podemos começar conversas difíceis, mas necessárias, sobre como o racismo se manifesta em nossas próprias famílias, e ampliá-las de maneira mais natural e resolutiva ao coletivo”, afirma.

Veronica Botelho é licenciada em Psicologia Social e das Organizações pela Universidade de Florença, e atualmente cursa mestrado em Psicologia e Neurociência da Saúde Mental no King’s College London. É autora de “Inverno”. • Divulgação

Preconceito em famílias inter-raciais está longe de ser apenas ficção

O racismo no ambiente familiar inter-racial vai além da ficção e é uma realidade presente em muitas casas brasileiras. A psicóloga social Lia Vainer Schucman, especialista em estudos de branquitude, investiga o assunto no livro “Famílias inter-raciais, tensões entre cor e amor“. À CNN, ela explica que o preconceito nas famílias inter-raciais é uma forma do racismo estrutural.

“Se pensarmos que algo é estrutural, ele está em todas as relações e em todas as instituições. Então, no interior das famílias também há uma hierarquia desigual. Se pensarmos em classe, quem tem mais dinheiro na família é o que mais toma decisões. Se pensarmos em gênero, as mulheres acabam tendo mais trabalho doméstico por conta dessa hierarquia. O racismo também produz essas dinâmicas em famílias inter-raciais, de várias formas”, afirma.

Segundo Schucman, 33% das famílias brasileiras são inter-raciais e, em muitas dessas famílias, pode haver o reforço de estereótipos relacionados a pessoas negras. “Muitas das famílias que eu entrevistei falavam: ‘Meu marido é negro de alma branca, ele estudou bastante’ ou ‘meu filho é moreno claro, ele não é negro’”, conta. “Uma das dinâmicas mais presentes [praticadas por pessoas brancas em famílias inter-raciais] é negar a negritude do outro”, completa.

A psicóloga também explica que ainda há uma visão distorcida do que é racismo e uma dificuldade maior em compreender que o problema existe dentro do ambiente familiar.

“As pessoas aprenderam a entender que o racismo é aquilo que acontece nos Estados Unidos ou na África do Sul, quase como um apartheid [segregação]. Na verdade, o racismo é uma hierarquização de valores. As pessoas não conseguem enxergar que alisar o cabelo do filho negro é racismo, ou que colocar um pregador no nariz para afinar, como eu ouvi relatos, é racismo. Eles acham que racismo é segregação, e, como estão juntos, em família, eles não entendem o que é racismo”, observa Schucman.

Racismo em famílias inter-raciais pode trazer impactos para saúde mental

A família, constantemente, é enxergada como um ambiente seguro e de acolhimento, em que valores pessoais e aprendizados importantes são construídos desde o início da vida. No entanto, também pode ser um ambiente que cria traumas, principalmente em casos em que o racismo está inserido no cotidiano de formas sutis.

“É muito importante que se tenha um exemplo dentro da família, porque o que eu vi nas minhas entrevistas é que aquela família em que a questão racial estava bem resolvida, as crianças conseguiam estar mais fortes para enfrentar um caso de racismo fora do ambiente familiar”, aponta Schucman. “Já aquelas que viviam racismo dentro da família, quando recebia fora, aquilo coincidia, então a pessoa achava que ela era o problema, e não o racismo”, afirma.

A psicóloga cita um relato de seu livro em que uma jovem chorava toda noite por não entender porque nasceu diferente de sua mãe, no que diz respeito ao tom de sua pele. “O efeito foi tão grande que ela começou a odiar o próprio pai, que era negro. Então, para ela, era como se o pai tivesse passado o efeito de cor”, conta.

Afirmação da negritude é fundamental

Na obra “Inverno”, a personagem Isabel inicia uma jornada por suas raízes ao se aproximar do pai Renato e de sua tia Clotilde. Nesse processo, ela se muda para Aracaju, em Sergipe, e, posteriormente, para a Itália. A descoberta de sua negritude e ancestralidade.

“Sua descoberta da negritude reflete muito a realidade do Brasil. Costumamos nos orgulhar de ser um país multicultural, mas essa palavra esconde um problema: a coexistência nem sempre significa diálogo verdadeiro e troca entre diferentes visões de mundo”, afirma Botelho.

“É como uma roda de conversa onde todo mundo pode estar presente, mas só algumas pessoas têm o microfone e o controle do volume. Mesmo quando outras vozes conseguem o microfone, alguém ainda pode diminuir ou aumentar o volume delas. Isso seria multiculturalidade: diferentes culturas compartilhando um espaço, mas com o poder de fala e escuta ainda controlado por alguns. A pluriculturalidade seria quando o microfone circula e cada voz tem seu momento de falar e ser verdadeiramente ouvida”, completa. “A jornada de Isabel é sobre descobrir sua voz num mundo onde muita gente ainda não está pronta para passar o microfone adiante”, acrescenta.

A valorização da negritude e da cultura africana também são fatores importantes para o processo de autodescoberta e aproximação da ancestralidade para outras pessoas que vivem em famílias inter-raciais.

“Se estivéssemos em uma cultura em que o significado de ser negro fosse positivo, o racismo nunca estaria acontecendo. Porque a raça não existe como essência, ela é uma construção”, afirma Schucman.

Capa do livro “Inverno”, de Veronica Botelho • Divulgação

Título: “Inverno”
Preço: R$ 50,90
Autor: Veronica Botelho
Editora: e-Galáxia
Ano da publicação: 2024

Publicado em CNN Brasil

Flip - Veronica Botelho

Minha primeira vez

Muitas pessoas têm me perguntado como foi a minha primeira Flip. A primeira resposta que me veio à mente foi um post que publiquei quando estive na Índia, em 2018. Um momento em que tudo parecia sem cor, em que observar era a única alternativa para não desmoronar, e acreditar (ter fé) foi o que me permitiu continuar.

Mas essa história começou muito antes, em 2004, quando morava em Barcelona. Foi a primeira vez que ouvi falar de Paraty, e uma das vezes em que senti saudade de casa. Desde então, comecei a fantasiar com o dia em que estaria lá.

No final de 2020, voltei a morar no Brasil, e um dos primeiros lugares que decidi conhecer com Chris — meu companheiro e também o melhor crítico literário que conheço — foi Paraty. Foi lá, dentro de um barco à vela, que Cate, minha terceira filha, começou a existir. Cogitei ir à Flip em 2022 e 2023, mas algo me dizia para esperar. E esperei.

Flip - Veronica Botelho

Esperei até esse ano e, quando saiu a programação, quis comprar ingressos para duas mesas: a com Lisa Ginzburg e a com Mohamed Mbour Sarr. Consegui apenas a primeira, que coincidia com o dia do meu aniversário — o mesmo dia em que lançaria meu segundo romance.

Antes da viagem, a sensação era de total euforia; sentia que algo muito bom estava para acontecer. As semanas em que eu e minhas três filhas pegamos coqueluche, os três dias no hospital, os choros solitários pela solidão, os receios, os medos… tudo parecia ter ido para a mais recôndita memória, mas as das mulheres — esquecer o que precisa para seguir adiante.  Como se aprecia no livro de Mohamed. Foi com essa energia que cheguei na quarta-feira a Paraty. E levei minhas filhas junto. Para completar o estado de alegria, Chris chegaria no dia seguinte.

Depois de muitas tentativas, consegui conhecer pessoalmente uma amiga virtual – Rebecca. Ignorei como o cansaço de dirigir quatro horas e a fadiga das meninas, por ficarem tanto tempo no carro, poderiam permear o nosso encontro. O que ela presenciou e compartilhou foi o meu caos.

Às 18h, com o sorriso constrangido de quem vai à casa de alguém pela primeira vez, sem saber por onde ou como se mover, entrei na Casa Escreva, Garota!. O lugar que seria a minha morada por alguns dias. Agradeci por Rebecca ter intuído a situação, e ido junto comigo.

Escolhi mal meus horários e fiquei muitas horas quase sem conversar com ninguém. Não apenas não vendi nenhum livro, como as pessoas nem se interessavam por eles. Eu sabia o que tinha que fazer: levantar, oferecer meus livros, explicar, sorrir, mas não conseguia. Estava congelada. Vi nos olhos de uma das minhas filhas aquela expressão de quando deixamos de acreditar que nossa mãe é uma heroína e nos deparamos com a realidade de que ela é apenas uma pessoa fazendo o melhor que pode.

Naquela noite, quando cheguei em casa, li o texto da maravilhosa Jeovanna — uma pessoa que virou amiga graças à sincronicidade. Nele, ela chorava por não estar lá. E eu chorava por estar. A desconhecida cama fria, foi a minha companheira.

Na manhã seguinte, Chris chegou, finalmente as minhas lágrimas tinham um abraço onde se demorar. Passamos uma parte do dia juntos, até eu voltar para a Casa. Teria sido a mesma coisa se eu não tivesse conversado com a poeta Ana Júlia. Eu sempre me inclino diante de pessoas que emitem aquela luz presente na aurora boreal. Encontrá-la, foi mais um presente da sincronicidade. E foi sobre isso que falamos, mas com outras palavras. Como ela mesma expressou num post: “Paraty nos deu de presente a presença!… como a fatalidade da morte nos obriga a encarar a dor gelada do ‘dia da morte’, ela nos obriga a estar presente da maneira mais cruel.” E eu completo: graças a essa dor, aprendemos a importância de viver cada momento o melhor que podemos. Aprendemos o que realmente importa. Aprendemos a viver! Fui dormir com a energia renovada e abraçada.

Flip - Veronica Botelho

Chegou a sexta-feira, com ela aquele sorriso que invade o meu rosto há 46 voltas ao sol, 50 primaveras, 50 verões, 50 outonos e 50 primaveras — minhas idas e vindas multiplicaram as estações. Com minhas filhas Cate e Camilla, e Chris, fomos ver a mesa da qual participaria Lisa Ginzburg, mediada por Adriana Ferreira, uma pessoa cujo trabalho admiro muito. Lisa, com sua serena eloquência e sabedoria, disse coisas que ressoavam em mim. Falou da força de se deixar guiar, da importância de estar presente, mas quando mencionou a sincronicidade, especificando que é um conceito de Carl Jung, da mesma maneira que eu faço e que todos que me conhecem sabem, tive a certeza de que o único lugar onde eu poderia estar era ali.

Na saída, encontrei e tirei uma foto com Adriana e sua irmã Vanessa. Compartilhamos sorrisos e abraços.

De repente, senti um vento frio que invadia a minha existência. Precisava escrever, só não tinha onde. Descobri que, na cidade que mais representa a literatura no nosso país, não existem muitos espaços onde é permitido sentar com um computador e escrever. Demorei quase 1 hora para encontrar um lugar. Sentei, escrevi, desaguei, me renovei. 

Quando me senti aquecida, saí e esbarrei com Mariana Carrara na porta da Casa para Todos, onde voltei para comprar um livro, o dela. Na saída, ela continuava lá, e eu, com toda a minha timidez de estar invadindo o espaço de alguém, pedi um autógrafo e ofereci meu livro. Ela, com uma empatia que vi em poucas pessoas, percebeu que eu gostaria de uma foto, retirou o meu livro já guardado na bolsa e, com um sorriso sincero, pediu para sua amiga Camila tirar a foto. Fiquei sabendo que ela é a mesma Camila do livro que eu tinha nas mãos.

Senti a energia crescendo, e aproveitei para flanar – palavra que ouvi em diferentes momentos, dita por diferentes pessoas por Paraty. 

Fui para casa, fiquei um pouco com minha família, incluindo Íris, mais uma amiga que a Itália me deu. Me preparei e fui encontrar Paula Jacob. Com as indicações de Ana Paula e Maria Carolina, o sucesso do nosso encontro já era garantido. Conversamos sobre muitas coisas e chegamos juntas ao evento. Com a energia nas alturas. Tudo parecia fluir: a conversa, o público atento, as intervenções, as vendas dos livros, os autógrafos… Senti a energia que Lella se esforça para colocar em palavras. Depois, com minha família, fomos comer uns petiscos. De repente, vejo Lisa Ginzburg passando em frente à nossa mesa e, sem pensar duas vezes, a chamei. Ela parou, me apresentei, apresentei minha filha Camilla, que queria conhecê-la. Um encontro breve, mas que não poderia ter sido mais intenso, como se já nos conhecêssemos. Para mim, já poderia voltar para casa. Sorri e agradeci mais uma vez à sincronicidade.

As meninas voltaram para casa com Aline e Chris, Íris e eu fomos atrás de boa música, ou melhor, do que queríamos escutar, porque se uma coisa Paraty tem, são bons músicos. Pegamos o finalzinho do concerto de jazz do projeto Atlântico Sul Music. Na entrada, encontrei Cris Sushi, pessoa com quem compartilhei o início da minha vida em Florença e um pedacinho em Barcelona. 

Encerrei a noite dançando Blitz de Evandro Mesquita, Kid Abelha, Paralamas do Sucesso, Rita Lee… na casa que Íris comentou ser a balada dos jornalistas.

No dia seguinte, me dirigi mais uma vez à Casa Escreva, Garota!. Sorri, conversei, vendi alguns livros e comprei muitos outros. Conheci mulheres que compartilham o meu mesmo sonho — ser lida, multiplicar palavras, levar mensagens, continuar aprendendo. Pude encontrar Ana Júlia mais uma vez. Com as escritoras Mari e Patrícia, tive um daqueles papos literários que começam em pé e acabam sentados numa mesa de restaurante. Foram tantas trocas que, por mim, poderíamos marcar um aperitivo virtual semanalmente.

No domingo, fizemos um passeio de barco. Voltei à Ilha dos Cocos e do Algodão, e dessa vez acompanhada de minhas filhas. 

Em Paraty finalizei a leitura de Como amar uma filha, da Hila Blum, e Fechar os Olhos, de Byung-Han, e comecei A Vegetariana, de Han Kang. 

Todos os dias, Eduardo, descendente de italiano, espanhol e alemão, nos levava e trazia do centro. Conheci um pouco mais de Paraty pelos olhos dele e fui presenteada com duas mudas de ipê. E ele comprou meus livros para sua esposa. Conheci também Gustavo, 11 anos, aprendiz dedicado de marinheiro. 

A casa onde nos hospedamos emanava a energia de que precisávamos, e acredito que fosse por causa da atenção e carinho com que Fabiolo, o responsável por ela, a cuida e recebe as pessoas.

Bruna garantiu fotos que em breve estarei postando. Conheci Tais, Vanessa, Monica e Sol pessoalmente. Acompanhei mais uma vez o trabalho incrível de Lella. Recebi o carinho de Manu, Milena e Natana. Provei a melhor comida Thai da minha vida. Conheci e vibrei com mulheres incríveis. Conheci as meninas da Com.Tato. Encontrei amigos virtuais. Revi amizades que nasceram em SP. Fiz amizades que sinto que durarão. Vendi muitos livros. Sorri a cada Meias Verdades, meu primeiro livro escrito em 2016.

Então, esta é a resposta — íntima, inveterada, flanada — sobre como foi a minha primeira Flip. O que levo da Flip é o deslumbre da primeira vez. Aquela mesma sensação de quando aprendemos a andar de bicicleta, a ler, a escrever. De quando pela primeira vez vemos a neve, uma plantação de girassóis, de tulipas. Do primeiro banho no Mediterrâneo, da primeira vez que vemos o Duomo de Florença… Levo as cores.

Agora entendo o texto de Jeovanna, com o qual muitas pessoas que conheço se identificaram. Por isso, espero que no próximo ano a gente se encontre por lá, ou quem sabe a gente se deslumbre juntas em outro lugar…

O tempo

Por Veronica Botelho

Ondas contínuas
Transbordam o sereno azul do mar
Enaltecem a beleza de cada momento
Misturam-se ondas de outros tempos
Presente, passado e futuro
Oxalá parasse, oxalá continuasse, oxalá…

Trecho do livro Meias Verdades, pág. 17

Mudanças e Reencontros

Por Veronica Botelho

Algo está mudando. Sinto como se uma frase que escutei de um ex muitos anos atrás (minha relação Lolita) finalmente começasse a se perder no tempo e nas sensações, deixando espaço para reencontros…

“Ler mulher é chato e entediante, porque mulher quando escreve sempre acaba falando dela, de outras, delas… Uma chatice única e auto-referencial.”

Desde que ouvi essa afirmação, mais de 15 anos se passaram. Já são mais de 15 anos evitando e escondendo minha própria voz, mais de 15 anos escrevendo e me esforçando para não escrever de maneira “entediante”, mais de 15 anos me esforçando para não escrever como o que sou: uma mulher negra.

É incrível como agora, neste exato momento em que escrevo essas palavras, me vem um sorriso nos lábios e o pensamento: Como pude deixar que alguém me calasse tão profundamente?

Para as pessoas negras, não sou negra o suficiente; para es brancas, sou muito negra; para os burgueses, sou muito socialista e anarquista; para os socialistas, sou muito burguesa e anarquista; para as pessoas europeias, sou brasileira e latina; para as brasileiras, europeizada; para as pessoas da minha idade, sou jovem demais; para os jovens de verdade, velha; para os acadêmicos, sou a massa; para a massa, sou intelectualizada demais […]

A única coisa com a qual todos concordam é que SOU UMA MULHER e foi justo na minha única certeza de existência que me permiti ser silenciada. Permiti que calassem a voz da única coisa que posso afirmar sem ser questionada, sem que meu interlocutor duvide minimamente. Mas até nisso fui calada. Fui calada com meu consentimento, fui bloqueada na minha essência, no meu ser, fui bloqueada no único lugar que sentia ser meu: a escrita.

O paradoxo disso tudo? A pessoa que me reconectou com a escrita, com a literatura, com a poesia… que me reconectou com uma parte de mim que estava adormecida pela necessidade de ser aceita; foi a mesma que me desconectou da minha essência, do meu ser mulher, o único porto seguro que eu conhecia.

Aprendemos com as experiências, as nossas, mas também as das pessoas que encontramos pelo caminho nessa viagem chamada vida e morte. Estamos numa contínua corda bamba, por isso aceitar os paradoxos da vida nos liberta. Reconhecer as poucas certezas nos traz serenidade.

Sou grata por ter compreendido aquela afirmação, mesmo que para isso tenha levado mais de 15 anos. Porque aprendi muito, me esforcei para escrever como homem, aprendi a sair de mim e hoje me reencontro. E reencontros têm um sabor diferente, ampliam a sensação do tempo e são também o resgate de épocas e momentos que pareciam perdidos. Levei mais de 15 anos para entender que me aceitar como sou é a única aceitação que realmente importa. Essa é uma das poucas coisas privadas de paradoxos. Uma das poucas certezas da vida. Onde tudo começa.

E hoje, aqui estou, me reapropriando da minha voz, aceitando quem sou, como sou, me reconhecendo e compartilhando tudo o que ficou entalado por tantos anos; tudo o que descobri e vou descobrindo, tudo o que vivi e vou vivendo. Refletindo sobre os infinitos paradoxos e as poucas certezas. Mudando e me reencontrando.